Esta proclamação, supposta portugueza, era provavelmente hespanhola: forjada pelos emissarios que Prim, ao tempo, sabidamente tinha em Portugal. Se o general relesse os despachos de Quesada, quatro annos atraz, se tivesse genio para auscultar bem o temperamento do paço, do governo, e do povo, reconheceria mais cedo como perdia o tempo. D. Luiz nunca foi Victor-Manuel, nem Carlos-Alberto, nem Guilherme IV; Fontes não era evidentemente um Cavour, nem um Bismarck: menos o era ainda o duque d’Avila presidente da Janeirinha.
Por outro lado, Prim, nem tinha audacia nem força para fazer de nós o que Bismarck fez dos ducados do Elba. Mas a Hespanha necessitava um rei! Ainda a guerra alleman não destruira o imperio em França: uma republica seria um escandalo. Um rei! pelo amor de Deus, um rei! diziam afflictos de Madrid. E bem perto, em Lisboa, havia um, em inactividade temporaria, nos casos de servir. Mas casado! Dariam á Hespanha a condessa d’Edla como rainha? Por ahi a negociação falhou. (V. Rios, Mision) E tambem porque, embora allemão, embora já com filhos o rei portuguez, os conservadores viam no affinidade das dynastias um longinquo receio de iberismo. Appareciam graves folhetos sombrios (Corvo, Perigos; Duas palavras, etc.) pintando com sinceridade, ou sem ella, as ameaças imminentes. E acordar no povo o odio a Castella foi ainda, como sempre fôra, um meio de fazer opposição. Os regeneradores tinham agora a conquistar o poder ao reformismo da janeirinha, e para tanto, o melhor meio era chamar-lhe iberico e encher de sustos a cabeça do bom do rei.
E entretanto, nem o Bispo, nem Latino, nem ninguem era iberico; embora o reformismo tivesse laivos de republicano, embora Latino tivesse prefaciado o livro de D. Sinibaldo. Illusões tambem passadas! A iniciação do fomento convertera as gerações novos, e os ideologos de 54 eram opportunistas em 70. Tambem os federalistas platonicos d’esses tempos passados eram conservadores de agora, como Cazal. O federalismo iberico, mais ou menos eivado de socialismo demagogico, era já em Portugal apenas o credo de uma minoria minima, sem valor politico de especie alguma. E passada a crise, restaurada a monarchia em Hespanha, a situação voltou o ser, com os partidos novos, o que fôra com os antigos. Conservadores de ambos os lados da raia: conservadores regeneradores, conservadores canovistas, conservadores progressistas, etc., etc.,—opportunistas todos.
3.—O SOCIALISMO
Esta doutrina saía mais directamente do que a idéa precedentemente estudada, do progresso material defendido pela regeneração. Os regeneradores não estavam de todo limpos da mancha socialista, como vimos. Chevalier, o mestre economista do partido, trouxera da egreja de Menilmontant para o mundo as maximas da economia sansimonista.
Mais do que ao iberismo ainda, porém, acontecia ao socialismo o que antes vimos succeder: abraçarem os revolucionarios a idéa, fazerem-na sua, obrigando os regeneradores a renegal-a, recuando cada vez mais, accentuando todos os dias o seu caracter conservador. O individualismo das antigas escholas e partidos finara-se, porém, como lettra morta; e quer cesarista, conservadora ou imperialistamente, quer democratica e revolucionariamente, «o melhoramento da sorte dos desvalidos da fortuna» era uma preoccupação tão dominante dos espiritos, como n’outro tempo o fôra «a garantia dos direitos soberanos do individuo». Os socialistas francezes eram geralmente lidos. Os moços chegaram a ensaiar phalansterios. A classe dos engenheiros, nova em Portugal, com a sua educação mathematica, seguia os exemplos dos discipulos da eschola polytechnica de Paris. Commungavam n’um sansimonismo, mais ou menos accentuado, Carlos Ribeiro e Rolla, Garcia, Bettamio, Delgado, e Brandão, author da Economia social (8.º 1857) com epigraphe: Unicuique secundum opera ejus. Fourier apparecia como um precursor, Proudhon como um apostolo. Para além do presente entrevia-se um futuro doirado de fortunas.
Por acreditar na imperfeição e na perfectibilidade da raça humana, ninguem pecca por fourierista ou proudhoniario. A poesia romantica tem, não ha duvida, muito de socialista mas annuncia um socialismo mais sabido que ainda está por vir. A poesia é toda inspiração e vaticinio. A magia existiu antes dos caminhos-de-ferro, do gaz e do magnetismo. Dante viu as estrellas do hemispherio austral antes que este se descobrisse; Seneca vaticinou a descoberta da America; Eschylo no Prometheu a redempção; e Virgilio adivinhou alguma cousa da moral christan e até o progresso civilisador da Europa, extendendo por todo o mundo os seus costumes, o seu poder, a sua religião, a sua sciencia. (Rev. Peninsular, 55)
Isto era escripto commentando Espronceda, o author do Pirata e do Mendigo, o poeta néo-romantico que puzera nos seus versos todo o desespero, todas as ironias, todo o satanismo de uma alma já sem obediencia a nenhuma especie de authoridade moral, mas cheia de impetos e aspirações democraticas e socialistas.
Com effeito, a revolução das idéas approximara estas duas opiniões; e se já não havia jacobinos, tambem ainda o socialismo não ganhara a expressão exclusiva, odienta, de uma guerra de classes, como partido de populani magros resuscitado da velha historia das republicas italianas. Uma atmosphera nebulosa de humanitarismo cheio de esperanças philantropicas envolvia as doutrinas revolucionarias: choravam-se as desgraças dos italianos, dos polacos escravisados; e a liberdade que para os passados fôra um criterio racional e a base de um systema de idéas, era agora invocada com um caracter mais de politica autonomica das nações, do que de soberania constitucional dos individuos. A republica seria a paz universal! Pouco importava, a ninguem offendia que as ephemeras republicas de 48 fossem tyrannas com laivos de communismo. Tudo isso era liberdade! Aos homens, educados pelo espirito jurista e pela critica de Kant, succediam os discipulos de Louis Blanc e de Lamartine.
Na camara portugueza—como as idéas correm, como as nações mudam rapidamente, n’este seculo revolucionario!—na camara portugueza, na sessão de 49, Souto-Maior, sem ser expulso nem apupado, defende «a nobre, santa e justa causa em que se acha empenhada a Italia inteira para constituir a sua liberdade, firmar a sua independencia, e estabelecer a sua unidade». E no seu jornal, Estandarte, o orador escrevia do papa: «Resumo de uma grande historia morta, póde ainda ser o symbolo de um grande povo vivo». A Carbonaria italiana, dirigida pelo mystico republicano Mazzini, alargando os seus ramos por toda a Europa, para fundar a republica universal e redemptora, infiltrara-se entre nós tambem com a sua alta-venda ou choça-mãe d’onde dependiam as vendas ou choças filiaes e as barracas. Em Coimbra havia a choça de Kossuth, o hungaro. (M. Carvalho, Hist. contemp.) N’esta maçonaria novissima alistavam-se os moços, e d’ahi saía a direcção politica, republicana e democratica.