N’este estado veiu a Regeneração encontrar os elementos desordenados e fracos dos revolucionarios portuguezes; e os laivos de socialismo que n’elles havia fizeram com que ella em grande parte absorvesse a cauda moça do partido setembrista, já tambem eivada de doutrinas ou sentimentos cosmopolitas e philantropicos. Das vendas carbonarias passou então o foco da agitação revolucionaria para as sociedades operarias. Fundou-se em Lisboa o Centro-promotor. «As idéas societarias que desde 48 tinham ido calando no coração dos desvalidos da fortuna» inspiravam ao mesmo tempo os typographos que se faziam litteratos-politicos (Vieira-da-Silva, Albuquerque, etc.), os engenheiros mais ou menos socialistas (Rolla, Latino, Brandão), e os antigos setembristas que viam a urgencia de infiltrar idéas e sangue novo no partido. Ao theatro romantico de Mendes-Leal, heroes panta-façudos, homens-de-ferro com uma linguagem de medos, substituiu-se um outro genero: eram os homens ou as mulheres de marmore, dramas satanicos mostrando ao povo a corrupção dos ricos; eram as peças operarias, inspiradas pelas obras de Sand e Eugenio-Sue, em que o homem de trabalho apparecia heroe, luctando com energia e talento contra os crimes e preconceitos de uma sociedade madrasta.

Desgarrados, sem cohesão nem consistencia todos estes elementos revolucionarios, a Regeneração tendia a inclinar todos os dias mais no sentido revolucionario, á imagem do que succedia por toda a Europa latina.

Rodrigo, que a principio se apoiara no grupo setembrista da Revolução, foi pouco a pouco bolinando tanto no sentido opposto, que a presidencia official do partido passou de Saldanha para Terceira (no gabinete de 59). Já em 54 D. João de Azevedo escrevia de Lisboa a José Passos: «Conte que antes de pouco tempo muitas notabilidades do partido cabralista hão-de obter graças e mercês, porque a estrategia de Rodrigo está hoje posta n’isso.» (Carta, na corr. autogr. dos Passos) Assim tinha de ser. Que era a Regeneração, senão o utilitarismo cabralista sem doutrina? Que fôra o cabralismo, senão uma regeneração sem dinheiro nem scepticismo, só com doutrina e violencias? 48 levantara uma labareda, mas o incendio apagou-se rapido. A Polonia, a Italia, a Hungria ficaram quaes se achavam antes; a França restaurou o papa em Roma, e tolerou em Milão o austriaco. Depois dos dias de junho em que o socialismo de Paris foi esmagado, viera Napoleão III pôr um freio ás temeridades revolucionarias.

O romantismo politico, a que nós estudámos as duas faces successivas (1826-1838, Palmella, Herculano), finara-se de todo com uma revolução em que já entravam elementos de diversa origem.

O que caracterisa esse periodo é a grandeza generosa das aspirações, combinada com a indeterminação das idéas, um vago idealismo ou antes sentimentalismo que envolve e abraça, sem dar por isso, as maiores contradicções praticas e se lança no caminho das mais perigosas aventuras com um sorriso de confiança ingenua e quasi infantil. Este phenomeno de uma revolução sem pensamento explica-se pelas condições particulares do meio em que se desenvolveu.

Era em primeiro lugar um individualismo sentimental, ao mesmo tempo cheio de reivindicações e de effusões e que pretendia corrigir o egoismo das reclamações do direito individual com os preceitos moraes e poeticos da fraternidade.—Em segundo lugar, a attitude determinadamente hostil das monarchias constitucionaes dominadas pela alta burguezia ávida e agiota, tornava-lhes imminente a queda sem que se podesse dizer que essa queda implicava uma verdadeira revolução porque as classes contra ellas insurgidas não tinham principalmente em vista destruir, no seu principio, o regimen existente, mas pelo contrario, entrar n’elle, apossar-se d’elle, alargando-o (pelo suffragio) até ás proporções da nova democracia.—Em terceiro lugar, finalmente a attitude das classes operarias vinha lançar no meio d’esta confusão intellectual e politica mais um elemento de perturbação, e o mais formidavel de todos. O Socialismo, tão mal comprehendido pelos seus adversarios, como mal definido pelos seus partidarios, foi transformado n’um monstro, o famoso espectro vermelho; e o terror abria caminho a uma reacção tão geral e irresistivel que arrastou comsigo não só o Socialismo, não só a Republica, mas ainda o proprio regimen liberal e todas as garantias legaes tão custosamente conquistadas.

O drama romantico veiu a dar por toda a parte n’uma conclusão tragica. A Hungria foi esmagada, esmagadas a Italia, a Rumania, a Polonia. Na Alemanha, na Austria, o cezarismo dissolve os parlamentos nacionaes, rasga as constituições que o susto lhe fizera jurar no primeiro momento de surpreza e estabelece solidamente e por muitos annos o regimen militar. Em França, d’onde partira o impulso revolucionario, o Socialismo, tornado a execração de todos os partidos, cae exangue nas barricadas de junho, e o movimento reaccionario, uma vez lançado, não pára sem ter destruido a republica, as garantias liberaes constitucionaes, humilhado a democracia, e sobre todas estas ruinas estabelecido o imperio conservador, ao mesmo tempo rural, militar, bancario e clerical.

Taes foram os resultados da evolução romantica. Mas a geração que a preparou e a consummou não podia prever taes resultados. A sua confiança era tão longa, como vastas as suas aspirações: e se aquella era infundada, estas eram generosas e alevantadas. Talvez nunca a historia registrasse uma tão completa catastrophe, saída d’um tal concurso de bellos sentimentos, de elevados intuitos, de personalidades brilhantes e heroicas. Os promotores e fautores d’aquelle movimento, os Lamartine, Ledru Rollin, Arago, Luis Blanc, Proudhon, Raspail, Mazzini, Garibaldi, Manin, Gagern, Rosetti, Bem, Kossuth, e todos os que indirectamente o prepararam, oradores, pensadores, poetas, Lammenais, Michelet, Quinet, Hugo, Sand, Sue, Leroux, Mickiewicz, Gioberti, Manzoni, Cantu, Mamiani, Feuerbach, Heine, formam uma pleiade incomparavel pelo talento e pelo caracter; e não admira que, apezar do vago e do incoherente das suas doutrinas, dominassem tão completamente o espirito da geração que atraz d’elles se lançou fanatisada no caminho de inevitavel desastre. (A. de Quental, Lopez de Mendonça, no Operario.)

Em Portugal, varias causas concorriam para que a revolução de 48 não chegasse a nascer. Era o cançasso dos partidos, era a miseria da nação, era a influencia de Rodrigo, epilogo sceptico da historia liberal. Era tambem a circumstancia de que dos dois motivos do 48 europeu, o democratico já entre nós fôra ensaiado e ficara desacreditado em 36; e o socialista não tinha classes operarias fabrís bastante numerosas para o fazerem vingar. Em vez de uma revolução, tivemos uma Regeneração a que os revolucionarios como José-Estevão, Lopes-de-Mendonça etc., adheriram, conforme sabemos. Mas quando todos esses viram o partido novo tornar-se cada dia mais velho; quando assistiram ao accordo de Regeneradores e Historicos a favor das irmans-da-Caridade, que era a questão ardente, separaram-se, para fundar o Futuro, jornal, partido das aspirações vagas de um romantismo serodio cujo chefe era José-Estevão. A ausencia de numerosas classes operarias principalmente impedira antes a revolução, e impedia agora o nova partido de ganhar estabilidade. E como não chegou a haver lucta, não houve motivo para repressões: e como uma das causas da paz era a fraqueza, manteve-se a liberdade por não haver interesses nem motivos fortes em conflicto.

Opportunamente morreu o tribuno (nov. 4 de 62) que durante a vida não cessara de praticar nobres actos inopportunos. Como typo e symbolo de uma geração que nunca chegou a ter voz, passou para o tumulo deixando os companheiros dispersos, entregues á desillusão, absorvidos pelos seus trabalhos profissionaes. Ao Futuro succedeu ainda a Politica-liberal; á Patriotica, o club do Pateo-do-Salema, d’onde saíu ainda a força bastante para em janeiro de 68 derrubar os conservadores do governo.