Veiu logo a revolução de Hespanha complicar a situação com esperanças republicanas e intrigas ibericas; veiu depois a guerra do Paraguay seccar a fonte dos ingressos de dinheiro do Brazil: tudo isto declarou em crise o resto das antigas esperanças.
Debandaram todos, cada qual para seu lado. Os excentricos ficaram esperando pela republica doirada; os praticos, ou se alliaram aos conservadores, ou se congregaram em reformismo opportunista. E as velhas idéas societarias? Tambem a iniciação do fomento influiu sobre ellas; mas a dureza do regime capitalista da burguezia, em vez de lhes fazer como a politica realista fazia aos romanticos: em vez de as reduzir a um pó de chimeras, obrigou-as a declararem-se em partido dos pobres contra os ricos, n’uma guerra de classes, anachronica de certo, mas ameaçadora. A Hespanha teve Carthagena, a França teve ainda a Communa de 71: nós tivemos umas gréves apenas, por não possuirmos sufficiente industria fabril.
Tal foi o caracter que o Socialismo tomou, sob o influxo do Utilitarismo, sem que se veja ainda que outro e melhor o espera. Dissipadas as chimeras, conquistadas as garantias individuaes, conferida ao povo uma soberania negada ao throno: crê alguem que tudo está feito? Espera alguem que esse povo, soberano e mendigo ao mesmo tempo, não reclamará uma revisão da legislação economica? Perigosa teima será negal-o, porque as revoluções inevitaveis, se se não consummarem de cima para baixo, dar-se-hão ao inverso, de baixo para cima—como a labareda que sóbe crepitante!
4.—D. PEDRO V
Esquecemos, n’estes successivos relances, o throno. E entretanto em Portugal nunca deixou de haver monarcha. Depois de D. Maria II, matrona antiga coroada, veiu o rei-artista, cezar sem amor á guerra; depois D. Pedro V; por fim o rei actual. O seu finado irmão era um romantico posthumo. Contava dezoito annos quando subiu ao throno (n. 16 de set. de 37; r. 55) e com um temperamento observador, grave, desde creança o foram impressionando os episodios deploraveis da historia d’esse tempo. Tem o leitor presente a memoria de D. Duarte, o infeliz rei, tão sabio, tão bom, tão cheio de terrores e de escrupulos? Foi como elle D. Pedro V «esse pobre rapaz» que o destino condemnara a ser principe. Já não estava nos usos consultar bruxas e adivinhos, mas o rei tinha em si o feitio de espirito que pede milagres. Considerava-se predestinado, ao inverso de D. Sebastião, para um fim breve e funebre; via-se coberto de terra, mettido n’uma cova, imagem viva da morte, fatalidade ambulante movido por uma sina triste. Era uma saudade, a sua alma; e o coração, batendo, parecia-lhe um dobre de finados! Saudade de uma honra esquecida, dobres pela morte de um povo desditoso? Symbolo de uma nação cadaver, considerava-se, elle rei, minado por todas as pestes. Roía o um remorso inconsciente que o fazia apparecer bisonho e triste, com um sorriso doentio na face, a mudez nos labios, no olhar o quer que é de somnambulo. Interpretando os acasos com o seu fado, explicando tudo pela sua sina, achava em si a causa de muitas desgraças. Quando o patriarcha voltava de o baptisar, partiram-se-lhe as rodas da carruagem e caíu ... Aos dez annos, já o principe tinha pesadelos que o faziam scismar: uma grande aguia negra tomava-o nas garras, levantava-o ao ar, deixando-o caír e despedaçar-se ... A aguia tornava a subir levando para os ares o mano Luiz ... Tinha então dez annos e contava os terrores ao seu mestre. (Bastos, Mem. bio. de D. Pedro V) Depois chegou a crer que matava o que tocasse. O general Loureiro morrera de apoplexia? porque elle o affligira com certos ditos. D. Carlos de Mascarenhas morrera? porque elle o obrigara a um passeio excessivo. E o Curso-superior, o filho do seu amor ás lettras, era baptisado com o cadaver de D. José d’Almada, com a loucura de Lopez de Mendonça! (Andrade Ferreira, Vida, etc.) Tragica figura de um rei que se acredita a má sina do seu povo! Não seria ella o summario de uma historia miseravel, o symbolo de uma nação pobre, o espectro de um povo caduco? Não viria como resultado de trinta annos de miseria, lentamente cristolisados n’um cerebro impressionavel, definir com o seu genio a epocha?
Se ás superstições funebres se póde achar esta razão de psychologia historica, não é mistér appellar para tão longe quando se observa o outro lado do seu caracter. Com olhos de pessimista, e esses eram os bons olhos para vêr Portugal, tinha em tanta conta os que o rodeavam, cria tanto n’elles, que mandou pôr á porta do seu palacio uma caixa-verde, cuja chave guardava, para que o seu povo podesse falar-lhe com franqueza, queixar-se, accusar os crimes dos governantes. Singular modo de conceber o seu papel de rei de uma nação livre, parlamentar! Os ministros que não escarneciam d’elle, principiavam a temel-o; outros a odial-o. O povo começava a amar a bondade e a justiça de um rei tão triste. Já corria de bocca em bocca a lenda do novo monarcha: um infeliz! E o amor não era feito de esperanças, mas de presentimentos funebres e de uma consciencia certa da fatalidade commum do povo e do rei. «Se elle podesse!» Mas entre elle e o povo simples havia de permeio os politicos.—«Como o rei é justo, bom e nobre! Nem quer que lhe beijem a mão, nem que dobrem o joelho, nem quer matar um só criminoso, o santo! Se não fossem os politicos!» E esta corrente de intimidade entre o povo e o rei cresceu a ponto de se chegarem a formular votos pelo absolutismo. (Th. Braga, Hist. do rom.) A alma espontanea dos povos latinos, idealistas, sem os calculos, as reservas, os planos de outras raças, só acclama os factos simples: é inaccessivel ás fórmulas. Quem no meio-dia quizer ser grande, seja forte, seja rei: Pombal, D. Miguel, Saldanha ainda, ou seja um bom pae, um bom protector do povo!
Como o seria porém D. Pedro V, se se acreditava marcado por uma estrella funesta; se, fumando como um estudante o seu cigarro, ouvia a licção do seu mestre Herculano, licção em que ás fórmulas liberaes-romanticas se juntava o ensino de uma reprovação universal—dos politicos, um bando; do povo, um desgraçado? As fórmulas sabias murchariam a flor da ambição, se ella viesse a desabrochar, porque as jeremiadas do propheta enraizavam na alma do rei o seu pessimismo. Como que abdicava, instruindo-se; e, em vez de se entregar ao officio proprio do seu posto, velava as noites a estudar, os dias passava-os aferindo a realidade por uma historia vista com oculos de metaphisicas nebulosas, de idealismos mysticos. Parecia um monge somnambulo; mas a mocidade, a virtude estampada no seu rosto, ganhavam um encanto de melancholia com essa perda das noites veladas. O dia, a luz do sol, a realidade, os homens, tudo então se lhe affigurava um sonho: pesadelo triste, a sua má sina! Quando não era funebre, era ironico, epigrammatico: o seu reino parecia-lhe o peior da Europa. Lera o livro de About La Grèce contemporaine, e annotando-o, poz no titulo: La Grèce—et Portugal.
Ora Portugal já por fórma alguma era como a Grecia contemporanea. Fôra-o sem duvida, mas desde que o espirito pratico vencera em 51, conquistando a si o primeiro dos palikaras portuguezes, Saldanha, todas as ambições nacionaes estavam tornados para uma Beocia antiga, farta de cearas. O genio do rei não chegava a conceber um ideal tão mesquinho, e só via o passado, com os olhos cégos para o futuro iniciado. Elle era o fim de uma historia, o epilogo summario de um tomo, inserido por erro depois das primeiras paginas do livro seguinte. Por isso lhe chamámos posthumo. Considerava-se a si um nuncio da morte e via moribundo o seu povo. Estimaria que o caminho de ferro se fizesse com inglezes «para metter sangue novo nas veias d’esta raça atrophiada». Como se sabe, os operarios cruzam com as camponezas e o caminho de ferro ia atravessar o reino em dois sentidos. Singulares, dramaticas deviam ter sido as conversas entre o mystico principe e o Salamanca, o aventureiro audaz das novissimas emprezas que se propuzera regenerar Portugal. O embaixador que as ouviu, apresentando ao rei antigo o moderno barão da industria e do banco, dizia que para descrever bem a acena «seria necessario la pluma de un Cervantes.» Salamanca, soccarron, affectando gravidade na sua face castelhana, como um Gil-Blaz, ouvia D. Pedro que queria lucir-se. O picaro confessava a sua ignorancia: nem era philosopho, nem sabio! um homem-de-negocios, senhor! E D. Pedro V contava-lhe a nossa pobreza, a incapacidade de sustentarmos caminhos de ferro, filiando estas opiniões tristes no quadro lugubre da decadencia das raças latinas. Saindo, o emprezario sagaz, que estudando um doente vira um homem, disse para o embaixador companheiro: «Deus nos livre de que este rei tivesse os meios e o valor das suas convicções.»
De casa do filho, foram ambos a casa do pae. Que mudança! Tambem Salamanca era artista, tambem apaixonado pelo bric-à-brac, derradeira poesia dos scepticos; tambem sybarita, viveur aristocratico, distincto, palaciano. «Parecian hechos el uno para el otro». Viram os museus, commentaram as faianças, os charões, as porcellanas, os quadros, rindos como gréculos. O pensamento de ambos, inconscientemente, nadava na expressão classica do papa da Renascença: Quod commoda da Deus nobis hœc otia, Christi! «Quedaran encantados.» E para rematar a amisade, o rei D. Fernando fazia indirectamente a apologia dos povos latinos, confessando o seu desamor pelos inglezes que maltratava. (V. Desp. de Pastor Dias, 10 dez. 59 ap. Rios, Mision) Triste engano do acaso, que invertera o lugar proprio das pessoas. O pae devia ser o rei; o filho o principe que, sem os cuidados do throno, acaso teria tido, no Portugal novissimo, o papel de D. Henrique no de Aviz—o papel de um iniciador na sciencia!
Quem se não lembra de ter visto o rei, attento como um discipulo, a ouvir nas salas do seu Curso as lições dos professores, com o aspecto grave, a mão cofiando o pequeno bigode, denunciando a actividade do seu cerebro? Porque lhe não concedia a sorte viver a vida para onde o seu genio o chamava? Porque a sua sina era perdida e uma estrella má o condemnava a elle a reinar, e ao reino a padecer as consequencias de um destino cruel. A bofetada que a França nos deu, vindo buscar armada ao Tejo o negreiro apresado em Africa, arroxeou-lhe a face, e o rei chorou afflicto. Veiu uma epidemia de cholera em 56; outra de febre-amarella em 57; veiu a irritação cruel das irmans-da-Caridade. As desgraças, os embaraços teciam a rede de malhas cerradas em que se lhe afogava a existencia; sem lhe occultar, mostrando-lhe sempre, fatidica, a estrella má do seu destino.