Quando um sceptico tem superstições—contradicção só aparente, e de resto vulgar, do espirito humano—não reage, obedece; não resiste, cae. Quando ellas atacam um mystico, fortalecem-no com uma coragem transcendente. D’ahi veem os monges heroicos, stylitas e outros. A alma de um santo que havia em D. Pedro V, retemperada pelo estoicismo aprendido nas licções de sua nobre mãe, mostrou-se quando Lisboa dizimada o via passar nas ruas, visitando os enfermos, caminhando para os fócos do contagio, como um Isaac para o sacrificio biblico. O amor do povo tornou-se então uma paixão; e corriam as anedoctas com que a imaginação popular cristallisa os heroes. Mandara a um medico medroso descalçar a luva para tomar o pulso ao enfermo. E se Portugal já tivera em D. Sebastião um rei Arthur, não é verdade que se formava uma lenda, diversa sem ser menos bella: a lenda da santa rainha de Hungria, ou do rei santo de França? Nas pestes milanezas, o Borromeu ganhou a canonisação; nas de Lisboa, D. Pedro V foi canonisado pelo povo. E quando, quatro annos depois, morreu, na aureola da caridade o povo engastou palmas de martyrio.
Nas angustias d’esses dias afflictivos, o moço, infeliz rei achar-se hia bem, sem o crer, sem o pensar, sem o sentir. Assim a cevadilha só floresce nos terrenos da malaria. Assim os maus só crescem no seio da pravidade. Tambem os temperamentos funebres, com o espirito feito de presagios, se prazem no seio das desgraças. Ellas vêem como confirmação dos presagios. E nada aflige mais o homem do que a duvida, quando o que o rodeia não obedece ao que pensa, ou ao que sente. Como não viria a peste, se a estrella do rei era mortal? Cumpria-se o fado da sua existencia. Os presagios não mentiam; o seu coração falava verdade. E esta affirmação externa do seu sentimento intimo, afogava-o mais, cada vez mais, nas suas superstições funestas, no seu pessimismo ingenito.
Em taes momentos, os temperamentos como o de D. Pedro V raras vezes caem: quasi involuntariamente requintam. Formula-se então em doutrina o que era apprehensão. O acaso, segredo ou mysterio do Universo, torna-se Providencia; e, quando se é christão, por via de regra, entra-se nos moldes conhecidos, que tantos mysticos formularam, desde Alexandria até Manreza. A religião arde como chamma a que se dá, em novo combustivel, a somma de apprehensões coordenadas. Era D. Pedro V christão? ou apenas deista á moda romantica, isto é, reconhecendo no christianismo a mais pura fórma de deismo até hoje concebida? Não sei. As licções de Herculano, os livros modernos da sua leitura deviam ter abalado a sua orthodoxia; mas os espiritos romanticos, na inconsistencia das doutrinas, na poesia dos sentimentos, conservavam sempre aberta a porta para o arrependimento. E tantos foram os que, penitentes, se curvaram beijando a terra: tantos, tão dignos, tão nobres, obedecendo tão espontanea e sinceramente, que hesitamos em dizer se o rei teria ou não sido um d’esses.
A occasião levava a um tal fim a vida moral de D. Pedro V, quando o casamento (18 de maio de 58) trouxe para o seu lado uma rainha piedosa, candida, pura, como anjo que vinha, entoando os canticos da Egreja, acompanhal-o a bem morrer, ou mostrar-lhe, apparição fugitiva, vaporosa Beatriz de religioso encanto, o paraiso que o esperava depois da selva escura da existencia terrestre. Tinha vinte e um annos Dona Estephania, (n. 15 julho 37) quando casou com o rei que contava edade egual. Eram duas creanças? Não; apesar dos annos. Porque a elle a imaginação tinha-lhe feito viver já uma longa existencia de pensamentos, presagios e angustias; e a rainha desde creança vasara toda a sua bondade angelica nos moldes da devoção catholica. Apesar dos annos, pois, eram ambos, em moços, como se já fossem velhos; e a edade juntava ao encanto d’esse par tão nobre, tão cheio de sympathia. Ella tinha retratada a candura da sua alma na suave expressão de um rosto meigo; e o rei, no aspecto carregado, mostrava a força do seu caracter, a tristeza do seu espirito. Um presentimento tragico assaltava quem os via passar nas ruas da cidade: nenhum dos dois parecia bem d’este mundo—elle uma victima expiatoria, ella um anjo custodio!
A devoção da rainha e a superstição do rei davam de si uma authoridade espontanea á primeira no espirito do segundo. Era então o tempo em que a questão das irmans-da-Caridade, complicada com a politica, se tornara um espinho irritante; e a rainha devota e o rei funebre começavam a ser accusados de clericaes e ultramontanos. Com effeito, nenhum dos dois fôra feito para o throno. Tinham demasiada virtude, ambos, para reinar em qualquer dos nações latinas, sobretudo em Portugal. A sua sinceridade não era comprehendida, e arriscava-os a soffrer as consequencias de uma politica desalmada.
D. Estephania morreu a tempo (julho de 59), antes que se desmanchasse ás mãos duras de quem não tinha coração para a amar, a cristallisação poetica formada no espirito do povo sensivel com a sua formosura angelica, com a sua devoção ingenua, com a sua caridade fervente. Morreu, e ainda bem! É como quando no meio da charneca desolada e secca, fatigado, o viandante depara com um puro arroyo cristallino, e bebe: assim nos acontece a nós deparando com um typo de candura e poesia na vasta charneca de urzes d’esta historia. Que importa morrer? Mais vale que o arroyo logo se perca, sorvído por alguma fenda ... Se corresse e seguisse atravez do chão empoeirado, não é verdade que as suas aguas se haviam de sujar, misturando-se com as gredas do solo e as folhas podres das urzes?
Mas o pobre rei, mais a sua sina fatal, quando se viu só, depois dos breves mezes de casado, mais se enraizou ainda nos seus presagios. Era a morte, elle que matava tudo o que tocava. Via-se já nos ares arrebatado pelo aguia negra dos seus pesadelos. Sentia sobre si o peso de muitas vidas ceifadas; e, chorando, lamentava o seu triste isolamento. Não estaria cumprido ainda o seu fado? Que novas desgraças havia de causar? Quando lhe seria dado terminar o seu desterro d’este mundo, para ir n’um céu, visto em sonhos, sentar-se ao lado do anjo que para lá fugira? Como uma pomba branca voando breve no horisonte da sua vida, tocando-lhe com a aza a face a dispertal-o dos seus sonhos tristes, assim passara a idolatrada rainha, assim fugira, assim desapparecera no seu vôo. De longe, accenava-lhe agora. Era a Beatriz dos seus pensamentos mysticos: não uma Laura de amores humanos.
Assim um novo motivo de tristeza se juntava aos anteriores; assim tudo ganhava um caracter fatidico para o espirito do rei. A fatalidade estava n’elle, e não nas cousas. Quando um relampago azulado illumina a noite, tudo nos apparece azul. Caía triste o outomno de 61: havia dois annos que D. Estephania morrera, quando o rei e os principes foram a Villa Viçosa caçar, e voltaram de lá envenenados pelos miasmas de um charco dos jardins. Eloquente symbolo, porque os miasmas do charco portuguez eram o veneno que o rei tragara no berço e lhe fizera da vida uma enfermidade chronica.
As mortes galoparam rapidas como na ballada de Burger. Caíu primeiro o joven infante D. Fernando, e o rei tinha a certeza de morrer tambem. Já no leito ardia com febre delirante. Em frente do palacio, fundeada no rio, a corveta Estephania de espaço a espaço soltava um tiro—como o bater do relogio lugubre da morte. E esses tiros ouvia-os o rei, chamavam-no, excitavam-no, davam-lhe os desejos de acabar por uma vez com a vida miseravel, para ir abraçar no céu a Beatriz do seu delirio. Se a voz dos anjos podesse ser o troar dos canhões, não era ella que o chamava? Talvez; porque os tiros chegavam á camara do rei, já brandos, como um ecco, um murmurio, e vinham do navio que tivera o nome d’ella—Estephania! Seguidos, constantes, infalliveis como um destino, repetiam-se; e o delirio do rei, interpretava-os: eram vozes! A sua vista conturbada já perdera a noção da realidade; e vivo ainda, já se julgava transportado ás regiões sonhadas n’uma longa existencia de vinte annos ...