IV
CONCLUSÕES
1.—AS QUESTÕES CONSTITUCIONAES
Com o finado rei desappareceram as irmans-da-Caridade. O successor expulsou-as, liberalmente, sempre em nome da liberdade! e seccas as lagrimas, esquecido o passado, rasgados os crepes, tambem o throno se entregou nos braços da Regeneração. Na côrte onde reinara o mysticismo devoto, reinava agora catholicamente ao lado do monarcha, por esposa, a filha do rei excommungado da Italia: sempre fieis á religião! N’um systema de fórmulas, mais do que nunca vasias da realidade, liberalismo, catholicismo, que são? Hypocrisias inconscientes de quem não tem na alma a força, nem na mente a capacidade de conceber e defender idéas. Velhos bordões rhetoricos, politicos, ou como escoras de madeira carunchosa, pintada para illudir, aguentando o edificio desconjuntado.
Em 68, como já vimos, houve a sombra de uma revolução contra a sombra de uma tyrannia. Embuçada logo ao nascer pelo duque d’Avila, veiu com o tempo achar no bispo de Vizeu o seu definidor. Singular povo! singular revolução! Já se pensou bem no valor psychologico d’esse movimento? Que reclamava, que promettia, que applaudia? Negação tudo.
Nem uma só palavra affirmativa. «Moralidade, economias!» Esse programma patenteava o vasio, porque nenhum partido jámais prégou a corrupção nem o desperdicio. Mas praticavam-nos ambos, os regeneradores? Era pois uma questão de homens, nada mais.
Não paremos, comtudo, aqui. O pessimismo constitucional do caracter portuguez via tambem no Bispo outra cousa: um bota-abaixo! Os derrocadores foram os unicos homens acclamados pelo povo, desde que em 1820 se declarou a crise: por esta razão simples de o povo ter a consciencia da podridão universal. Além d’estas negações que havia? No Porto, uns mercieiros lesados pelo imposto do consumo, que se cotisaram para fazer arruaças; em Lisboa uns conspiradores platonicos que, apesar de já terem distribuido entre si os cargos da republica, se declararam satisfeitos com a quéda da Regeneração. O duque d’Avila preenchia bem o lugar de porta-voz da revolução! N’esta éra nova iniciada, o duque tornou-se a bomba-de-choque para amortecer a violencia das transições.
Veio a revolução de Hespanha complicar as cousas de um modo subito; veiu a guerra brazileira, baixando o cambio, seccar o rio de dinheiro que annualmente vasava no Thesouro para o alimentar a elle e nos sustentar a nós. Aggravaram-se as cousas, cresceram os perigos: a nação pedia um demolidor! Bota-abaixo! Mas como ninguem sabia que pôr em lugar do existente, o sentimento acclamador do Bispo era uma gritaria van de gente possidonea, e consolava os conservadores vingados. Demolir é facil, mais duro o construir. Derrubar paredes arruinadas, qualquer hombro o póde; mas levantar novos muros com os materiaes velhos, ninguem. E que nova materia-prima existia? Nenhuma. Homens? Zero. Idéas? Menos. O fundo do sacco das fórmulas liberaes era pó. Nós tinhamos já vasado tudo; e depois de tudo isso já Rodrigo, mostrando o avesso com uma careta, como um arlequim n’um tablado de feira, viera dizer, «meus senhores, peça nova!»
Agora os discipulos, seguindo o mestre, voltavam. Pois que querem? Falta ainda alguma cousa á Liberdade? Pois ha, devéras, omissão? Querem reformados os Pares? Porque não? Suffragio universal? Tambem. E viu-se os conservadores fazerem o que a revolução não fizera; viu-se alargar o direito de suffragio, sem que longas, prévias campanhas o exigissem. E ninguem o exigia, porque já passara o tempo em que se esperava nas alterações de fórmulas. E fizeram-no os conservadores, porque tinham visto em França Napoleão dar-se bem com isso; e sabiam que quantos mais camponios votassem, maior seria o poder formal—e positivo, pois fórmulas, apparencias são tudo—de cada um dos barões ruraes, de cada um dos senhores da finança que nas cidades compram a dinheiro os votos da plebe. Desde que no espirito d’essas plebes a loucura setembrista se acabara, que perigo havia em lhes dar a soberania? Nenhum, de facto; só a vantagem de bater o inimigo reformista com as suas armas, e consagrar mais uma conquista da liberdade.
Este facto curioso mostra ao critico uma das feições da apathica physionomia nacional. O leitor sabe que 33 não saíu do sangue da nação, como um 89. Foi uma conquista á mão-armada, que substituiu a classe governativa do reino. No decurso da historia que narrámos, o facto da separação do governo e do povo cresceu com o descredito do primeiro e com a miseria do segundo, até que Rodrigo veiu confessar que «comprando-se feitos deputados e casas» era tudo uma comedia; até que o povo, percebendo-o, poz de banda o bacamarte de guerrilheiro, deitando-se á enxada e esperando em casa o politico, para lhe pedir estradas, isenções de recruta, e uns cobres pelo dia perdido com a Urna. Consummado este accordo tacito, houve logo paz e liberdade. Os politicos bulharam de palavras: já não havia guerrilhas; e o povo deixou fazer leis sobre leis em Lisboa, sem dar por isso. Cada qual vive como gosta, e Portugal é verdadeiramente agora aquelle torrão de assucar de que falava o corregedor de Vizeu. Falstaff e Prudhomme fazem bem as suas digestões, e consideram este canto occidental do mundo o modêlo das nações livres.
E é, com effeito, é. Como não haveria liberdade, se não ha opiniões divergentes? Viu-se já tamanha paz? tão grande accordo? Nem póde deixar de haver paz, concordia, liberdade, entre todos os portuguezes, desde que todos elles, como uma boa população de provincianos, chegando ao cumulo da sabedoria salomonica—Vanitas vanitatum! descobriram que no mundo ha só dois homens, Quixote e Sancho, e que só o segundo é credor de applauso. Opiniões, partidos, paixões, esperanças? Fumo, meus amigos. Nobreza, justiça, virtude, heroismo? Poesia! Espantado com a nossa liberdade, dizia-me alguem uma vez, perante a sala das côrtes: «Veinte padres, amigo mio! veinte curas ... y todos liberales!» Com effeito, n’este «jardim da Europa á beira-mar plantado», até o clero, combatente em França, na Belgica, na Allemanha, é liberal. «Todos liberales!» Alguns extasiam-se com isto; outros, sem patriotismo nenhum, acham que esta liberdade prova um entorpecimento deploravel da intelligencia e do caracter. São modos de vêr differentes.