O leitor já sabe que as populações, indifferentes, alheias ao governo do paiz, só reclamam que elle lhes dê obras-publicas e lhes torne o mais doce possivel o recrutamento. Enriquecendo, pouco se lhes dá o resto. Nas aldeias são politicos os empregados, nas cidades os bachareis: por toda a parte os que vivem ou aspiram a viver do Thesouro. Os trabalhadores, os rendeiros, os pequenos proprietarios «não querem saber d’isso» e no fundo, instinctivamente, desprezam o politico pela razão simples de o verem depender d’elle para os votos. Desprezam, mas não lhes passa pela cabeça o supprimil-o. Para que? Isso não rende; e entretanto arderia a ceara. Até ahi chega o instincto, e instrucção não têem nenhuma.
Mas não é raro, antes commum, e n’um sentido até normal, verem-se populações, embora soberanas de direito, viverem passivamente sob o governo de minorias, ou aristocraticas ou burguezas, a que a riqueza ou a illustração dão a força. Commum é tambem que n’essas classes directoras exista a consciencia do facto, e por systema ou interesse se procure manter esse estado social: foi o pensamento do doutrinarismo em França, na Hespanha, e foi até entre nós a idéa dos cabralistas. Mas desde que a democracia vaga e sentimental de 48 destruiu similhante plano, condemnando o machiavelismo liberal dos seus authores, o facto, embora contestado, manteve-se por outras fórmas em toda a parte onde essas classes directoras tinham, com a consciencia da sua força, a illustração bastante para governar. D’ahi saíu o cezarismo francez. Ora o triste em Portugal, e acaso o primeiro motivo da physionomia singular da nação, é a ignorancia, ou, peior ainda, a sciencia desordenada nas classes medias. Todos sabem de que genero é a educação secundaria; todos sabem o que é a instrucção superior, em tudo o que não diz respeito ás profissões technicas (medicina, engenharia, etc.) cuja importancia é para o nosso caso subalterna. Com tal ensino se cria em Coimbra um viveiro de estadistas que annualmente cáem sobre Lisboa pedindo fama e empregos. O proprietario é em geral illetrado, o capitalista é brazileiro. A fortuna dos ricos, a sorte dos pobres, vão pois guiados por uma cousa peior ainda do que a ignorancia—a sciencia falsa, pedante sempre.
Que alguem se atreva a dizer a sombra de uma verdade e será condemnado. Que alguem se lembre de bolir n’um qualquer dos idolos do tempo, e será apedrejado—liberalmente! Por isso a liberdade que provém da apathia parece ao critico o symptoma do contrario da vida: da verdadeira liberdade forte, independente, na concorrencia de opiniões conscientes e sábias. Por isso nós apresentamos caracteres singulares. Leiam-se os jornaes, ouçam-se os discursos. Ninguem fala mais de papo, desculpem a expressão. De quê? De tudo. Os Pico-de-Mirandola, senhores de si, anafados, satisfeitos, sempre na rua, sempre verbosos, com as cabecinhas álerta, a resposta prompta, a fórmula breve, um andar miudinho de pedante, um livrinho azul debaixo do braço se não são janotas, nos miolos a consciencia do seu saber, da verdade definitiva da «sciencia moderna», uma grande prosapia ingenua, uma grande segurança e entono: os Pico-de-Mirandola, que sejam conservadores ou demagogos, deputados da direita ou rabiscadores de jornaes esquerdos, têem uma physionomia commum. A patria são elles; a sciencia sabem-na toda, a moderna. Sómente uns acham que é moderna a que já governa, outros fossil a de hoje: só verdadeira a de ámanhan, quando elles derem a lei!
Pêccos fructos de uma arvore contaminada, se dão um passo cáem. Um dos phenomenos curiosos em Portugal é o devorar dos homens pelo governo. Hoje sobem, ámanhan somem-se, corridos, desprezados. Porque? porque a arvore, secca, apenas tem vida para reconhecer o seu definhar, para desprezar os que no seu pedantismo ingenuo, mais ainda do que na sua corrupção, successivamente se lhe seguram aos ramos. Outro phenomeno é a facilidade com que a opinião muda n’essas classes directoras da sociedade portugueza. Como um catavento, sobre um pião giratorio, batido, movido pela brisa leve, assim anda o juizo dos homens graves. Se lhes falta o alicerce do saber, e mais ainda o alicerce social de raizes lançadas pelo meio das classes vivas da sociedade! Se são um rifacimento, uma superfetação politica em um povo que nada quer saber do governo! Assim os vereis hoje em solemnes relatorios declarar a patria á beira de um abysmo, e ámanhan com egual entono chamar a Portugal um primor, á sua condição abençoada! Virarem os cataventos politicos, é caso vulgar, individual apenas, em regimes anarchicos; mas girar de tal modo a opinião sobre os proprios sentimentos essenciaes de uma nação, senão é unico, é raro: hoje ibericos, ámanhan nacionalistas; hoje tudo negro, ámanhan tudo azul; hoje arruinados, ámanhan opulentos—quem vos entende, ó sabia gente?
Entende-vos o critico, vendo n’este agitar de opiniões como as rasteiras nuvens de poeira tonta que ás vezes o vento se diverte a mover sobre uma larga campina: indifferente, o chão fica immovel. Assim os ministerios succedem aos ministerios sem haver mudança. E que alteração poderia dar-se, não existindo forças moraes vivas, nem questões economicas ardentes? Que outra cousa ha a fazer senão ir, mansamente, deixando o tempo correr: dando melhoramentos ao campo, consolidando no Thesouro os dinheiros do Brazil, despachando o expediente, comprando algumas armas e navios por distracção ou simplez? Não falta quem sinceramente creia serem as cousas de sua natureza assim, assim as nações-a-valer, assim o mundo, assim a realidade. O resto? sonhos de poetas, bilis de homens amarellidos! Vamos indo assim, que vamos bem.
Outros pensam, comtudo, de um modo diverso. Ha nos seus postos, egualmente distantes, egualmente desarraigados da nação, o pessoal inteiro da Republica salvadora, scientifica, patriota, federalista, vermelhissima. Quem observa, descobre logo; um é Robespierre, outro um soffrivel Marat; não falta Desmoulins, e Theroigne de Mericourt já préga ás massas. É um velho cliché jacobino, sem Danton, é verdade! um velho cliché jacobino envernizado de novo. É tambem uma poeirada que passa; mas quando a atmosphera está incerta, de um para outro momento vem um aguaceiro que precipita o pó, e pousa sobre o chão uma camada de lodo. O tempo a seccará breve, o vento a levantará outra vez em pó, mas entretanto mais de um se ha de atolar.
É provavel essa revolução possivel? Talvez; porque a nação não tem força para a impedir, e os conservadores vivem da fraqueza alheia e não de energia propria. Talvez, porque, se não ha quem a evite, as cousas concorrem para a provocar. Será proxima? Ninguem o póde dizer: é materia de acaso. Tanto póde ser ámanhan, como d’aqui a bastantes annos. Todos concordam em que isto, se não houver tropeços, ainda póde durar. Quem sabe se os demagogos de hoje ficarão na historia como os da geração precedente, acantonados pela força das cousas nas mesas das secretarias?
Talvez assim venha a succeder, e talvez não. Ha poucos annos dizia alguem que estavamos «a pedir bispo». Tenha de haver outra janeirinha, e bispo será a quéda da monarchia constitucional. Em 28 rebentou em furias o tumor historico portuguez; e para essa data futura uma puncção vasará a agua que existe no ventre da hydropica Liberdade. Ver-se ha então como cheira e a que sabe. Esse incidente politico é necessario por varias causas, particulares e geraes. As primeiras demandam estudo mais demorado a que passaremos já; as segundas estão na atmosphera que as nações latinas respiram actualmente, atmosphera viciada mais ainda entre nós pela desordem intellectual atraz esboçada.
O jacobinismo não acabou ainda. Como um camaleão, quando vestiu a côr do romantismo fez-se monarchia parlamentar; mas falta que se faça outra vez republica radical, federalista, naturalista, positivista, porque, sem ter consummado a destruição dos velhos symbolos, a sua missão não terminou. O organismo futuro das nações não poderá formar-se emquanto o velho organismo não tiver acabado de se dissolver inteiramente pelo classico aphorismo: corpora non agunt nisi soluta.
Só depois d’isso se reconstituirá o Estado e a democracia achará a definição que vem pedindo ha um seculo, sem a encontrar. Vox clamantis in deserto, ninguem lhe responde, por isso que a idéa individualista-espiritualista, conservadora ou jacobinamente expressa, tyrannisa ainda as intelligencias. Mas já hoje do corpo das sciencias naturaes sae esta definição: a sociedade é um organismo vivo, contradizendo a definição de quasi um seculo: a sociedade é uma ficção, o individuo humano a unica realidade. Esta idéa nova, que todos os dias conquista partidarios, encontra a contra-prova nos factos economicos e nas tradições da historia. A civilisação de um povo apresenta os mesmos phenomenos que a evolução progressiva de qualquer individuo animal: especialisação de funcções, definição dos orgãos, cohesão de movimentos, centralisação de commando. O Estado é como um cerebro.