O diluvio dista ainda; e no armazem dos expedientes ainda os ha com fartura. Com o dinheiro do Brazil, directa ou indirectamente se resolvem as questões internas; com a tradição brigantina da alliança ingleza consegue-se manter uma independencia de acrobata no trapezio. As colonias, dadas, pedaço por pedaço, desde 1640, servem de maroma. Havia um resto de India que nos servia para nada, aos inglezes para muito: enfeodou-se, e muito bem. Porque se hesita em dar Moçambique, o Zaire? Porque a agulha com um sopro de vento apontou ao norte: as colonias são a salvação do paiz!
Mantém-nos, comtudo, de pé só esta protecção da Inglaterra? Não, de certo. Defende-nos a desordem da Hespanha, por tantos lados similhante á nossa; defende-nos o haver lá aquillo mesmo que faz o nosso mal organico: a falta de alma ou pensamento consciente na direcção do Estado. Defende-nos tambem, vagamente, a historia, com os seus sete seculos tão fustigados pela rhetorica, com a lingua differenciada, com uma dynastia, com um Camões, até com o estalar dos foguetes e phrases nos Primeiro-de-Dezembro. Tudo isso tem o seu valor, embora muitas vezes o perca pela mania de desproporcionar tudo, grave symptoma do nosso juizo avesso.
Outros motivos mais pesados nos defendem tambem, no sentido de que poderiam trazer sérios embaraços digestivos á Hespanha, se ella irreflectidamente decidisse engulir-nos, e o fizesse. Primeiro, é difficil assimilar uma população de quatro milhões a quem não conta mais do quadruplo; depois, é difficil, com essa relação numerica, realisar uma combinação dualista, como a Suecia-Noruega, ou a que foi Inglaterra-Escocia. Para nos fundirmos somos demasiados, para o dualismo poucos. N’um caso poderiamos reagir o bastante para impedir a consolidação da unidade, no outro não contariamos o sufficiente para ter em respeito o collega.
Além d’isso, está Lisboa, excentrica, á maneira de Nova-York. Madrid é como um Washington: onde ficaria a capital? D. Sinibaldo e o iberismo da Regeneração, pensando bem n’este caso, propunham Santarem. Mas quanto vae d’ahi aos Pyreneus? E ficariam em Portugal a capital politica e a capital commercial? Lisboa, que a geographia destinou para magestoso porto da Peninsula, tornou-se pelos acasos da historia o maior embaraço á unificação dos Estados peninsulares. Sobre o seu porto ancorou Portugal, como uma cabeça de gigante n’um corpo de pigmeu, e d’ahi lançou braços pelo mundo transatlantico. Vieram inimigos posteriores com armas aceradas cortar os tentaculos d’esse monstruoso polypo do seculo XVI, mas ficou a cabeça ainda e o pigmeu. Por outro lado, tambem a Hespanha bracejou para o mar: Vigo do norte, Cadix do sul, duas portas subalternas, ganharam vida e importancia. A unificação politica da Peninsula traria comsigo revoluções graves á Hespanha: Cadix, Vigo, decairiam, reduzidos ao seu trafego natural; Lisboa tornar-se-hia a Nova-York do occidente da Europa.—Mas uma Nova-York portugueza? Sim. Ou seria mistér repetir as scenas de oppressão violenta para a fazer castelhana.
Taes embaraços, resolvem-nos os phantasistas com a phantasia federal. Dir-me-heis que federação ha entre a cabeça que dirige e a mão que obedece, entre o estomago que digere e o musculo que se alimenta? Em vez de federação, chimera nascida do erro de suppor aggregados as nações, dizei coordenação organica, para exprimir o funccionar d’esses corpos collectivos. O afamado principio federativo já defendido em 54, restaurado agora pelo néo-jacobinismo, é um crasso erro de observação sociologica e uma aberração do estudo politico, historico.[48] É uma fórma primitiva das republicas; e do mesmo modo a fórma embryonaria das aggregações animaes inferiores. Um coral é uma federação, uma colmeia é uma sociedade. Á maneira que o typo se define e cresce a eminencia das suas funcções, coordenam-se os orgãos. O exemplo dos Estados-Unidos tem feito um grande mal aos que da Europa não vêem que a aggregacão colossal de gentes desvairadas, em territorios illimitados, exprime um typo rudimentar de sociedade, repetindo em nossos dias e com os meios materiaes de uma consumada civilisação, os exemplos primordiaes da historia. D’aqui por um ou dois seculos se verá em que pára a federação americana. Da Suissa, quem a estudar, vê como, á maneira que hoje os caminhos-de-ferro, perfurando as suas montanhas, a afastam da vida primitiva agricola em que se mantivera, como se tém mantido tantos animaes ante-diluvianos: vê, dizemos, que vae pouco a pouco rasgando a sua constituição federal, obedecendo á força das cousas.
Que a fórma definitiva de coordenação das funcções, fórma vindoura, mas bem distante ainda! tenha no Estado democratico um caracter federativo, de orgãos equiparentes, dirigidos pelo forte cerebro de um Estado, pensamol-o: mas esse criterio pouco importa agora, se ás esperanças sentimentaes ou ás chimeras doutrinarias, se trata com effeito de substituir na politica o espirito positivo. A observação mostra-nos que tudo concorre para apressar uma marcha cada vez mais accentuada no sentido da centralisação e das dictaduras pessoaes ou collectivas.
Em Hespanha, o antigo espirito jacobino, encorporando-se nas tradições localistas, e inspirando-se na doutrina de Proudhon, deu de si a deploravel historia cantonalista. Viu-se agitarem-se alliadas as idéas mais incongruentes: era a ultima revolta fuerista, era um novo 1812 individualista, eram communas socialistas. O passado, o presente, o futuro, n’um turbilhão, corriam, prégando loucuras, semeando anarchias. Na Serra-Morena havia já alfandegas como na Edade-média; em Alcoy incendios como os de Paris; por toda a parte declamações como as de Cadix, levantando em altares a soberania? a divindade, do Individuo! Um equivoco de observação, um erro de doutrina, e o facto da unificação ainda não consummada das raças peninsulares deram isto de si. Já em 90, em França, os girondinos não poderam fazer outro tanto: e, se em França ha federalismo, é socialista, communalista; e não historico, geographico, ethnico. O atrazo relativo da fusão das raças peninsulares, esse facto em que os néo-jacobinos, com o seu chefe Pi y Margall, viam um argumento em favor proprio, (V. Las nacionalidades) era, e é, o máximo argumento contra a opportunidade da revolução, cujos laivos socialistas se desmandavam em preoccupações tradicionaes. Como se o ideal consistisse em restaurar a Edade-media com os seus cantões e povos differenciados, isolados pela força das cousas, e pelo isolamento, hostís!
Em Hespanha o partido caíu com a deploravel ruina da empreza. Entre nós, porém, não deixou de haver quem viesse offerecer-nos esse prato requentado da cosinha revolucionaria. Não se sabe, comtudo, ás vezes bem se o nosso joven federalismo é iberico, se o não é; ainda que d’elle saiu a singular idéa de fazer de nós os authores da hegemonia peninsular. Onde leva a falta de proporção no avaliar as cousas! Não parece um cumulo de ironia, a invenção de um espirito humorista, o dizer a uma nação que vive perguntando se póde existir, dizer-lhe que d’ella depende a existencia alheia? Na serie de symptomas singulares do nosso estado mental, deve ficar como documento esta idéa da novissima geração.
Ninguem, porém, tema que a precedente, e é ella quem nos governa ainda, se deixe seduzir por tão extravagantes politicas. Ella é pratica, e como tal, não tem mais ambição do que a de manter o que existe, acompanhando passivamente, passo a passo, o desenvolver espontaneo dos elementos da vida nacional. O seu liberalismo provém da sua passividade calculada. Vamos andando. A Inglaterra, confiam elles que nos ha de proteger: e quando não houver Africas para lhe pagar? Entretanto, o minhoto vae, o brazileiro vem, e os emprestimos tomam-se; entretanto as estradas fazem-se e o proprietario enriquece. E cada vez mais esta pequena Turquia do occidente, com a sua Lisboa que é outra Constantinopla, ganhando a força de uma existencia rural, provinciana, e de uma vida bancaria cosmopolita, perde o caracter organico de nação. Entre-se no Tejo, entre-se até no Douro, e ver-se-hão as bandeiras de todas as còres, menos a portugueza; formigam, fumando, os vapores inglezes. Lisboa é uma estalagem, nós os recoveiros. Não! que desde que ha caminhos-de-ferro nem o lucro das recovagens embolsamos; somos o moço da arriaria, porque o nosso capital prefere aos caminhos-de-ferro, se não são do governo, as inscripções de cá ... e de Hespanha! Proprietarios ou juristas os burguezes e os lavradores, caixeiros e artífices de industriaes forasteiros os proletarios, a nossa situação é de facto como a do turco. Ahi nos conduziram as qualidades de um genio por tantos lados affín, os resultados de uma condição a tantos respeitos similhante. Lisboa é para nós um elemento de resistencia passiva: Constantinopla é-o para elles. Não se está vendo quanto custa a resolver esse problema? O nosso é proximamente egual. Tambem á Europa convirá mais ter no Tejo uma estação franca, do que a cabeça de um imperio concorrente. Se assim é, com effeito, temos de optar entre duas hypotheses, nenhuma d’ellas, por certo, inteiramente satisfactoria: ou abdicar da autonomia em favor de um futuro distante de grandeza peninsular; ou conformarmo-nos a ir vivendo, regeneradamente, á espera do que está para vir. É uma crise? Decerto. Um cataclysmo? Talvez sim, talvez não: depende das circumstancias. Será, como consequencia natural dos factos actuaes conhecidos, um futuro honroso, nobre, meritorio? Será outra vez a repetição de D. Manuel, ou do Brazil de D. João V? Não se vê como possa ser.
O que eu d’aqui estou vendo, ao pôr as ultimas palavras n’esta obra triste, é o leitor irritado amarfanhar o livro nas mãos, pisal-o com os pés, vingando-se do atrevimento de quem lhe disse cousas que tanto o offendem. Nunca os jornaes tal escreveram, nunca o parlamento ouviu taes heresias: nem os velhos, nem os moços jámais as proferiram! Tambem os medicos, por via de regra, escondem ás familias a gravidade das doenças: umas vezes não as percebem, outras convem lhes mentir, para não assustar! Assim estão as classes que nos governam; e até hoje, força é dizer que o povo não descobriu ainda meio de se libertar d’ellas.