É fóra de toda a duvida que a Europa se constitue no seculo actual em um grupo de grandes imperios, cujo contorno definitivo ainda não está inteiramente desenhado. Varias cousas concorrem para isso: a complexidade crescente do organismo das nações, a centralisação de commando consequente, a natureza dos meios de communicação, de aggressão. N’esta lucta para a vida collectiva são tambem devorados os pequenos, e por isso, quando causas imprevistas não venham impôr uma direcção differente ás tendencias constitucionaes das nações europêas, parece necessario que n’um periodo mais ou menos distante Portugal e todas as demais nações minusculas desappareçam.
Não é, comtudo, essa ainda propriamente a questão. Por grande que seja a nossa basofia e a mania da desproporção com que entre nós se avalia tudo, é facto que teriamos de obedecer, voluntaria ou involuntariamente, a um destino geral e necessario. Se o concerto europeu decretasse, e a Hespanha podesse cumprir o decreto de absorpção, para onde se havia de appellar? Pelo amôr de Deus, supprima o leitor aqui as phrases inchadas que a tal respeito escrevem os jornaes e dizem os deputados: morrer até ao ultimo, alviões por armas, etc. Tambem os chinezes pensaram fazer parar as tropas franco-britannicas, vedando-lhes o caminho com monstros de papel pintado! Mas o palacio de Pekin ardeu.
Não temos exercito digno d’esse nome, é verdade; nem a raia, nem os portos defendidos. Mas não é essa a questão, porque havendo vontade e dinheiro o problema resolve-se, ainda que a relação entre a extensão das fronteiras, terrestres e maritimas, e a área e população de um reino estreito e longo aggravam as dificuldades. Embora. O portuguez é, como o turco, um bom soldado; krupps compram-se; e quando não ha generaes, alugam-se. Assim nós fizemos sempre: Schomberg, Lippe, Beresford, Solignac, Bourmont, Napier.—Resta porém dizer que tudo isso seria em pura perda: a Dinamarca estava armada até aos dentes e bateu-se denodadamente. Esta hypothese de uma absorpção sentenciada pelos congressos europeus, é porém relativamente indifferente para o nosso caso. Está claro que a sentença se cumpriria por vontade nossa ou per vim. Contra a força não ha resistencia.
O que nos interessa a nós saber, é se da marcha natural das nossas cousas sairá ou não, declarada uma crise, a perda da independencia: porque, se não queremos perdel-a, convém tambem estudar o modo de o conseguir. Ora n’este momento, se escutamos os pareceres dos homens graves, ve-mo-nos sériamente embaraçados, porque tambem achamos os pensamentos dos estadistas correndo como cata-ventos, do norte ao sul, de um polo ao polo opposto. Singular terra em que tudo gira á mercê do vento, e permanentemente se discute a propria raiz da vida nacional! Não se diria que ella, arrancada do solo, batida pelo ar, sem alimento, se mirra?
Mousinho e Palmella, na crise da primeira metade do seculo, tiveram opiniões oppostas; e durante a paz da segunda metade essas duas opiniões continuam antagonicas. Um dizia que, perdido o Brazil, nós perderamos os elementos de vida independente: D. João VI chamava a isto o seu canapé da Europa. Outros, variando agora sobre o mesmo thema, apoiam o parecer quando declaram indispensavel á vida portugueza fazer da Africa um novo Brazil.—De outro lado, com sérios argumentos, mostra-se a differença dos tempos e dos meios, e condemnando-se o dinheiro gasto nas colonias—dinheiro perdido!—repete-se a opinião de Mousinho, affirmando-se que qualquer porção de gente, trabalhando e vivendo em qualquer zona de territorio, póde constituir uma nação: Portugal tem dentro de si, na Europa, elementos de vida e prosperidade!—Não será facilimo destruir os argumentos de uns pelos dos outros, e concluir por uma negação total? Talvez se chamasse temerario, e decerto se lapidaria quem o fizesse. Mas o que é necessario affirmar, embora chovam pedras, é que uma tal divergencia de opiniões sobre o proprio nó vital portuguez depõe muito pouco em favor de uma conclusão affirmativa.
O leitor sabe como, ancorada em Lisboa a patria pelos seus fundadores, principiámos a saír o Tejo, a rodear a Africa e viemos a viver da India, e do Brazil depois. Sabe que meios se empregaram, e tambem que differenças de condições e idéas ha hoje: o commercio é uma concorrencia, não um monopolio; o trabalho é livre, não forçado, etc.[47] Se portanto inquirirmos a historia, acharemos na tradição fundamento para o primeiro parecer; mas se estudarmos as idéas e condições actuaes, parece-nos claro que essa tradição se scindiu, e que é pelo menos problematico o exito da empreza de a restaurar.
Em que ficamos, pois? Sim ou não? Quem sabe? O vento assobia, a agulha gira, do norte para o sul, do sul para o norte ... Se não ha opiniões firmes, como ha de o critico descobril-as? Quem sabe? Talvez? O ministro fulano disse, o conselheiro sicrano opinou ... E emquanto, rodando, girando, a agulha obedece aos movimentos mais desencontrados, o critico observa que a nação, nas suas granjas e nos seus bancos, ceifando cearas e juros, provincial ou cosmopolita, vae andando. Vamos indo; vamos vivendo. Não é a unica observação positiva que se póde fazer?
O egoismo deita para depois de si o diluvio; o espirito pratico olha apenas para o pão-nosso de cada dia. A verdade é que Palmella enganava-se quando suppunha o Brazil perdido. O Brazil dá-nos muito dinheiro, sem o trabalho de o governarmos. Mas o que poupamos por esse lado perde-mol-o por outro. Outr’ora vinham quintos para o Thesouro, hoje vêem saques para particulares. Esses saques breve se convertem em inscripções, é verdade; mas o processo é mau, porque, assim, o Thesouro tem dividas em vez de rendas; e se por fim, quando o ponto final vier, o resultado tivér sido o mesmo, o ponto trará comsigo a mais grave das crises.
Perdemos ainda por outro modo. Outr’ora o portuguez ia, voltava, sem se desnacionalisar; hoje não renega a patria, mas casa-se com brazileiras, desenraiza-se da sua aldeia e vem para o Porto ou para Lisboa formar uma classe exotica, opulenta, mas com um papel desorganisador da homogeneidade e do funccionar normal da economia da sociedade. Cosmopolitas, esses caçadores de juros, nada vêem fóra dos papeis: nem o trabalho, nem a industria, nem o estudo.
Que remedio? Um unico, evidente, immediato: exploral-os. É o que faz a politica pratica, sacando-lhes o dinheiro em emprestimos com que compra por melhoramentos a adhesão dos campos; sacando-lhes tambem subsidios para directamente comprar os eleitores soberanos das cidades. Que remedio?