Regenerada á solta lei da natureza, a nação vê que, em parte consideravel, a riqueza creada sobre ella não lhe aproveita. Os caminhos de ferro que não são do Estado, pertencem a estrangeiros; a estrangeiros o melhor das nossas minas; estrangeiros levam e trazem o que mandamos e recebemos por mar. Só o solo nos pertence, só o liquido do rendimento agricola nos enriquece? Não. Á fartura de uma população rural ignorante, junta-se a opulencia das classes capitalistas de Lisboa e das cidades do norte, não mais culta, porém mais videira. Uma granja e um banco: eis o Portugal, portuguez. Onde está a officina? E sem esta funcção eminente do organismo economico não ha nações. Póde haver populações provinciaes; póde haver Monacos; mas falta um orgão á circulação, um membro ao corpo humano. Um povo constituido em nação é como um abecedario: todas as lettras lhe são necessarias para escrever o que pensa.
E como em Portugal faltam lettras, os escriptos portuguezes não se entendem. Assim as populações ruraes e as urbanas, a propriedade e o capital, sem o nexo da industria, isoladas, não se penetram. Se o capitalista compra terras, é para as arrendar, vivendo sempre do juro. E capitalista e proprietario, provinciano um, cosmopolita o outro, nenhum sente palpitar em si a alma da nação. Um olha para os milhos, o outro para os papeis, absorvidos ambos no seu interesse egoista, indifferentes a tudo o mais. A economia consumma de tal fórma o que a historia preparou: o governo é um rifacimento. Os politicos são uma classe áparte; as finanças e o Estado um outro, um extranho a que o proprietario pede melhoramentos e o capitalista juros. Como corretor, o politico, de permeio, recebe de um os emprestimos, dá aos outros as obras, e vive da corretagem. Proclama pois a excellencia de tudo, e quando apregôa o credito que temos lá fóra, esquece dizer que os banqueiros de Paris são tambem outros corretores que sabem o destino final dos papeis em mais ou menos breve praso: a burra do brazileiro.
Que se lhe dá o proprietario do que passa em Lisboa? Imagina com razão que nada lhe arrancará d’alli ao pé o caminho-de-ferro ou a estrada. E ao capitalista que se lhe dá? Os jurinhos vão vindo; rabiscando por aqui, por ali, jogando um pouco, assignando emprestimos, creando o seu banco, etc. vive bem, satisfeito, os annos que lhe restam. É positivo e pratico, como os que não vêem um dedo adiante do nariz. E finalmente o politico, esfregando as mãos, demonstra em discursos e relatorios que se não póde ir melhor: os rendimentos crescem: vejam! Como é grande o nosso paiz! E a platéa de Sanchos, mas sem ironia sequer, Sanchos conservadores, Sanchos demagogos, Sanchos monarchicos e republicanos, metaphysicos e positivistas, proprietarios e capitalistas, nobres e burguezes: toda a platéa applaude, grita, acclama a fortuna do grande reino da Barataria.
Decerto é um desvairado misanthropo, nada moderno, que contesta o fundamento de acclamações tão unanimes. Desvairado o que pergunta qual cresce mais: se a receita, se a despeza? Desvairado o que pergunta com que recursos se fará o que falta: a instrucção que não temos, as obras publicas de que possuimos apenas uma amostra. Desvairado, o que indaga a raiz das cousas e se não contenta com os aspectos. Desvairado, o que pensa no que seria de nós se o brazileiro desconfiasse, e deixasse de comprar a divida com que saldamos contas annualmente; ou se uma guerra, outra crise na America, embaraçasse o ingresso dos capitães.[45] Desvairado o que pergunta o que será de nós então: que fazer de toda a gente: orfans, viuvas, hospicios, asylos, hospitaes, com os seus fundos convertidos em papel do Estado? Então, na crise da penuria, se observará a limpo a verdade da confiança!
E entretanto essa crise affigura-se a espiritos desvairados como o nosso, tão fatal, tão necessaria como a crise constitucional, e muito mais séria do que ella. Se a nossa liberdade é a expressão da nossa absoluta anemia politica, a nossa fortuna apparente exprime a nossa cegueira economica. E assim como a todos convém não bolir na constituição, assim convém a todos que se não bula na reputação de ricos. Como ao enfermo ou ao arruinado, sobre tudo nos convém guardar a immobilidade e as apparencias. Quem lucra em as negar? Quem tem coragem e força para dizer da tribuna do governo: peccámos, senhores, peccámos: perdoae-nos! Quem tem genio para indicar o caminho do arrependimento? As causas vêem de mais longe: estão na fatalidade das cousas, de que a vontade dos homens é apenas o instrumento.
E como se haveria de exigir d’elles uma confissão de arrependimento que os arruinaria a todos? aos politicos nos seus interesses e vaidades; aos capitalistas nos seus juros e papeis; aos proprietarios nas urgencias que têem de novos caminhos? Não seria querer mais do que as forças humanas consentem?
Por uma doirada estrada, tambem se vae para o supplicio. Em Roma, que pensaria o boi quando o adornavam de collares e faxas preciosas, para o conduzirem ao altar nos suovetaurilios lustraes? Como uma rez, nós marchamos todos, seguindo os sacerdotes que nos levam, perfumados de myrrha, coroados de plantas odoriferas: bellas phrases, sorrisos de satisfação alegre, passo grave e gesto largo. Mas em Roma o sacerdote sabia que ia matar o boi: em Portugal ignora o politico que talvez conduza a nação ao seu fim? Mede bem o alcance do ponto futuro, inevitavel? O da Regeneração foi o fim da Liberdade: como se chamará o que nos espera?
3.—AS QUESTÕES GEOGRAPHICAS
Já em outra obra,[46] já em paginas anteriores d’esta, dissemos o que deviamos ácerca do lugar da nossa terra na Peninsula. E se o leitor tem presente o que escrevemos, decerto faz uma observação. É a mais singular das feições singulares que temos successivamente indicado. Mais ou menos, um ou outro dia, todas as nações pequenas tiveram a receiar a perda da independencia: não é isto o que nos particularisa. Em nós succede que, no decurso de uma historia de já quasi oitocentos annos, é constante o sentimento, ou de medo, ou de esperança em uma fusão no corpo da nação visinha. Este oscilar da opinião tambem de norte a sul, como um catavento, sem estabilidade, não está mostrando a falta do que quer que é similhante ao lastro que mantém seguros, enterrados n’agua, os navios? Agora, são guerras feridas para nos defender, logo planos para nos annexar; agora declamações de odio a Castella, logo confissões de impotencia no isolamento. E isto vem assim, durante oito seculos, como these e antithese, que se não resolvem. Singular! Não parece que, no desdobramento dos nossos pensamentos collectivos, nunca chegou a formular-se cathegoricamente o da independencia? Não parece que, no desenvolvimento do nosso organismo, se por um lado attingimos a independencia politica, a litteraria, a lingua independente, falta ainda—faltará sempre?—um que quer que seja bastante, para dar a populações provincialmente differenciadas, a differenciação radical que affirma as nações? Um protesto póde ter força para conservar de pé quem o pronuncia, e a prova é a nossa separação de facto; mas não é singular que, apezar de ás vezes parecer esquecido o sentimento de negação e ganhar segurança consciente o da autonomia: não é singular que, declarada uma crise, appareça invariavelmente, e até hoje, o espirito nacional dividido entre as ameaças do patriotismo, as confissões da fraqueza, e as esperanças da união?
Notado este caracter da nossa historia, ainda patente em nossos dias, não nos cumpre agora indagar-lhe as causas nem expôr-lhe a theoria: trata-se de estudar a influencia que póde ter nos destinos ulteriores da nação.