A liberdade é a humanidade, dissera o novo apostolo da doutrina; mas o seu Evangelho não era, como o antigo, apenas um discurso, falando ao sentimento indefinido, á piedade, á caridade, irreductivel a formulas e doutrinas, fundo de luz nebulosa do puro espirito humano, que o eleva acima da realidade triste e o poetisa amaciando-lhe as agruras e espinhos: o Evangelho de Passos era um canon, uma lei, uma doutrina—e por isso uma chimera. Era uma poesia, posta na prosa necessariamente rasteira da politica. D’esses miguelistas que a sua caridade perdoava, e a sua humanidade restaurava ao gremio de cidadãos, dizia:

Deixal-os ... se ainda não tém olhos para fitar a Urna e vêr que alli está a liberdade de todos os homens! (Disc. de 10 de nov. de 34)

Os bellos sentimentos tornavam-se opiniões, e faziam-se idolatria; das nuvens doiradas de esperanças e desejos ficava o pó de umas formulas e a illusão de um symbolo. A Urna era outra Cruz. E onde os artigos doutrinarios punham a soberania da razão individual e o absolutismo do direito do homem, a nova definição que Passos dava á Liberdade, rejuvenescendo o jacobinismo da sua infancia com a poesia da sua alma, punha a soberania do povo, a voz da multidão, congregada nos seus comicios. O paiz perdia-se por não a querer ouvir; Portugal caía por vêr na Liberdade uma doutrina de individualismo, não uma doutrina de democracia. Tudo o que se fizera fôra um erro: tudo havia a fazer de novo. Assim, nas ruinas da velha cidade portugueza assentára o dominio de um systema que, arruinado em dois annos, ia ceder o lugar a outro systema novo e a novas ruinas.

Havia cá fóra, para commentar e applaudir as palavras calorosas do tribuno, prégando a nova lei, um vasto numero de homens armados, e uma opinião unanime condemnando a gente velha. Havia, além d’isso, esse estado de espirito aventuroso, excitado, prompto a romper: estado de espirito proprio de quem chega de uma guerra. Ao voltarem á capital, os batalhões de voluntarios não tinham desarmado; percebiam vagamente que, apesar de terminada a campanha, a guerra não acabara ainda. Tudo o que o governo fez para os desarmar por boas foi inutil: punham guardas ás portas dos lugares indicados para a entrega das espingardas, afim de impedir que os pusillanimes obedecessem. (A dynastia e a revol. de set.) De arma ao hombro, pois, havia uma legião prompta a apoiar as palavras do tribuno que a força das cousas ia obrigar a descer da camara para a rua, do céu ethereo das suas esperanças para o triste fim das suas desillusões. Passos acabará, como acabou Mousinho.

De tal fórma termina o primeiro periodo d’esta historia: dois annos que principiaram com o acabar da grande guerra. Vamos estudar a segunda liberdade; depois estudaremos a terceira, a quarta, etc.—até ao fim.

NOTAS DE RODAPÉ:

[1] Pela primeira vez tenho occasião de me referir ao interessante livro do snr. Macedo, Traços da historia contemporanea; e no decurso d’este trabalho o leitor verá quanto me valeram os subsidios que encerra e de que me utilisei a mãos largas. Quando este facto me não auctorisasse a confessa-lo, obrigava-me a isso a nimia benevolencia com que, inspirado por uma amisade que o levou a vêr em mim meritos que não possuo, o snr. Macedo me honrou dedicando-me o seu livro. Estas palavras são o testemunho de um agradecimento que devia ser publico, assim como a offerta o foi.

[2] «Tudo sorria; e não se divisava pedaço de terra sem lavoura: o systema das irrigações lombardas era admiravelmente percebido e executado. Todas as cottages, respirando um bem-estar industrioso, tinham hortas bem resguardadas com seus meloaes e aboboras, sua fonte, e cepas, figueiras e macieiras em latadas. Os camponezes bem vestidos, olhavam-nos affavelmente, porque tinham o coração aberto pelo bom trato, os celleiros cheios, numerosos os rebanhos, e nos frades de Alcobaça senhorios, nem avarentos nem tyrannos.» Recollections, etc. (1794) do auct. de Vathek. (Beckford.)

[3] Desde muito que, no conselho, Aguiar, contra a opinião da maioria, instava pela abolição dos conventos. No dia em que em Evora-Monte se assignava a convenção, terminando a guerra, Aguiar voltou a insistir e tornou a ser vencido. D. Pedro, porém, reteve-o, depois da saida dos collegas, e ordenou-lhe que lavrasse o decreto. O ministro foi do paço para a imprensa, ahi redigiu o decreto, que se compôz e imprimiu em segredo, á sua vista, e não saiu da imprensa senão quando o Diario saiu tambem. Os collegas souberam, pois, pela folha, da decisão tomada, e que, a não ser assim, nunca se effectuaria.—Comm. verbal de Duarte Nazareth, que a houvera do proprio Aguiar.

Eis aqui a estatistica das corporações monasticas e os seus rendimentos em 1834. (V. Mappa das corp. ext. pub. 42.)