É meu destino morrer!


Burro, como se sabe, queria dizer miguelista; e o poeta exprimia a convicção intima da nossa incapacidade para comprehender a nova lei. Com effeito, assim parecia, ao observar-se o que se passava por toda a parte: a vergonhosa miseria dos caracteres, a absoluta impotencia das vontades no sentido de reconstituirem de qualquer modo o organismo derrubado pelos golpes do machado de Mousinho. As lascas do velho tronco, os ramos e as folhas da arvore antiga, caídos por terra, apodreciam no charco das lagrimas e das saudades dos vencidos, do sangue copioso dos cadaveres. Era uma decomposição rapida e já tudo fermentava.

Mas no lodo dos paúes, nadando sobre as aguas esverdeadas e putridas, vê-se abrir, elegante e candida, a flôr do nenuphar. Assim brotava pura no charco nacional a esperança de um futuro, a miragem de um destino, a chimera de uma doutrina, o encanto de uma voz—a meiga voz de Passos, um messias, pedindo paz, ensinando amor.

Eu detesto os homens rancorosos. Essa gente é má. Quem aborrece e não ama, não póde ser virtuoso, nem póde ser livre,—porque a liberdade é a humanidade. (Disc. de 10 de set. de 34)

A liberdade era para o novo apostolo uma cousa diversa, porque as expressões vagas consentem que cada qual introduza n’ellas os mais variados pensamentos. Para Mousinho fôra um estoicismo secco uma negação do passado, uma doutrina racional e utilitaria: agora surgia uma LIBERDADE nova, especie de vestal sagrada e evangelica, envolvida n’uma nuvem doirada de ambições poeticas. O liberalismo portuguez via nascer-lhe um Lamartine; e no descredito da primeira definição, as esperanças voltavam-se para a nova fórmula.

Temo muito a liberdade nos discursos, mas pouca nos corações. Ha muitos que a intendem, mas poucos que a saibam amar. Temos mais liberaes nas bibliothecas do que nas praças, nos tribunaes, no gabinete. Muitos ha que tém lido, que sabem toda a liberdade, e que ainda tém coração para a amarem, mas não o tém para a defenderem. (Disc. de 10 de nov. de 34)

Ardia então na camara o odio aos vencidos, e as palavras de paz eram um acto de coragem. Essas palavras do parlamento, ainda ouvidas com attenção de colera ou de esperança, eram commentadas pelas provincias; e de muitos pontos, em numerosas cartas sem nome, chegavam ao tribuno eloquente os abraços, os applausos. «Não estranhe chamar-lhe amigo, sem nunca o ter conhecido: quem trabalha para o meu bem, tem jus á minha amisade», dizia um; e outro: «O modo por que se houve na questão das indemnisações denota um saber profundo. É nimiamente liberal porque é tolerante, e humano porque é sabio. Acceite o signal de reconhecimento de um militar que recebeu duas feridas na guerra e se gloria de pensar pela cabeça de v. s.» E assim outros, muitos. (Corr. authogr. dos Passos, 34-5)

Mas, por duros e resequidos que a guerra e a baixeza tornem os corações dos homens, raro será o instante em que os não commova uma palavra sentida, de uma bocca virtuosa. Intemerato no seu nome, seductor na sua voz, candido, ingenuo, virtuoso, tambem estoico, Passos destacava-se e erguia-se por sobre os outros com a superioridade dos genios caridosos sobre os espiritos sómente lucidos. Era mais do que uma rasão, era uma virtude; mais que um homem, quasi um santo. Em baixo, muito em baixo, ficavam, chafurdando em odios e vilezas, as turbas dos politicos. A palavra d’elle subia, evaporando-se nas nevoas de uma aspiração poetica, superior ao que a condição dos homens permitte realisar. Na sua caridosa chimera pedia mais do que paz, pedia egualdade e um estreito abraço dos vencedores e dos vencidos.

A minha firme convicção é que todas as opiniões devem ser representadas e que todas devem ter garantias. Isto que eu quero, querem-no tambem os opprimidos ... Não quero a pena de morte para nenhum cidadão portuguez: oxalá que nunca mais ella seja executada sobre a terra! Não quero tambem penas perpetuas, porque até no fundo de uma prisão a nenhum desgraçado deve faltar o balsamo consolador da Esperança ... Penso que as lagrimas de um parricida, regando o tumulo do pae trucidado, são bastantes para lhe fazer perdoar tão grande crime. (Disc. de 28 de jan. de 35)