Á sombra d’esta confusão e d’este medo havia impunidade para tudo; e n’um sentido era benemerito o bandido que assassinava e roubava o inimigo. De facto não terminara a guerra: continuava, sob a fórma de uma caçada. Em Setubal havia infinidade de ladrões e os proprios militares não se atreviam a sair sem armas. (Shaw, Letters) Os salteadores faziam batidas, traziam cadaveres que o povo, tomado de um furor egual ao antigo, mas inverso no objecto, enterrava, cantando e bailando. Pareciam selvagens. (Ibid.) Serpa ficou celebre pela gente que ali foi morta a tiro, sem combate, pelas janellas e pelas portas. Batia-se: vinham abrir, e uma bala entrava e o infeliz morria. Era um miguelista: não vale a pena incommodos. A justiça não se movia; pagou culpas antigas! E os assassinos eram benemeritos. No Porto (20 de março de 35) o façanhudo Pita Bezerra, antigo carrasco cuja morte se comprehende melhor, indo á Relação a perguntas, foi assaltado pela multidão que o tirou á escolta, levando-o á Praça-Nova onde o matou; arrastando o cadaver puxado por uma corda, pela ponte, a Villa-nova, como quem mostra um lobo morto ás aldeias, e deitando-o por fim ao rio. As quadrilhas de Midões assolavam toda a Beira. Arganil, Avô, Coja, Folques, Goes, Villa-cova foram positivamente saqueadas, levando os bandidos o despejo em comboyos de carros. (Secco, Mem.) O bandoleirismo florescia n’essa região serrana, como raiz de uma velha planta que rebenta assim que bebe um raio de sol. Eram os descendentes de Viriato. O miguelismo armara-os, e agora, bafejados pelo ar benefico da anarchia, uns, implorados e defendidos pelos senhores de Lisboa a quem serviam, voltavam-se contra os miguelistas, indifferentes a partidos e opiniões, seguindo o seu instincto de uma vida aventurosa e bravia. Outros, porém, mantinham-se fieis aos padres, e nos broncos cerebros d’esses quasi selvagens apenas os fetiches do catholicismo[10] podiam ás vezes mais do que os instinctos espontaneos. Era uma Italia meridional, nas suas serras, o paiz que acabara sendo em Lisboa uma Napoles. As Beiras viviam, á maneira da Grecia de ha poucos annos, uma existencia primitiva da tribu armada, alimentando-se do roubo, admirando a destreza e a coragem dos seus chefes.

Havia na serra da Estrela a guerrilha miguelista do padre Joaquim, de Carragozela, irmão do celebre Luiz Paulino secretario da Universidade no tempo de D. Miguel. Havia contra ella as dos Brandões, de Midões, que serviam o Rodrigo e o Saldanha, chefes-de-partido em Lisboa. Fundiram-se um dia esses inimigos no convenio de Gavinhos; mas ficaram dessidentes os do Caca, fieis ao miguelismo, e acabaram queimados n’uma adega, depois de a defenderem contra os sitiantes. (Secco, Mem.) A fusão das guerrilhas da Beira creou na serra um verdadeiro terror, porque ninguem ousava desobedecer, e imperavam, saqueavam: houve casas queimadas e, á luz dos incendios, orgias de vinho e estupros. (Ibid.)

E nas revoluções e pronunciamentos que vão principiar em 36, n’essa segunda epocha em que a anarchia passa violentamente para o governo, tornando todo o exercito n’um corpo de guerrilhas, vê-se a tropa, ora alliada, ora inimiga dos bandidos; e os palikaras portuguezes fazendo eleições, pela Patuléa ou pelo Cabraes, levando as leis nas boccas dos trabucos e resolvendo a tiro as pendencias locaes.

Vem distante, porém, isso ainda. Agora a faina é saquear e eliminar o miguelista. De 34 a 39 só em Oliveira-do-Conde e nas Cabanas houve mais de trinta assassinatos impunes. (Ibid.) E nas côrtes e 38, Franzini apresentou uma nota do periodo de julho de 33 a 37, que diz assim:

Faro — assassinatos 285 roubos 509
Castello-branco » 84 » 90
Portalegre assassinatos 89 roubos 595
Guarda » 221 » 373
Porto » 528 » 378
Braga » 41 » 620

O minhoto roubava melhor; na Beira e no Algarve matava-se com mais furia. No Porto houvera mais de quinhentos mortos; mas a capital, onde em um anno apenas (Disc. de Franzini, sess. de 38) se tinham visto 194 assassinatos e 614 roubos—homem morto, um dia sim um dia não, e dois roubos em cada dia!—a capital levava a palma a tudo. Não era ahi o centro, o foco, o tabernaculo?

Voltemos ao nosso Esopo: «Filho de burro não póde ser cavallo, dizia meu avô», e valendo-se da fórma popular da fabula, põe o burro em dialogo com a Liberdade:

Não fujas, diz-lhe o jumento,

Burro, que havia eu fazer?

Burro nasci e só burro