Tendes vós calculado d’onde hão do saír os meios para provêr á miseria de tantas familias que nós vamos fazer desgraçadas? Ou havemos de tapar os ouvidos e fechar os olhos ao coração, para não vermos espectaculo tão lastimoso? Quando um filho vos pedir pão, dar-lhe-heis uma pedra, ou um punhal ou o cadafalso? (Disc. de 28 de janeiro de 35)
A camara, como é sabido, aboliu o decreto, mas os miguelistas ainda pagaram muitas «perdas e damnos»; pouparam-nos ao cadafalso, mas deram-lhes pedras, punhaes e tiros de trabuco em desforra. A segurança de uma victoria tão custosa, tão disputada, sobretudo incerta por tanto tempo, embriagava homens que ouviam aos mestres doutrinas feitas a proposito para os desenfrear. Soltaram-se com effeito todas as cubiças e odios; pagaram-se a tiro todas as offensas; roubou-se e matou-se impunemente. O miguelista era uma victima, um inimigo derrubado: o vencedor punha-lhe o joelho no ventre e o punhal sobre a garganta. Caçavam-se como se caçam os lobos, e cada offensa anterior, cada crime, era punido com uma morte sem processo. Os vencedores, suppondo-se arbitros de uma soberania absoluta, retribuiam a cento por um o que antes haviam recebido.
Não era só, comtudo, a vingança que os movia, nem tambem a cubiça: era um grande medo de que o monstro vencido erguesse a cabeça, á maneira do que ás vezes faz o touro no circo, prostrado pelo bote do matador, levantando-se e investindo, matando ás vezes, já nas ancias da morte. Além do medo, havia ainda a fraqueza da authoridade liberal, fraqueza inevitavel em que prégava ao povo a sua soberania, fraqueza natural no dia seguinte ao da victoria; mas fraqueza infame, pois d’ella viviam os chefes, passando culpas aos seus clientes, fechando os olhos aos roubos e mortes: quando positivamente os não ordenavam para se livrarem de rivaes incommodos ou de inimigos perigosos. Tal é a ultima face da anarchia positiva; assim termina a serie de manifestações de uma doutrina aggravada pelas condições de um momento. Destruira-se na imaginação do povo o respeito da authoridade, condemnando-se-lhe o principio com argumentos de philosopho; destruira-se todo o organismo social; e em lugar d’elle via-se, portanto, a formação espontanea das clientelas, chocando-se, disputando-se, consummando a ruina total, explorando em proveito proprio a confusão dos elementos sociaes desaggregados.
Toda esta dança macabra de partidos e pessoas corria sobre uma nação faminta, apesar das libras que rodavam em Lisboa, e dos tivolis e dos bailes das Laranjeiras. Força fôra accudir com socorros aos lavradores. (Lei de 4 de outubro de 34) Uns queriam que o governo comprasse gados e sementes e os distribuisse; mas a doutrina ergueu-se, chamando a isso communismo, exigindo liberdade. Decidiu-se emprestar dinheiro—oh, tonta tyrannia dos systemas!—para que o pequeno lavrador comprasse grão e rezes n’um paiz assolado.[9] Toda esta dança macabra de bandidismo infrene, dizemos, corria por sobre um paiz devastado. No governo não havia força para impôr ordem, e havia interessados em fomentar a desordem. Cada Ministro tinha o seu bando, os seus bravi, para resolverem a tiro nos campos as pendencias que a phrases se levantavam nas camaras. Mas ainda quando isto assim não fosse, a condemnação em massa de todos os que no antigo regime exerciam as funcções publicas; essa universal substituição do pessoal do Estado, indispensavel para pagar os serviços, trazia aos lugares os aventureiros, os incapazes, e verdadeiros bandidos.
Em vão se tinha duplicado (de 70 a 140) o numero dos julgados: era impossivel corrigir uma desordem que a tantos convinha. Guerrilhas armadas levavam de assalto as casas do miguelista vencido, roubando, matando, dispersando as familias. Havia uma verdadeira, a unica absoluta liberdade—a da força! Na Beira houve exemplos de uma habilidade feroz singular. Matava-se a familia, deixando a vida apenas ao chefe, em troca de um testamento a favor de alguem. Dias depois o pobre apparecia morto e enriquecia-se d’esse modo. (A dyn. e a revol. de set.)
Os tribunaes, com o seu novo jury, eram machinas de vingança. De Campo-maior, um bom homem escrevia a Manuel Passos o que observara. (29 de maio de 36; corr. autog. dos Passos) Saíra maguado de uma audiencia, em que um negociante da terra pedia seis contos de perdas e damnos a sete miguelistas que tinham deposto como testemunhas contra elle, no tempo do Usurpador. O povo invadira-lhe os armazens, partira lhe as janellas: nem uma testemunha, comtudo, accusava os réus de terem praticado ou ordenado esses actos; mas o advogado «concluiu dizendo aos jurados que já que não podiamos tirar a vida aos realistas por causa da convenção d’Evora-Monte, lhes tirassemos os bens, pois que era esse o unico mal que lhes podiamos fazer.—Os jurados eram quasi todos da guarda-nacional e querem tambem indemnisações: condemnaram os réus na conta pedida. Isto me fez tremer pela liberdade!» (Carta de José Nunes da Matta)
Os magistrados novos roubavam desaforadamente; e o juiz de Angeja conseguiu tornar-se notavel: só lhe faltou levar as portas e os telhados das casas. (A dyn. e a revol. de set.) Era um positivo saque. O povo creou tal raiva a esse ladrão que a gente do Pinheiro foi esperal-o, quando ia a Ovar, obrigando-o a fugir n’uma carreira que só parou no Alemtejo. (Ibid.) Na propria Lisboa succediam cousas incriveis. Por ordem do governo foi saqueada a casa do visconde de Azurara, ausente, e dois amigos do ministro ficaram-lhe com as mobilias. (Ibid.) O que succedeu ás dos conventos sabe-se—ou antes ninguem soube. Bandeira, o Esopo liberal, que bom foi não ter morrido em 28, publicava no novo diccionario: «Delicto-Delirio.—A significação d’estas duas palavras ainda não está bem fixada, e varía em tempos e paizes diversos».
Não se imagine que escurecemos as côres do quadro. Leia qualquer as memorias do tempo, ouça os que ainda vivem, e ficará sabendo como a anarchia na doutrina, que era uma anarchia no governo, era tambem uma anarchia de bandidos por todo o reino, matando e roubando impunemente. E por cima de tudo isto pairava um medo positivo que entorpecia a acção dos mandantes, e justificava, no sentido de uma defeza feroz, a caça do miguelista.
Aos corcundas promette-se D. Miguel; aos liberaes vertiginosos a carta de 20: revoluçãosinha no Casal-dos-ovos; Juntinha na Pederneira; Juntinha em Barrozas: ahi está tudo em aguas turvas; e é então que D. Miguel pesca. D’um lado o Ecco, o Interessante, o Percursor e o Contrabandista; e do outro o Nacional, o Diabrete, o Marche-Marche e a Vedeta dão com vocês doidos; e no meio d’esta confusão chega o casus fœderis, invoca-se a estupidez da nação, o desejo do absolutismo—e apparece o Homem! (Bandeira, Artilheiro n.º 16)