Não foi a queda d’esse chefe que pouco podia e já nada queria fazer, foi a impotencia da nova clientela exaltada quem a precipitou do governo (19 de abril de 36). Voltou a antiga gente, menos Palmella que tambem no isolamento remia velhas culpas. Os dois próceres rivaes, por tanto tempo inimigos poderosos, achavam-se egualmente reduzidos a nada, agora que já se entendiam, depois de feitas as pazes. Havia um outro duque, sem idéas politicas á maneira do diplomata, sem fogachos de ambição e rompantes de soldado á maneira de Saldanha; um outro duque, boa pessoa, politicamente nulla e por isso sempre fiel, excellente individuo para pôr á frente de um governo onde a antiga gente (Freire, Aguiar, Carvalho) restaurada queria começar uma vida nova, pensando soffrear com o utilitarismo e uma administração energicamente pratica, o torvelino de confusões politicas, de ambições pessoaes. Seria outra dictadura. Mas onde estava D. Pedro? Terceira presidiu a esse ministerio que a revolução de setembro derrubou, encerrando o primeiro periodo da vida liberal portugueza.

Afflicto pelos pedintes, pois da sua clientela antiga só os mendigos restavam fieis, despeitado, ferido no seu orgulho, prejudicado nos seus interesses, Saldanha via-se na falsa posição de não poder ser cousa nenhuma. Para o governo, vivamente atacado e decidido a dissolver as camaras, o general buliçoso e ávido, era, porém, a ameaça viva de uma revolta militar. Accusaram-n’o os seus amigos de outr’ora de se ter vendido n’esta occasião: «desde aquella epocha, de deserções em deserções, chegou á situação em que hoje (1854) está, desprezado por todos os partidos: porque se algum ainda lhe faz festa não é porque o estime, é por ser um tronco velho, sobre que ainda alguem se sustenta». (Liberato, Mem.)

Como é desoladora, melancholica, a historia funebre de todos estes homens que a desesperança ou a fraqueza atiram como farrapos, successivamente, para o lixo das gerações! Que singular poder tem a anarchia das idéas, o imperio dos instinctos soltos, das chimeras aladas fugitivas, para despedaçar os caracteres e perverter as intelligencias! Já um caíu—Mousinho; hoje é outro, o heroe de 26, o soldado do Porto—esse brilhante Saldanha! E ainda agora a procissão começa; ainda agora vae no principio o devorar impossivel do Baal da LIBERDADE, cujo ventre, como o do phrigio, pede honras, talentos, forças e sangue, para o seu consumir incessante!

Com o fim d’este primeiro periodo da anarchia positiva acaba Saldanha, da mesma fórma que Mousinho acabou ás mãos da sua anarchia theorica. Acaba, dizemos; porque, embora a sua vida se prolongue muito—demasiado!—ainda; embora o seu genio irrequieto, as suas necessidades, a sua ambição, lhe não consintam abdicar e sumir-se, como fez Mosinho e como fará Passos: a vida posterior que vae arrastar, se tem ainda momentos theatraes, é uma triste miseria. De chefe de um partido, passa a janisaro de um throno. De Cid, transforma-se em Wallenstein. O que brigara para não ser a espada de Palmella, vem a ser o punhal com que os Cabraes submettem o reino ao seu imperio. Sempre simples, seguro de si, crendo-se muito, não tem a consciencia de quanto desce. Lembra-se do que foi e poude; crê tudo o que os aduladores lhe dizem, confia no soldado que ama por instincto o genio; incha-se com as ovações que mais de uma vez ainda a turba ignara fará á sua sua figura theatral, aberta, viva e san, sempre moça, nas proprias cans da velhice que lhe emmolduram o rosto, augmentando ainda a seducção do aspecto d’esse actor politico: «estou persuadido que seria um bom rei n’um Estado qualquer!»

Rebellado ou submettido, contra ou pelo throno, no campo e em toda a parte, comprado ou temido, Saldanha, suppondo-se um arbitro, não sente quanto desce; não se reconhece um instrumento, nem que o deprimem as cousas que faz. A confiança que tem em si chega a ser infantil: com a mesma franqueza com que suppõe governar, imagina saber; e assim como as suas politicas são chimeras, são tolices as suas obras homeopathicas, ou inspiradas pelo catholicismo ardente que nunca perdeu. Quiz fazer concordar o Genesis com a Geologia, e essa tentativa, ainda quando soubesse o que não sabia, era a mesma que a sua propria pessoa apresentava: a concordancia de um catholico e jacobino. D’essas chimeras ficavam apenas livros maus e acções peiores. É verdade que os livros, luxuosamente impressos, tinham douraduras nas capas: também a vida do marechal tinha uma capa dourada de commendas, cordões e fardas bordadas, que sobre um vulto bem apessoado, com a sua face bella e a tradição da sua bravura, o faziam um excellente embaixador nas côrtes extrangeiras.

Depois, caíu ainda mais, sem o saber, sem o sentir: crendo-se sempre um grande homem. Agarraram-n’o os industriaes especuladores e serviram-se da sua pompa para os seus negocios, sujando-o com trapaças ... Assim acabou a historia a que agora vemos o começo. Em tão deploravel cousa veiu a parar o homem que em 26 fôra como um heroe e o arbitro dos destinos da patria.

Primeiro dos chefes politicos, reunindo á influencia parlamentar a cortezan e uma influencia militar superior á de todos, a segunda phase da vida de Saldanha devia ser esboçada aqui, n’este momento: é um typo revelador. Ninguem teve uma clientela maior. Abandonou-a, renegando-a pelo paço; e esses antigos saldanhistas de Paris, livres do estorvo que já os sopeava, preparavam-se para o seu dia. Uma revolução andava no ar: revolução que forçaria Saldanha a desembainhar a espada contra os seus velhos clientes.

Approxima-se a crise; mas o leitor comprimirá a sua impaciencia, porque, se já viu as fórmas mansas do regabofe, o dissipar do dominio nacional, o beber a chuva de libras dos emprestimos inglezes, não viu o outro lado da scena. A orgia era tambem cruel. Havia banquetes e matanças. Estalava champagne, mas tambem estalavam repetidos, insistentes, os tiros dos trabucos na caça dos vencidos. O portuguez mostrava a outra fórma da sua sanha natural, respondendo com a bala á forca.

5.—VÆ VICTIS!

A eloquencia do nobre Passos conseguira que se revogasse o decreto iniquo das indemnisações: