LIVRO QUARTO
A ANARCHIA LIBERAL
(1834-39)


I
O REGABOFE


1.—A SESSÃO DE 1834-35

No dia 15 de agosto, D. Pedro abriu solemnemente as camaras. A physionomia da assembléa era diversa em tudo da de 26-8. Bem se póde dizer que não estava alli a maior parte da nação, exterminada pela guerra, ou jazendo esmagada sob o pé do vencedor. Era o Portugal-novo que reinava, sobre os destroços e ruinas da nação antiga. A camara reunia-se n’um d’esses conventos saqueados, onde á pressa se levantou uma sala com paredes pintadas de azul e branco e um tecto de vidraças a que a rhetorica posterior chamou abobadas. Tudo era novo e cheirava ainda ás tintas, como o systema improvisado. D. Pedro, o faxina das trincheiros do cerco, viro-se o mestre das obras parlamentares, e um desembaraço egual fez com que a casa se achasse tambem prompta a horas. Despresando ministros e conselheiros, tratou a obra com um rapaz havia pouco chegado de fóra, o architecto Possidonio. Esto fel-a, e teve a idéa de pôr nas paredes, como ornato, uns medalhões com o nomes dos homens celebres de Portugal. N’um escreveu o do marquez de Pombal. E quando os ministros vieram vêr as obras exasperarem-se: «o marquez do Pombal! é lisongear Saldanha, meus senhores.» Seria o architecto da opposição? Houve conselho de ministros, em que se resolveu supprimir essa allusão perfida, dando-se ordem ao architecto para cobrir os nomes com uma aguada que em dias humidos mal esconde as letras douradas subjacentes. (Apont. da vida, etc.)

Tal era, ainda depois dos accôrdos do Cartaxo, o receio que inspirava o chefe da opposição. As camaras iam abrir-se; e por mais que tivessem feito, os ministros não tinham podido impedir que o Minho bucolico enviasse ao parlamento Manuel Passos, chefe sympathico e ingenuo de uma opposição pessoal ao regente e ao seu governo, e de uma opposição formal ás doutrinas da CARTA. Os saldanhistas possuiam uma especie nova de LIBERDADE, e propunham-se decididamente a fazel-a vingar sobre as ruinas da anterior. Fóra da camara, o Nacional, do Rio-Tinto que não gozava de boa fama, apoiava opposição parlamentar.


Constituiu-se a camara e começou a guerra. A primeira batalha foi a da questão Pizarro. O coronel, eleito deputado por Traz-os-Montes, viera para o reino, d’onde o expulsava um decreto formal e pessoal do regente, e fôra preso e encerrado em S. Julião. Era um attentado á immunidade parlamentar, clamava a opposição; e o governo respondia que a eleição fôra nulla pela inelegibilidade de um homem pronunciado por crime de alta traição. Sob taes formulas legaes se encobria de parte a parte a verdadeira questão: defender Pizarro, era atacar em cheio D. Pedro, seu pessoal inimigo.