Levado pelo impeto de uma séria crença na liberdade, de uma esperança formal nas instituições, Passos que luctava á frente, como já verdadeiro chefe da opposição, embora Saldanha se tivesse sentado no banco mais alto da mais extrema esquerda: Manuel Passos abandonava o pretexto, e punha nitidamente a questão. A camara era coisa nenhuma, nem representava a opinião do paiz. Não houvera liberdade nas eleições. A censura prévia aguilhoava as manifestações do pensamento. Não havia liberdade de imprensa, nem camaras municipaes, fóra Lisboa e Porto: apenas commissões nomeadas. Durante as eleições tinham-se suspendido as garantias.—Que se devia fazer? Era claro, simples e urgente: estabelecer a liberdade de imprensa, supprimir a suspensão de garantias, eleger camaras municipaes, e por fim dissolver o parlamento, convocando côrtes constituintes. (Disc. de 25 de agosto)
Pois a constituição não estava feita? Não, por fórma nenhuma: esse corpo de doutrina que fôra a bandeira de uma guerra e em cujo nome se tinha invadido e revolucionado o reino, era renegado por uma opposição enthusiasta e moça, a quem o futuro sorria. Ai de Mousinho, que estava certo de ter encontrado a fórmula verdadeira e definitiva!
E quem era o culpado de tão flagrantes infracções á doutrina liberal, segundo a entendia a opposição? Quem, mais do que esse ministerio obnoxio—para não dizer o nome de D. Pedro, com o qual todos sabiam que o ministerio fazia um? Depois da convenção de Evora-Monte, elles, opposição, queriam a paz, a liberdade e a ordem; mas os ministros (leia-se: o regente) deram á nação, em premio de seus serviços, o regime da arbitrariedade, e a honra de pagar sessenta contos annuaes ao tyranno vencido.—«O infeliz coronel Pizarro (regressando ao ponto de partida) jaz n’uma masmorra porque o ministerio actual se constituiu impio testamenteiro d’aquelle Coriolano tres vezes traidor á patria». O Coriolano de Passos (a quem a educação jacobina inspirava nomes romanos) era o fallecido Candido José Xavier que pegára em armas contra a patria.—A camara, de pé, clamou por ordem. (Disc. de 25 de agosto)
Era o que todo o reino pediria, se tivesse alma para pedir alguma cousa. A metade vencida gemia porém, esmagada; e a vencedora borborinhava tonta na faina de disputar o despojo da guerra. Cada qual chamava a si uma parte maior ou menor da victoria, considerando-se com direitos particulares adquiridos. Havia uma grande voracidade; mas acima dos que faziam das opiniões o rotulo da sua fome, erguia-se Passos, o stoico, exigindo a victoria dos principios, não a dos homens e seus desejos e ambições. Outros lançavam-se desesperados ao ministerio e ao regente, «porque essa roda comia tudo»; elle dirigia o côro das imprecações, mas sereno, com os olhos fixos na imagem etherea, nebulosa das suas cogitações e sonhos: uma liberdade candida, pura, pacifica!
Entrou na camara a questão da legalidade com que D. Pedro exercera e exercia o papel de regente, pômo das discordias antigas e sabidas da emigração; e Passos dizia: «Eu sou um implacavel inimigo das dictaduras». Como era novo ainda, e crente, o homem que só com essa dictadura detestada veiu dois annos depois a outorgar a sua liberdade!—E falseando um pouco os factos, continuava «que, porém, se no momento de Paris fosse necessario um plebiscito para elevar o imperador á terrivel dignidade de dictador, todos elles, opposição, estavam promptos a assignal-o com o proprio sangue. Agora o caso mudava: era mistér voltar á legalidade, e que se reconhecesse a soberania do povo nas suas assembléas.»—Referindo-se logo ao principe, falava em termos que na bocca de outro seriam crueis ironias, e na d’elle eram desejos ingenuos, tanto a virtude se confunde com a simplez! «Sacrificae o pae da patria!.. E quanto o conheceis pouco e mal! S. M. I. é um principe philosopho. Cansado da purpura para gozar a vida privada, com que philosophia não rejeitou ainda ha pouco a corôa imperial!» (Disc. de 25 de agosto)
Cansado da vida, golfando sangue, estava prostrado no leito o desilludido principe que morreu a tempo. Perante este facto que trazia um novo elemento de complicações á trama cerrada dos embaraços desencadeados pela liberdade, Palmella, com uma auctoridade que era soberana, pois já lh’a não disputava o ex-emulo Saldanha, interveiu a tempo: demittiu o ministerio, collocou-se-lhe nas cadeiras, dando a rainha por maior, afim de preencher esse logar vago a que o liberalismo chama throno. Ninguem melhor servia para isso do que uma creança apenas mulher, pessoa sem querer, symbolo em vez de realidade, como os vultos de palha que se põem nas cearas para afugentar os pardaes vorazes. Estonteada, ainda a opposição clamou; e nos pares, Fronteira e Villa-Real, Lumiares, Loulé e Taipa, votaram contra a maioridade da rainha, pedindo a regencia da Infanta D. Isabel Maria. Taipa dizia alto e bom som que o ministerio era uma camarilha feita para devorar o paiz á sombra de uma creança. A infeliz CARTA, já violada na questão da regencia, era segunda vez rasgada na da maioridade da rainha!
Enterrado D. Pedro, caído o seu velho ministerio, extinguia-se um pedaço do passado incommodo: começava com a rainha a vida nova parlamentar-liberal. Mas, se para os radicaes a cova engulira o tyranno regente, para os liberaes o espectro de D. Miguel mantinha-se-lhes perante a vista esgazeada, ainda antes da vinda da noticia o protesto do exilado em Genova.
No ardor da guerra, abandonadas todos as idéas stoicas de Mousinho, decretara-se (31 de agosto de 33) a expropriação de um partido pelo outro, sob o nome de Indemnisações. Tinham-se tornado responsaveis os auctores da usurpação (todos e cada um in solidum, por suas pessoas e bens) pelas perdas e damnos causados pela usurpação. Os bens miguelistas eram sequestrados e vendidos em praça: isto é, transferidos por nada aos arrematantes liberaes, quando não eram adjudicados directamente aos vencedores lesados por não haver na praça lanço egual á avaliação. Tinham-se creado commissões avaliadoras das perdas e damnos, as quaes davam aos interessados cedulas acceitaveis como dinheiro nas arrematações dos bens.