[9] A lei de 4 de outubro de 34 mandou emprestar até 650 contos (a juro de 5 por cento e amortisação em 5 annos) assim distribuidos por provincias: Algarve 108; Alemtejo 123; Beira-Alta 21; Beira-Baixa 25; Douro 103; Extremadura 161; Minho 55; Traz-os-Montes 28.—Em novembro havia metade dos emprestimos feitos.

[10] V. Syst. dos mythos relig., pp. 297 e segg.

II
PASSOS MANUEL

1.—A REVOLUÇÃO DE SETEMBRO

A antiga gente do governo não se achava melhor com a substituição de Palmella por Terceira: o segundo duque valia pouco e estava ameaçado de cair depressa. Esse primeiro semestre de 36 corria prenhe de ameaças. Já Carvalho não podia sacar dinheiro de fóra e a sua fecundidade desacreditava-se. Succedia-lhe atrazar os pagamentos, como a qualquer outro. Já se deviam 15:000 contos, por vencimentos e despezas dos ministerios (5:426), por letras e escriptos do Thesouro (3:610), por adiantamentos do banco, (4:494—V. Rel. de Passos, sess. de 37) sem falar na matilha de credores por divida mansa não reconhecida, ou esquecida, em 34. N’um regime de communismo burocratico, como o nosso, isto era gravissimo: casa onde não ha pão ...

Por isso, não falando dos clamores das ruas, havia no seio da camara uma opposição vehemente e applaudida. Eram os dois Passos e Sampaio, era José Estevão e o banqueiro Rio-Tinto; eram Costa-Cabral, o Nunes, Sá-Nogueira e Julio Gomes. O ministerio sentia-se tão mal que em julho (14) dissolvera a camara, para reunir gente sua, convocada para setembro. De fóra batia-o o Nacional, á frente da imprensa inimiga; e no club celebre dos Camillos (os ministros diziam Camellos) troava acima de todas a voz de Costa Cabral pedindo uma tyrannia de plebe, o sangue dos aristocratas e dizem que até a cabeça da rainha. (Costa Cabral em relevo, anon.) Era o nosso Marat: porque nós, copiando a França, imitavamos sempre os figurinos de Paris.

O governo fez as eleições, que foram como todas; e como sempre, venceu. O reino inteiro o queria com uma unanimidade e um enthusiasmo, que poucas semanas bastaram para demonstrar. Venceu em toda a parte: salvo no Porto rebelde, imperio, cidadella, dos irmãos Passos, de Bouças. Já que tudo era copia, digamos tambem que a chegada dos deputados do Porto a Lisboa foi como a dos marselhezes a Paris.

Succedeu isso no dia 9, no Terreiro-do-Paço, onde gente armada foi esperar os recemvindos e acclamal-os, com morras á CARTA e ao governo, vivas á constituição de 1820 (ou 22) e á revolução. «Indo-nos deitar na cama á sombra da CARTA, acordámos debaixo das leis da constituição dada pelo povo no anno de 1820. Todos esfregavam os olhos e perguntavam se era um sonho o que ouviam: mas era com effeito uma realidade.» (Liberato, Mem.) Foi assim, com esta simplicidade, que as cousas mudaram; o que prova, não a força dos que venciam, mas a podridão das cousas vencidas. Havia a consciencia de que a machina social, por desconjuntada, não marchava; e um tal sentimento deu o caracter de uma saldanhada á revolução de setembro, contra a qual ninguem protestou. No dia 10, de madrugada, a guarda-nacional foi ao Paço exigir a queda do gabinete e a proclamação da constituição de 20. No dia 11 o ministerio caía, e de tarde foi a rainha aos Paços do concelho jurar a nova—ou antiga—constituição. Inutil é dizer que a camara feita não se reuniu: era necessario fazer outra, de feitio diverso. Entretanto acclamara-se a dictadura de Passos, Vieira de Castro e Sá da Bandeira. A victoria surprehendera a todos, e mais do que ninguem aos vencedores que a não esperavam. Era mistér decisão, porque o barometro não é fiel quando sobe rapidamente. Chamou-se a capitulo: o dictador-em-chefe, com Leonel e Julio Gomes, deviam ordenar a maneira de eleger as novas côrtes. O Rio-Tinto offerecia dinheiro. Havia um formigar espesso de gente dedicada, prompta a sacrificar-se pela patria, pedindo os lugares que os vencidos devoravam havia tempo demasiado. Passos «tinha o braço cançado de assignar demissões».


Nós já conhecemos, desde 26, o tribuno do Porto elevado ao fastigio do poder. Os dois Passos, filhos de um proprietario de Bouças, pertenciam a essa burguezia do norte do reino por estirpe e temperamento. Tinham nascido na abastança, desconhecendo as privações crueis da infancia que umas vezes formam os homens, mas muitas mais os estragam. Seus paes, sem grandes propriedades ruraes—ninguem as tem no Minho—possuiam bastos capitaes moveis, o que tambem no Minho é commum: em 28 tinham na companhia dos vinhos e em casas de commercio do Porto o melhor de sessenta mil cruzados. Na casa de Guifões havia frequentes banquetes á antiga portugueza, servidos em velhas pratas; e os dois moços foram mandados a Coimbra, onde só iam os abastados. O pae destinava o mais velho, José, ao clero; o segundo talvez á magistratura. Por quarenta mil cruzados a dinheiro tinha contratada a compra do priorado de Cedofeita para o que veiu a ser vice-presidente da junta em 46, bacharel formado em Canones. 1828 destruiu todos estes planos, arrastando os dois irmãos á emigração, onde a riqueza da familia começou a fundir-se. De 28 a 31 a mãe mandou-lhes trinta mil cruzados para Paris: ahi os moços irmãos Passos, dos raros emigrados ricos, eram uma providencia dos companheiros pobres, entre os quaes estava Saldanha. (Corresp. de Port. 13 de dez. 80)