Agora, supprimida a CARTA, começava-lhes uma vida nova, e um reinado; mas a seu lado vê-se um nome que não ficaria decerto esquecido depois dos louros de honra conquistados no exodo para a Galliza, em 28.

Sá da Bandeira nascera em 29 de setembro de 1795. Tinha pois agora quarenta annos: o vigor da vida, e um braço de menos levado por uma bala no lugar que, mutilando-o, lhe accrescentou o nome. Cadete em 1810, aos quinze annos, foi para a guerra da Peninsula, ficando até á paz prisioneiro em França. O liberalismo entre cesarista e demagogo do imperio napoleonico aprendeu-o, pois, na infancia. Voltou a Portugal com a paz, e esteve ao lado dos jacobinos em 20, tornado a França do seu degredo de Almeida. Intelligencia recta e caracter forte, nem podia perceber as nuances das cousas, nem dobrar-se ao imperio das conveniencias. Militar fiel á bandeira, subdito fiel ao rei, cidadão fiel á patria, espirito fiel aos principios, Sá-da-Bandeira não podia ser um condottiere como Saldanha, nem um politico como Palmella, nem simplesmente um instrumento militar como Terceira, nem tampouco um tribuno, idolo revolucionario, como Passos.

A reacção de 1823 acha-o em Lisboa com vinte e oito annos e não o seduz. Em vez de pregar no peito a medalha da poeira, como fizeram Saldanha e Villa-Flôr, emigra outra vez; para regressar em 26, collocando-se ao lado do governo, fazendo a campanha contra os apostolicos e acabando-a em 27, nomeado major por distincção. No anno seguinte foi prestar os seus serviços á Junta do Porto, e bem se póde dizer que lhe salvou o exercito e a honra militar na retirada para a Galliza que o fez chorar de amargura. Tinha trinta e tres annos.

Sereno e firme, estoico o virtuoso, julgava-se o homme-lige da liberdade portugueza. Ligado por principios ao radicalismo, andou separado das suas intrigas na emigração. Viu sempre a questão como uma guerra e sobretudo queria desembainhar a sua espada, obedecendo, sem ambições de mandar, com a serena ambição de seguir o seu dever, servindo onde, como e quando fosse necessario. Por isso, logo em 29 passou de Inglaterra á Terceira; e tendo sido aprisionado pelo cruzeiro miguelista, escapou da cadeia de S. Miguel, indo apresentar-se a Villa-flôr com o qual fez a campanha dos Açores.

Veiu com a expedição ao reino; e D. Pedro nomeou-o governador militar do Porto em 26 de julho, substituindo o antecessor (D. Thomaz Mascarenhas) que fugira na noite panica de 23-4. Depois foi ministro; e em 34 governador do Algarve, para bater as guerrilhas do Remechido. Consolidada a paz, tributado o preito de fidelidade ao throno que a guerra levantára, embainhou a espada e sentou-se na camara do lado esquerdo, pois, no seu entender, de ambos os lados se era egualmente fiel á monarchia liberal. Imperturbavel na sua serenidade, com um systema de opiniões assaz concatenadas para um espirito avesso a profundar as cousas, a humanidade era a sua religião, o dever a sua moral, a monarchia o seu principio, a espada o seu amor, o povo o seu dilecto. Estava pois longe de ser um demagogo como os dos Camillos, nem um tribuno da plebe, á maneira dos de Roma—como do facto era Passos.

A revolução de setembro surprehendeu-o tanto como a todos; mas inquietou-o mais, porque desorganisava a ordem da sua vida, pondo em conflicto diversos aspectos da sua opinião. Decidira-se pela unica solução adequada ao seu genio—abster-se. Mas se na rua o amavam, no paço conheciam-no. Elle era o homem unico para evitar que a monarchia, assaltada, caisse. Talvez esperassem fazer d’elle um Monk, ou um Saldanha, mas se assim pensavam, illudiam-se, e illudiram-se. Sá-da-Bandeira foi um Lafayette. Trahir era um verbo que elle desconhecia por instincto. Se a monarchia julgava que nem a revolução, nem os principios de 1820 eram inconciliaveis, elle, que no fundo do seu coração amava o povo, elle para quem a liberdade era a humanidade, folgava em não ter de mentir a nenhum dos seus deveres; e faria o possivel por alcançar a conciliação, corrigindo todas as demasias democraticas que puzessem em perigo a solidez do throno. Instado, acceitou, porque lhe disseram ser isso, exactamente isso, o que lealmente se queria; e com leal serenidade foi sentar-se ao lado do tribuno para o aconselhar, moderando.

Ora o paço esperava sempre que elle fizesse mais alguma cousa: não conhecia o fundo do seu estoicismo, e logo que o percebeu mudou de rumo.


É verdade que, tambem, a marcha das cousas arrastava-o e via-se perdido no meio da onda da demagogia solta, que já o não renegava a elle só, mas até ao seu antigo idolo, ao nobre, adorado Passos. Os Camillos rugiam pela bocca de José-Estevão que se julgava um Danton, e de Costa-Cabral pseudo-Marat. Havia ahi quem, tirando classicamente o punhal da algibeira da sobrecasaca e brandindo-o, ameaçasse medir com elle a distancia das Necessidades ao caes-do-Tojo. E José Estevão, agarrando a golla de pelle de cabrito da pseudo-toga do pseudo-Bruto, gritava-lhe: «Calla-te, miseravel!»—N’um momento de franqueza inconsequente, natural dos bons, Passos exclamara: «A nossa imprensa! Eu não tenho com que a comparar senão com o theatro do Salitre ... Desgraçada nação, se tivesse de ser governada pelos arbitrios dos follicularios!» (Disc. de 16 de jan. de 36) Mais de uma vez, tambem, condemnara as dictaduras em nome da rigidez dos principios. E agora a fatalidade das cousas, erguendo-se para dissipar as illusões, fazia-o servo d’essa imprensa e obrigava-o a ser um vil despota. «É o governo dictador sobre as leis; dictadora a imprensa sobre o governo: dictadores os assassinos sobre o governo. Ninguem conta com o seu emprego, nem com a sua reputação, nem com o futuro da sua patria.» (O Tribuno portuguez, outubro) O emprego apparece á frente, como é dever n’um communismo burocratico. Doía o braço do dictador assignando demissões, mas nem assim conseguia vencer a fome dos pedintes. Antes, era uma oligarchia mais facil de contentar; agora, a democracia, o governo de todos, obrigaria a uma partilha universal, se se quizesse saciar os desejos universaes. «Não ha quem se não lembre d’essas medonhas colunmas de descamisados que, vindo em cardumes do Porto e de outras partes do reino, pejavam as escadas das secretarias e atulhavam as avenidas de todas as repartições publicas». (Hontem, hoje e amanhã, op. anon.) A guarda-nacional imperava; havia toques de rebate em permanencia e um susto constante na população. Que seria ámanhan? Quem podia contar com o futuro, quando tudo estava á mercê das marcas, que dominando a milicia civica, faziam d’ella um instrumento de agitação permanente? Tocava o rebate nos sinos, e por toda a parte soava o rebate da extravagancia das opiniões, da embriaguez da basofia, com que todos, liberalmente, dotados de uma soberania indiscutivel e de um conhecimento das cousas mais especiaes, dissertavam, debatiam, decidiam, cada qual certo de possuir a formula infallivel para dar remedio a tudo.

Se queres sabio ser, recipe: Toma