Estas do sabio são agora as bases:

Terás os bravos da servil canalha.

Serás um sabichão dos mais capazes.

(Bandeira, son. abril de 36).

A allusão é transparente. O sabio é Passos, com a sua confusa massa de doutrinas e de factos, de naturalismo e idealismo, de tradições antigas, maximas moraes, e opiniões singulares sobre a historia nacional. N’esse vasto mar do conhecimentos anarchicos, apenas a poesia da sua imaginação e o stoicismo e a santidade do seu caracter mascaravam a inconsistencia do seu pensamento. Era um cháos de elementos intellectuaes sobre que pairava, como Jehovah na Biblia, a luminosa ingenuidade da sua alma.

A desordem que elle tanto concorrera pura desencadear, sob a nova fórma demagogica, com o encanto e a seducção da sua palavra, já começava a affligil-o, por não saber com que meios dominal-a. Embaraçado na teia das suas opiniões contradictorias, inspirado por um vivo amor pelo povo, crente na verdade mysteriosa, quasi mystica da voz da multidão, Passos via approximar-se o momento da sua queda infallivel e desejava-o ardentemente. Era um sonho que se ia esvaindo, uma nuvem que se dissipava. Por isso, quando caíu de facto, achou-se apenas com os doces affectos domesticos, e, destruidas as esperanças, maldisse da patria, fazendo-a a ella responsavel pela inviabilidade da doutrina.

Ainda esse instante não chegou, porém. Ainda o dictador impera, com o seu aberto sorriso, com a lhaneza popular que na praça encanta a turba. Ainda impera, e o seu dia melhor, mais glorioso não passou ainda. Ainda impera; e se organisa a seu modo a machina eleitoral e administrativa (cod. de dezembro 10)—porque sem ella não póde viver a revolução; porque é necessario substituir pela democracia o liberalismo da legislação do Mousinho—espera tudo da restauração da instrucção publica. «Eduquem o povo, e elle saberá ser livre»; porque a liberdade era um rotulo que se pregava em todas as cousas. «Continuado o pensamento interrompido de Mousinho da Silveira, disse com a maxima impropriedade Rebello da Silva, e applicando as forças da sua dictadura triumphante, o primeiro ministro da revolução de setembro verificou na esphera dos interesses moraes e administrativos o que o de D. Pedro já consummara na das grandes reformas politicas e econonomicas». (Passos Manuel, na Rev. contemp.) Á dictadura de Passos devemos, com effeito, as escholas polytechnicas de Lisboa e Porto, as duas menos felizes academias de Bellas-artes, e o conservatorio da capital; mas á sua doutrina da paz na liberdade democratica pela instrucção, não respondem acaso as revoluções dos nossos dias, e communas como a de Paris «o cerebro do mundo», na phrase de muita gente simples? mas á doutrina da solidariedade da instrucção e da liberdade, não repondem os paizes instruidos que não são livres?

Passos era a incarnação de todas as phrases democraticas; mas como essas expressões, ainda vagas e indeterminadas, continham em si a semente de verdades criticas, os homens que com ellas formavam a sua alma eram poetas, sim, e por isso chimericos, sendo ao mesmo tempo, como os poetas são sempre, nuncios de um futuro longiquo, victimas de um presente cruel.


Essa crueldade estava nos desvarios demagogicos e na reacção decididamente planeada pelo paço. Sabemos que a rainha enviuvara: em abril (10) tornou a casar-se com o joven príncipe de Coburgo, D. Fernando. O rei dos belgas, Leopoldo, com a influencia que exercia sobre a tambem joven soberana de Inglaterra, foi durante um certo periodo o accessor dos monarchas portuguezes. Com o principe veiu para Lisboa Van der Weyer, trazendo na sua pasta de ministro da Belgica o rol de instrucções necessarias para chamar Portugal á razão, para consolidar a dynastia e organisar o liberalismo entre nós. Leopoldo era então o pontifice da doutrina, e a Inglaterra não só o ouvia, como punha ás ordens dos seus planos portuguezes as suas forças navaes. E quando a Inglaterra assim obedecia, que haviam de fazer senão, convencidos, agradecidos, obedecer tambem os dois monarchas portuguezes, moços sem experiencia do mundo, e sem conhecimento directo do paiz sobre que reinavam?