Tal era a situação na côrte, quando os marselhezes chegaram do Porto em setembro. Na tarde de 9, á espera do vapor, o Terreiro-do-Paço estava cheio de gente e os vivas e foguetes estalaram ao desembarque. De noite tocou a rebate e a guarda-nacional reuniu-se, proclamando a constituição de 22. Mandaram-se tropas contra ella, mas essas tropas fraternisaram.[11] (Sá, Lettre au comte Goblet, etc.) No paço havia uma grande inquietação e Van der Weyer exigia do moço rei que montasse a cavallo e fosse com os batalhões fieis suffocar a revolta: D. Fernando recusou-se. (Goblet, Établ. des Cobourg.) Reconhecendo então não haver para onde appellar, o accessor dos reis lembrou Sá-da-Bandeira que foi chamado, e veiu á presença dos tres. Que impressão faria no espirito grave do nosso militar achar-se de tal modo perante uma rainha que nascera no Brazil de mãe austriaca, perante um rei allemão, e um belga que os governava a ambos, em nome do seu rei e com o apoio da Inglaterra: achar-se, dizemos, perante esse grupo, dando em francez leis a Portugal rebellado? Pois uma tal desnacionalisação do governo não influiria no animo de Sá-da-Bandeira no sentido de o inclinar ainda mais para o povo, pelo qual tinha um grande fraco? Elle não o diz: mas deve-se crer. Em todo o caso, fosse pelo que fosse, recusou o papel de salvador que lhe queriam confiar. Mas a guarda-nacional clamava na praça e os seus gritos chegavam á sala. D. Fernando, affavel, bondoso, e já talvez sceptico apesar de ser ainda moço, tomou-lhe do braço, seduzindo-o: «Era um grande favor!»—O nobre general que amando o povo, queria muito á monarchia, cedeu então. Não esperassem d’elle os serviços de um Monk; não. Era pelo povo; reconhecia os erros da CARTA, e detestava a politica seguida até alli. O seu plano consistia em defender os principios da revolução, harmonisando quanto possivel a CARTA, (26) com a CONSTITUIÇÃO (22). Sob taes condições resignava-se a acceitar. (Sá, Lettre au comte Goblet, etc.) Rainha, rei e o belga olhavam-se: que remedio? Ainda era a melhor solução; e sobre tudo não se tinham podido prevenir as cousas. Fôra uma surpresa: remediar-se-hia. A conta em que os extrangeiros podiam ter-nos, infere-se da historia deploravel da emigração e da guerra, de certo conhecida por elles, melhor ainda do que nós a conhecemos e a contámos. A convicção de sermos um povo que necessitava de tutella era geral.

Sá-da-Bandeira saíu, formou se a trindade dos dictadores, publicou-se o decreto revogando a CARTA e proclamando a constituição de 22, que seria reformada pelas côrtes. A mão da rainha hesitava, tremia, ao assignar o papel. (Ibid.) E que admira? Esse decreto reduzia-lhe a corôa a cousa nenhuma; tirava-lhe o direito do veto e todos os direitos soberanos; ficava sendo, ella, a nobre senhora tão cheia de caracter e vontade, o mesmo que fôra seu avô; e não tinha, como tivera D. João VI, fleugma bastante para se sentar de manhan rindo e abrir a Gazeta «a vêr o que tinha mandado na vespera». Rainha no sangue, homem no caracter, o pensamento de uma desforra talvez partisse d’ella; e se não partiu, mas sim dos conselhos do ministro belga, é certo que o abraçou, e peior lhe queriamos se o não tivesse feito. Deploravel condição de um systema que exige dos reis a falta de brio, nos conflictos da corôa com o povo, ou a indifferença sceptica pelos debates das questões do povo sobre que lhes diz reinarem! Deploravel idéa a que obriga a acclamar presidencia de uma nação a fraqueza, a indolencia, a indifferença!

O caracter da rainha era o inverso de tudo isso; mas os conselhos belgas e a protecção ingleza faziam com que, em vez de buscar apoio e força dentro da nação, os acceitasse de fóra, tornando-se de tal modo ré de um crime que desvirtua o merito da sua energia. Que nacionalismo se podia, comtudo, esperar de uma côrte inteiramente extrangeira? É verdade que, nem Saldanha, nem Terceira, tinham querido jurar a constituição restaurada: mas o ultimo em uma espada apenas e não um partido, e o primeiro descera á condição dos bravi, desde que renegára o eminente papel de chefe dos jacobinos. Podiam juntos levantar alguns batalhões e fizeram-n’o depois; mas não conseguiam com isso senão aggravar a situação de um throno, que o povo já desadorava por causa das influencias extrangeiras, e mais desadoraria quando o visse pretender impôr-se, defendido por batalhões de janizaros.

Não tinha, não, é facto, o nobre caracter da rainha outra força a que apoiar-se, mais do que esses dois generaes, mais do que as tropas e os navios inglezes, mandados para o Tejo por conselho do rei dos belgas e corretagem do seu omnipotente embaixador. D’este modo, o plano da reacção, coevo de setembro, amadureceu com o desbragamento crescente das cousas da revolução; e dois mezes d’ella, achando-se maduro bastante, decidiu-se dar o golpe d’Estado.

Quando Terceira ia para Belem tomar a parte que lhe tinham destinado, encontrou Passos, o tribuno do povo de Lisboa. Falaram, altercaram. E os ministros porque não restabelecem a CARTA? perguntava-lhe o duque.—«Porque não são traidores» respondia-lhe Passos com uma pompa mais apparente do que sincera; «encarregam-lhes a defeza da revolução e ella será defendida. A revolução tem sido generosa, porque é forte; mas se tomam a nossa generosidade por fraqueza, se appellarem para as armas, se provocarem a guerra civil, ai, dos vencidos!»—E tomando um ar terrivel, o bondoso homem fazia a voz grossa, a vêr se intimidava: «Em duas horas hei de ter fusilado mais chamorros do que tenho demittido em mezes ...»—E a prova de que a ameaça era fingida está no tom com que prosegue: «Estamos na vespera da guerra civil: ámanhan v. ex.ª vae commandar os exercitos da Rainha e eu os da Republica: se a espada de Bouças se medir com a espada de Asseiceira, nem por isso ficaremos inimigos». (V. Discurso de Passos, 18 de out. de 44)

Estava-se com effeito na vespera de uma guerra civil que duraria quinze annos, mais ou menos ensanguentados. Tudo em sombra e duvida no edificio da liberdade; e que melhor symptoma o demonstra do que a mistura de ameaças e ironias, com reminiscencias classicas (Republica), rhetoricas, e laivos de um scepticismo que punha por cima das amizades politicas as amizades pessoaes? O tribuno aperta a mão do general na vespera da batalha? Que singular comedia é esta? e que papel têem n’ella os pobres córos de um povo trazido para a rua pelas phrases ardentes da tribuna? Entendeu-se os actores, e representam uma tragedia em que o povo, soberano, omnipotente, origem de toda a auctoridade e destino de toda a acção, é um comparsa apenas? É assim, é.

Mas não se despedace a bella estatua do tribuno, porque elle era sincero na sua dobrez. A fatalidade póde mais do que os homens, e muito mais ainda do que os poetas, no momento em que as visões de esperança começam a dissipar-se. Era o que succedia a Manuel Passos, já abatido e semi-acabado por dois mezes de dictadura. O seu melhor dia, comtudo, não chegára ainda, e, como o cysne da fabula, ia entoar o seu canto, nas vesperas de morrer.

2.—A BELEMZADA

Van der Weyer preparára tudo; o dia estava aprazado. Era indispensavel vingar o brio da joven rainha (17 annos) que debulhada em lagrimas tinha jurado a constituição (Macedo, Traços)[12]; era necessario acreditar o reinado do moço (20 annos) D. Fernando, que o monarcha da Belgica enviára para cá. O corpo diplomatico tinha pedido garantias; os pares da direita, presididos por Palmella, tinham protestado. Passos e Sá tinham sido chamados a palacio, a dar explicações perante o belga, perante o inglez Howard. Temia-se tudo: o miguelismo, a republica, a regencia de Isabel-Maria, velha preoccupação de outros tempos, ou da imperatriz viuva em quem se falava agora. Os dictadores affirmavam a sua lealdade ao throno, garantiam, asseguravam que se lhe não boliria (Ibid.); mas o caminho que as cousas tomavam fazia com effeito receiar que não tivessem força egual á boa vontade.

Van der Weyer poz, portanto, em execução as instrucções que trazia. Tutor dos jovens e obedientes monarchas, metteu mãos á obra. Seria um golpe d’Estado rapido, a que tudo se submetteria; mas o belga, tendo estudado Portugal, estudára pouco a inteireza do animo heroico do seu ephemero dictador. Não fosse elle, e o plano teria vingado. Tudo estava combinado com o rei Leopoldo, que mandaria tropas suas; mas emquanto não chegavam, Palmerston, de accôrdo—porque a rainha Victoria adorava o tio—pozera ás ordens uma esquadra com tropas de desembarque, fundeada no Tejo. Nada se faz sem dinheiro: Portugal não o tinha, e claro esta que havia de pagar o preço da sua educação liberal. A Belgica adeantava o necessario, mas com penhor, porque os belgas são seguros e mercadores; e o penhor seria uma das possessões de Africa. (Sá, Lettre au comte Goblet, etc.) Oh, pobre Portugal, mandado por todos, ludibrio das gentes, triste nação já saqueada do que possuias no Oriente, para ganhares a dynastia brigantina, e agora ameaçada de perderes a Africa, para conservares os teus reis liberaes e forasteiros!