Elles, que não tinham nas veias sangue portuguez, não córavam de vender a nação; mas tampouco fervia o sangue dos cartistas que, ávidos, contavam com o regresso dos tempos perdidos. Foi o dia dois de novembro, dia lugubre dos finados, o da tenebrosa combinação. Armados a bordo, com as lanchas equipadas, estavam os inglezes; e os conspiradores a postos esperavam que as fardas vermelhas chegassem, ou a rainha fosse para bordo. Não se tinha D. João VI refugiado tambem na Windsor Castle? Sermos uma especie de Tunis parecia natural aos homens gastos por tantas aventuras, tão varias intrigas, onde lhes tinha ficado todo o brio e caracter que a natureza lhes déra; sem parecer extranho ao rei extrangeiro, aos diplomatas sabedores da nossa historia, e á rainha que havia ganho o throno á força de batalhas n’um paiz inimigo.

Mas Passos disse, terminantemente—não! E a sua ordem era apoiada por Lisboa em armas havia tres dias. Foi ao paço, no dia de finados; e pareciam-lhe cadaveres, cousas mortas, esses portuguezes que, ladeados pelos extrangeiros, á sombra d’elles lhe exigiam a restauração da CARTA, e que renegasse a revolução, isto é, o seu nome, o seu brio, a sua honra. Foi, ouviu-os, e á rainha disse que se fugisse para bordo dos navios inglezes era o mesmo que se abdicasse; e se chamasse para terra os soldados extrangeiros, era como se declarasse a guerra á nação sobre que reinava. Já não sorria, como quando falara ao duque da Terceira. Agora, o sangue pulava-lhe e a sua bella face illuminava-se com o enthusiasmo: era a imagem da honra nacional. Se a rainha tramasse a contra-revolução, arrepender-se-hia; se o não fizesse, veria quanto era amada. (Macedo, Traços) As palavras saíam-lhe fluentes, com um timbre sereno porque brotavam sinceras, candidas, da sua grande alma. E, como finados, os conspiradores ouviam-no, calados, corridos—cousas mortas que eram. Mas na alma da joven rainha não havia uma corda que respondesse ao bater incessante da palavra eloquente do procurador dos povos? Quem sabe? É natural que hesitasse entre os dois que a disputavam.

Os ministros offereceram-lhe a demissão, que ella nem acceitou, nem negou. (Ibid.) Se hesitava decidiu-se por fim pelo belga, contra o portuguez. Seduzida a guarnição pelos generaes, tudo estava combinado e previsto. Caía a tarde do dia 3, quando a côrte saíu das Necessidades para Belem, onde os regimentos de Lisboa foram juntar-se, sem ordem do governo, obedecendo aos generaes conspiradores. Rodeada de soldados, á sombra dos navios inglezes, a rainha sublevada mandou chamar os ministros. Eram dez horas da noite e estavam reunidos em casa de Passos. Delegaram Vieira-de-Castro, e sem rebate, caladamente, reuniu-se a guarda-nacional. O emissario voltou: ainda bem que não tinham ido todos, porque o plano era prendel-os: a contra-revolução estava consummada.—Isso não! respondeu Passos; e levantando-se, decidiu que fossem a Belem, á frente da guarda-nacional, vêr cara a cara o inimigo. Sá-da-Bandeira ficaria em Lisboa. Tocasse-se a rebate em todos os sinos, rufassem todos os tambores, houvesse alarme contra uma côrte inimiga: a ameaça a forçaria a recuar.—Fez-se como o dictador mandou; mas a côrte, vendo-o chegar com Lumiares e Vieira-de-Castro, escarneceu-os, demittindo-os, pondo em lugar d’elles um ministerio, do dia em que fôra combinado—um gabinete de finados!

A noite acabou em paz. Em Belem contava-se ganha a victoria; mas em Lisboa ninguem dormia, todos se preparavam.


O dia 4 começou com um assassinio. Já a turba armada, com os animos excitados, fazia das ruas baluartes, fortificando-se á espera de uma invasão. Já as avenidas de Belem estavam guarnecidas, para impedir o passo aos que pretendessem ir apoiar os conspiradores. De Belem chamava-se a capitulo: viesse toda a velha guarda liberal, fiel á CARTA, que o extrangeiro estava prompto a restaural-a. Agostinho José Freire vestia-se, fardava-se de encarnado, todo recamado de ouro, para ir receber as ordens da sua rainha, isto é, para voltar a um poder de que a revolução o expulsara.

Freire nascera em 28 de agosto de 1780; contava 56 annos, mas apesar da vida trabalhosa, estava robusto e são. Seguira a carreira militar sendo porém sempre politico. Appareceu aos quarenta annos secretario das côrtes em 20, emigrando em 23, voltando em 26, tornando a emigrar em 28. D. Pedro chamara-o a si em França, nomeando-o ministro da guerra, lugar em que o vimos quando o historiámos. (Vida e tragico fim de A. J. Freire, anon.)

Agora afivelava o espadim, pendurava os crachás sobre a farda vermelha, preparava-se, brunia-se, para apparecer glorioso no paço onde o chamavam. Era um velho, todo branco, alto, magro, elegante, com uma phisionomía fina que revelava o seu temperamento nervoso e excitavel. Falava com elle Aguiar, mais positivo, e tambem convidado para ir a Belem; falava, aconselhando-lhe prudencia: eram odiados, bem o sabiam, e podiam reconhecel-os no camínho e soffrer algum insulto. Freire não concordava. A sege esperava-o em baixo, e já fardado descia, convidando o collega a acompanhal-o. Aguiar recusou; saiu a pé, abotoado, sem insignias nem fardamento, direito a um caes para embarcar. Ainda assim o reconheceram, largando botes a perseguil-o: deveu a vida ao pulso dos seus quatro remadores. (A dynastia e a revol. de set.)

Sopeada pelos cavallos, travada, corridas as cortinas engraixadas, a sege de Agostinho José Freire descia a ladeira ingreme da Pampulha. Em baixo, onde vêem dar as viellas que dizem para o rio, havia um posto de guarda-nacional de arma ao hombro, para impedir as viagens a Belem. Fizeram parar a sege, correr as cortinas, e deram em cheio com o personagem na sua farda vermelha constellada de commendas e bordaduras. Conheceram-no todos? De certo não; mas o facto é que a farda bastava para denunciar um inimigo, e o commandante do 15.º batalhão deu-lhe a voz de preso. Estalou um tiro quando Freire se apeiava: dobrou-se e cahiu morto. (Vida e tragico fim, etc.)

Logo que um caso d’estes succede, vem a sanha, como de cannibaes, a aggravar o acto commettido. Ha muitos a querer a honra do feito; ha muitos mais a afogar n’um desvario de atrocidades o remorso espontaneo de um crime. Sobre o cadaver ferviam os tiros. Despojaram-no de tudo, deixando-o de rastos, semi-nu, contra um lado da rua, crivado de feridas, escorrendo em sangue, com uma tijella de barro ao lado para receber as esmolas dos transeuntes. Mais tarde foi levado em maca ao cemiterio, seguido por uma turba furiosa que duas vezes o exhumou, negando-lhe a paz na propria cova. (Ibid.)