Essa furia da populaça, victimando o ministro, fazia-o expiar os crimes de muita gente. Os juizos do povo são como os que se attribuem a Deus:[13] cégos, apparentemente injustos muitas vezes, são os juizos do Fado que, indifferente a nomes, escolhe á sorte um homem para victima expiatoria de crimes mais ou menos seus. Da mesma fórma o povo escolhe os idolos e os réus.

Essa furia da populaça era a consequencia da exaltação em que o acto aggressivo do paço lançava Lisboa e o seu povo, já soberano segundo a lei, verdadeiramente soberano agora que as guardas nacionaes imperavam armadas. Ao som do rebate, formavam, em ordem de batalha, no Campo-de-Ourique na manhan do dia 4. Parecia imminente um combate entre ellas e a guarnição reunida em Belem, em torno da rainha. Passos estava no seu posto á frente do povo armado, quando vieram do paço chamar o dictador. Que lhe queriam? Fosse o que fosse, elle partiu, arriscando a vida.

Sá-da-Bandeira, a quem a Junta do Campo-de-Ourique convidára para o commando, recusára a principio, da mesma fórma que antes havia recusado o papel de Monk offerecido por Howard; mas agora a agitação crescente, a imminencia da crise obrigavam-n’o, e ficava, mais para conter do que para guiar o povo armado. (Lettre au comte Goblet.)

Passos entrou no palacio, e dir-se-hia que voltavam essas antigas scenas da Edade-media, quando os tribunos da plebe iam á frente dos monarchas. Em volta da rainha estavam o rei e os diplomatas e os pares do reino, os conselheiros d’Estado, a infanta D. Isabel Maria, e a imperatriz viuva. Era toda a côrte reunida para ouvir, para condemnar, para seduzir? Era toda a côrte, perante o homem de Bouças, rei verdadeiro de Lisboa. Passos curvou-se, beijou a mão da rainha, e esperou que lhe dissessem o que d’elle pretendiam.

Então, pela soberana falou—quem? O seu ministerio dos finados? Não. O inglez Howard, o belga Van der Weyer, e só depois dos extrangeiros, Villa-Real, Lavradio e Palmella no fim. As falas eram mansas; não se alludia ao ministerio dos finados, porque a attitude de Lisboa, de manhan, infundira medo. Tratava-se de seduzir, não de ameaçar. S. M. não podia consentir na abolição da CARTA, mas estava decidida a reformal-a: entretanto, o inglez affirmava que o seu governo não toleraria em Portugal a constituição quasi republicana de 22. Involuntariamente, os olhos dirigiam-se para o rio onde o vento soltava a bandeira vermelha da Inglaterra na pôpa das suas naus. E do lado da rainha todos continuavam a não extranhar a figura de idiotas que faziam.

Repetia-se a scena da vespera; e Passos repetiu, em francez, mas com uma firmeza mais calma e triste, o que disséra na vespera. Fôra nomeado ministro com a constituição de 22, e não com a CARTA, a cuja sombra se desbaratara a riqueza nacional por não haver garantias politicas contra a oligarchia reinante. Não renegaria a revolução, embora desde o principio tivesse affirmado a necessidade de emendas que consolidassem o throno. Não era uma questão de fórmas, era a questão do principio, da origem da authoridade. A CARTA fôra um dom do throno, a constituição uma conquista da soberania popular. Socegasse, entretanto, S. M. que o povo não queria mal ao throno: haveria duas camaras, veto absoluto, e direito de dissolução, «como na CARTA. Será como na Belgica, dizia a Van der Weyer: não podereis condemnar».—E voltando-se para o inglez impertigado e impertinente, dizia-lhe que a lealdade portugueza não recebia lições britannicas. Eramos um povo livre, e não acceitavamos a intervenção de ninguem. As cousas inglezas que elle amava e admirava, haviam de entrar ás boas, em navios mercantes, para terem despacho livre. Vindo em navios de guerra, as leis da Inglaterra só serviriam para lh’as devolver sob a fórma de cartuchos. S.M. teria dignidade bastante para repellir as offertas da Inglaterra; se as não acceitasse, Portugal deixaria por uma vez de ser uma prefeitura britannica e o seu soberano uma especie de commissario das ilhas Jonias. «Se desembarcarem, dizia por fim a Howard, serão batidos». Á rainha, convidava-a a ir para o Campo d’Ourique, onde veria que amor lhe tinham os subditos; e aos generaes em ultima instancia: «A Inglaterra ameaça-nos: ninguem se deshonrará. O vosso logar é no Campo de Ourique, á frente dos portuguezes que ahi defendem a independencia da patria» (Macedo, Traços, etc.)

Era um doido, varrido, poeta. Pôr os pontos nos ii, falar com sinceridade em politica! E uma audacia! E um orgulho, n’esse indigena! Howard estava absorto, o belga confundido, a rainha perplexa, os seus portuguezes corridos. Havia silencio, ouvia-se o arfar do peito do tribuno que derramara a flux as ondas da sua indignação ... E o facto é que talvez se não enganasse: Lisboa era por elle ... Talvez os inglezes fossem batidos, talvez os regimentos portuguezes fraternisassem como em setembro.[14] Talvez ... Talvez ... E havia uma hesitação singular, e uma longa pausa, quando a voz lenta e fanhosa do moço rei, n’uma phrase indiscreta, exprimiu em francez o seu despeito colerico. Monsieur le roi Passos, comment vont vos sujets à Lisbonne?—Reprimindo-se, elle respondeu que não tinha subditos: eram-no da rainha. E D. Fernando objectou: Mas não lhe obedecem!—«Porque S. M. manda o que não póde—e o que não deve!» E outra vez excitado pela temeraria ironia do rei, voltou dizendo que ordenára uma resistencia energica—até ao fim: «Se morrermos, morreremos bem!» (Ibid.)

Ninguem duvidava de que elle fosse capaz de morrer. A scena, começada com o apparato de uma opera, para a seducção de um tyranno plebeu, acabava n’um drama pungente. Na face da sua côrte, á frente dos embaixadores, a soberana estava abatida e humilhada pela soberania d’esse homem, que não era só o idolo de um povo prompto a defendel-o: era um heroe para quem não valiam lisonjas, nem adulações, um estoico indomavel, uma virtude inaccessivel. Em vez de seduzido, Passos acabava seduzindo os proprios inimigos. Os que se não penitenciavam do erro, sumiam-se corridos. Trigoso dizia á rainha que depois de uma tal imprudencia só uma solução restava.—E qual? perguntava ella, arfando.—Abdicar.—Pois não haverá outro recurso?—Para reinar com honra, nenhum; para reinar .. um só.—Então qual?—Entregarmo-nos á discrição do Manuel Passos ... (Macedo, Traços, etc.)

A rainha queria reinar. E o tempo corria, sem que nada resultasse das habilidades com que Palmella buscava embaír o rei de Lisboa. E começava o fogo das avançadas nos seus postos (pois correra que Passos não voltava por estar preso) sendo necessario um bilhete d’elle para cessarem os tiros. Quem valeria em taes angustias, senão o fiel Sá da Bandeira, para impedir á rainha a vergonha de se render á discrição do seu émulo da capital? Era já noite quando Passos regressou á cidade; e, na manhan de 5 Sá-da-Bandeira partiu para Belem a cobrir a retirada da infeliz rainha.