José Estevão nascera em Aveiro em 26 de dezembro de 1809: contava agora 27 annos apenas. Aos dezenove alistara-se no batalhão academico, militando sob o commando do cachetico Refoios em Morouços e no Vouga. Emigrara para a Galliza, depois para Inglaterra, d’onde foi á Terceira e de lá veiu ao Porto, cabendo-lhe um lugar na defeza da Serra. (F. Oliveira, Esboço historico) Bravo, honrado, a sua mocidade contava já uma historia meritoria. Possuia todos os dotes de um temperamento peninsular, com os defeitos correspondentes: tinha a hombridade castelhana, o valor portuguez, a eloquencia de um andaluz, e uma face aberta, illuminada, sympathica, a que a voz e a fala davam um poder de seducção. Mas nem tinha saber, nem juizo, nem prudencia, nem a consistencia, portanto, sem a qual não ha homem verdadeiramente superior. Era o bello vehiculo de um instrumento composto de sentimentos valorosos e nobres, expresso em phrases que saíam e soavam como arias. Foi o primeiro, talvez o unico, dos tenores sinceros da liberdade portugueza.

No congresso declarava «pertencer á seita da mocidade e glorificar-se d’isto.» (Disc. de 25 de abril) E essa seita da mocidade, na qual tinha a seu lado Cabral, Vasconcellos, Santos-Cruz, sentava-se na extrema esquerda, e reclamava: «Juiz só, a julgar só; um rei só, com ministros responsaveis a executar só; uma camara só—eis a minha monarchia, eis o meu governo representativo». (José Estevão, Disc. de 5 de abril) Era simples, claro como agua: um solo de instituições abstractas, uma aria de abstracções liberaes. Como não lembrava ainda que a logica exigia uma purificação maior: o governo do povo pelo povo, o governo directo, ou antes nenhum governo, nem sombra de Estado, a anarchia absoluta? Nem a tradição, nem a economia das forças sociaes, nem o estado das classes, nem cousa alguma do que real e positivamente constitue uma nação, se tinha em vista n’essas opiniões avançadas que obedeciam á tyrannia terrivel das fórmulas abstractas. Triste, pois, desanimado, o demagogo lamentava-se: «Vejo que o throno póde demittir os legisladores populares, póde estorvar que a lei se faça; vejo que o throno tem o veto absoluto, o direito de dissolver, e o de nomear senadores ...» (Disc. de 5 de abril)

E todas essas concessões—porque assim, forçosamente, eram considerados os direitos soberanos pelos defensores da soberania popular—enchiam a opposição de colera contra o governo que se dizia ter renegado a Revolução. E os clubs, onde Cabral e José Estevão iam chorar as suas maguas: o do Burjaca, de Leonel Tavares; o do Arsenal, onde reinavam França que tinha coração (Hontem, Hoje e am.) e Soares-Caldeira, ambos athletas, ambos ignorantes e queridos do povo: os clubs commentavam o proceder do governo não poupando já o proprio Passos por ter dado a mão aos moderados (Sabrosa, Raivoso, Derramado, Taipa, etc.) em vez de a extender ao puro setembrismo, patuléa, descamisado.

O singular da revolução de setembro, e o que particularmente assignala o estado da nação, não é a cauda de radicaes que todas as revoluções criam. O singular é o desanimo dos chefes, a espontaneidade immediata com que se accusavam dos proprios actos. Veremos a que estado melancolico de scepticismo politico chegou Passos; mas Taipa logo na primeira sessão do congresso (18 de janeiro) se levantava para fazer o seu acto de contrição: «Aboliu-se a CARTA, mas todos sabemos que nem a CARTA é um codigo tão insufficiente para as nossas circumstancias que valesse a pena de uma revolução para o destruir, nem a constituição de 22 tão perfeita que valesse a pena de uma revolução para a restaurar». (V. Sá, Lettre au comte Goblet, etc.) E, entretanto, era contra a CARTA que desde 30, ou ainda antes, todos esses homens vinham clamando, como causa dos males nacionaes. Chega a revolução que a supprime, e todos a lamentam; seguem por não poder deixar de ser, mas «ninguem a desejava, ninguem a applaude» (Ibid.) Porque declamavam, pois? Porque lançavam á terra de um povo anarchisado a semente de uma revolução? Vêem-na germinar, e lamentam?

O porquê é simples. Não mediam nem sabiam o alcance do que diziam; e agora, a braços com as consequencias, deitavam á culpa dos homens o que provinha da natureza das cousas, por não terem a coragem ou a lucidez bastante para se confessarem desilludidos, mortos, como fez Passos. Os mais arrependidos mas não confessos, affectando uma segurança que não possuiam, só buscavam alijar sem muita deshonra um fardo que lhes pezava. Rasgar o programma ou o rotulo, sentiam que seria despedaçarem-se a si proprios, porque, para dentro das suas pessoas de politicos, não tinham, como o grande tribuno, uma alma feita de sinceridade estoica e virtude santa. Destruir a revolução sem a negar; cortar a cauda incommoda dos descamisados, defendendo-se contra os inimigos da direita para não perderem o posto; equilibrar, ponderar as cousas; fazer uma constituição tão parecida com a CARTA que para o paço fosse a mesma cousa, sem deixar de ser CONSTITUIÇÃO no nome—eis ahi o pensamento dominante nos homens que, mau grado seu, se viam mandatarios da revolução. (Sá, Lettre, etc.) Evidentemente, isto daria de si um pender gradual para o estado anterior a setembro, e assim foi: a Passos succede Sá, depois de Sá vem Pizarro, (ou Sabrosa, segundo o baronato que teve), depois de Sabrosa, Bomfim, depois Aguiar, Palmella, Terceira e por fim a restauração da CARTA (1842).


Agora, com a demissão de Passos, (1 de julho) andava-se a primeira legua. Que motivos expulsavam do governo o vencedor da rainha em Belem? O pretexto foi o voto que a maioria do congresso deu contra os sub-secretariados de Estado por elle propostos. O motivo foi, provavelmente, essa victoria de que todos se arrependiam tanto, que Sá-da-Bandeira, contando o drama em que foi actor, (Lettre au comte Goblet) a esconde tão cuidadosamente que se não percebe porque razão teria cedido a rainha, rasgando a nomeação dos seus ministros, restaurando o rei de Lisboa e todos os decretos da sua dictadura de dois mezes.[17] Além d’este motivo, porém, havia outro, muito doloroso: era a penuria extrema, eram os pontos, os saltos, nos vencimentos dos cidadãos de um communismo burocratico; era tambem a agiotagem escandalosa que, brotando espontanea sob todos os governos de todos os partidos, tirava ao setembrista o credito que tinha quando clamava contra os devoristas de 35, contra os argentarios engordados por Law-Carvalho.

Não tinham os setembristas um Law, nem podiam tel-o com os principios de honestidade estoica dos seus chefes. Campos chorara, chorava: mas em vez de pagar em ouro, pagava em explicações longas, massadoras, recheiadas da adhesão á causa popular. (Hontem, hoje e am.) Essa sinceridade, inimiga das finanças, desacreditára o unico financeiro do partido; e a principal pasta em um paiz devorado, teve de ficar nas mãos pouco habeis, mas limpissimas de Sá, de Passos Manuel, cujo estoicismo desprezava o dinheiro, cujo verbo ou cuja espada desdenhavam dos algarismos e das contas.

Entretanto, o que peior lhes fizera fôra a sua rectidão: deixaram de pagar quando não tinham com quê; exigiram dos contribuintes a decima que os antecessores, para não afugentar partidarios, prescindiam de cobrar. Ella dava agora mais do dobro: e comparando os numeros, Passos na sessão de 37, tinha motivos para se gabar. O deficit que encontrára (36-7) calculado era de (18:600-11:800) 6:800 contos, devendo-se ao banco 4:834 e a outros 800; havendo ainda 3:516 contos de papel-moeda em junho (36) e 4:087 de titulos admissiveis na compra de bens nacionaes. (Lei de 15 de abril de 35) O governo amortisára 500 contos de papel-moeda e 2:876 de titulos; e o orçamento para 37-8 não apresentava um deficit superior a (11:217-9:294) 1:923 contos. E com isto não se tomára emprestimo nenhum de fóra, e os encargos da divida total, se tinham subido de 2:334 a 2:500 contos, era porque se reconhecera o direito esquecido dos possuidores de Padrões, convertendo-os em titulos de 4 por cento, por 2:960 contos com o juro de 118. (V. Relatorio de 24 de abril de 1837)

«Quando entrei, dizia Passos, achei nos cofres da capital seis contos, e não havia com que pagar os dividendos em Londres. (Disc. de 21 de jan. de 37) E defendendo-se a si e aos actos da sua dictadura, sentindo que o tempo corria e o fim se approximava, definia todo o seu pensamento: «A rainha não tem prerogativas, tem attribuições: é o primeiro magistrado da nação. Eu fui o primeiro ministro que executou o programma do Hotel de Ville de Paris: cerquei o throno de instituições republicanas ... Não houve só liberdade de imprensa, houve licença, houve desafôro». (Ibid.)