Liberdade e licença! liberdade e desaforo! Mas que linha as divide, ou qual é o criterio que as distingue? Ah! eis ahi onde a doutrina naufraga, assim que a põem a navegar no barco de uma constituição. Uns pilotos caçam logo as velas e bolinam; outros mettem de capa; outros dão a pôpa ao vento e correm desarvorados acclamando o temporal da anarchia que os leva ... onde? Contra uma pedra a despedaçarem-se.
Passos não era homem para nada d’isto: nem bolinava, como outros; nem se mettia de capa, esperando e resistindo ao vendaval; nem lhe obedecia. No meio das nuvens cerradas, com o vento a assobiar, elle teimava em vêr uma nesga de céu azul, prenuncio de bonança e fortuna. A linha que dividia a liberdade da licença, esse criterio supposto seguro, tinha-o elle na sua humanidade, na sua virtude. Não era mister theoria, bastavam sentimento a caracter ... Mas se todos fossemos Passos, para quê, leis, governos e forças organisadas?
Elle, no seu optimismo, teimava em pensar que eramos, ou seriamos, ou deviamos ser optimos, o que é bem diverso. Uma nação affigurava-se-lhe uma familia de irmãos, e a lei um osculo de Paz. Annos passados, depois de toda a sua historia acabada, e da revolução extincta, ainda glorioso, lembrava como o amor o a humanidade tinham vencido tudo:
Tinhamos a luctar contra o partido cartista ... D. Miguel preparava uma insurreição em Portugal e nas ilhas. O Remechido estava levantado no Algarve. A causa da rainha Christina soffrera innumeros revezes; o general carlista Sanz marchava sobre a nossa fronteira do norte e o general Gomez com uma força connsideravel chegou a tocar o territorio de Portugal ... O governo armou a guarda nacional e ficou esperando ... A revolta de Belem foi aniquilada e os vencidos foram recebidos nos nossos braços. A revolta miguelista não appareceu.—Escrevi aos administradores geraes para que fizessem saber aos realistas que nenhum d’elles seria inquietado nem perseguido, mas que todo o atacante seria punido. (Disc. de 18 de out. de 1844)
E não se arrependia do que fizera. A paz, o perdão, o amor, eram as ancoras das nações: em verdade os homens não o criam, mas nem por isso elle chegava a perder a sua esperança, embora deixasse um governo em que se achava deslocado. Saíu em julho, como dissemos; mas não abandonou os seus antigos companheiros, senão quando elles mais tarde, perante o cartismo sublevado, abandonaram a doutrina do perdão pela do castigo, atulhando de presos as persigangas. (Ibid.) Foi então que descreu dos homens, e se voltou para dentro de si, como um eremita—por estar longe, muito longe, a salvação da terra, pela paz e pelo amor!
Quando os inimigos viram expulso ou retirado do governo esse homem temido, e que em seu lugar ficava apenas, além de politicos, o bom e fiel Sá-da-Bandeira, as esperanças nasceram. A revolução estava suffocada. Havia porém insoffridos que se não conformavam com a demora dos caminhos ordinarios; e ninguem mais se exasperava do que Van der Weyer, talvez com a vista no penhor do territorio africano. Não houve meio de o conter; disse então aos marechaes que a hora tinha soado—«Hombro, armas!»
4.—AS REVOLTAS DOS MARECHAES E DO POVO
Van der Weyer mandou-os marchar, e elles foram. O belga esperava poder armar em Lisboa um pronunciamento cartista, pôr o reino inteiro n’uma desordem maior do que havia já, para d’ahi saír com um bocado de Africa entre os dentes. Portugal decerto resistiria á restauração da CARTA, mas viriam os extrangeiros impol-a. Entretanto Palmerston, ou avisado pela triste figura que as suas fardas vermelhas tinham feito na Junqueira, ou desconfiando do zelo belga, resistia, como resistiu depois, em 47, ás solicitações da Hespanha. Cedeu mais tarde perante a força das cousas, mas agora o mau exito da aventura veiu auxiliar os seus desejos. (Goblet, Etab. des Cobourg.)
Com effeito, nem Van der Weyer pôde conseguir que Lisboa se pronunciasse, nem os marechaes que o exercito obedecesse, conforme convinha. A correria foi rapida e o resultado grutesco, para tão nobres personagens. O barão de Leiria principiou, acclamando a CARTA (12 de julho) na Barca. Declarou-se logo o estado-de-sitio, dividindo-se o reino em duas lugar-tenencias militares: Sá-da-Bandeira, com José Passos por secretario, no norte; Bomfim, com Costa-Cabral, no Alemtejo. Saldanha partiu de Cintra a 26, Tejo acima até Abrantes e Castello-branco, chamando á revolta os regimentos com que veiu descendo pela serra até Coimbra. Eram 10 de agosto quando ahi entrou. Em 15 estava em Leiria, em 22 em Torres-Vedras, onde se lhe reuniu Terceira, saído de Lisboa a 17 ou 18. A 23, os dois marechaes e a sua tropa chegavam ao Campo-grande, ás portas da capital, esperando o promettido pronunciamento que não apparecia. (Sá, Lettre, etc).
Quatro dias esperaram em vão. Que faziam entretanto as tropas do governo? Bomfim recolhera a Lisboa, porque as guarnições do Alemtejo tinham fugido para Saldanha. Nas visinhanças da capital devia dar-se a batalha inevitavel, mas os marechaes, vendo a mudez da cidade, retiraram (27) para Rio-Maior; e o exercito do governo achou-se em frente d’elles, a 28, no lugar do Chão-da-Feira.