Começou a acção, e quando chegava o instante decisivo viu-se um caso singular. Corriam a galope esquadrões de cavallaria, com a lança em riste ou a espada erguida, ameaçando fazerem-se pedaços; e n’um momento, em frente uns dos outros, os soldados paravam, olhando-se, levantavam as lanças, baixavam as espadas, dando vivas, de um lado, á CARTA, do outro á CONSTITUIÇÃO. Não se bandeavam, mas tinham resolvido não combater. (Sá, Lettre, etc.) Ás vezes, nas touradas em Hespanha, quando a féra mostra mais juizo do que os toureiros, o povo das bancadas acclama o toiro: é o que nós agora fazemos aos soldados! Com um juizo superior, deram uma lição aos generaes, aos diplomatas, á rainha, á côrte, e a todos.

Começou então uma scena egual ás muitas que se conhecem dos tempos medievaes, quando os bandos dos senhores e das communas se encontravam nas suas contendas. Os generaes avançaram para o meio das columnas armadas, e para o quadro acabar como cumpria, devia seguir-se um bufurdio, um juizo-de-Deus.[18] Mas os tempos eram outros, mais pacificos. E os generaes, á maneira dos soldados, não queriam morrer por ello. Combinaram um armisticio, retirando os sublevados para Alcobaça e os do governo para Leiria, a vêr se podiam entender-se. Vieram á fala em 30, em Aljubarrota; e ao outro dia, por não conseguirem nada, recomeçaram as hostilidades. (Sá, Lettre, etc.) Que houve então? Muito sangue? batalhas mal-feridas? Oh, não! Os marechaes vão-se embora para a Beira-baixa, Bomfim deixa-se ficar em Santarem, e Sá regressa a Lisboa. (Ibid.) Se os soldados, com todo o juizo, não queriam bater-se!

Andava por esse tempo em Hespanha, auxiliando a rainha contra os carlistas, uma divisão portugueza, sob o commando do conde das Antas. Mandou-se voltar; mas quando ella entrou por Traz-os-Montes em direcção do Porto, já os marechaes tinham chegado a Moncorvo, e furtaram-lhe uma brigada de infantaria. Reduzido, chegou pois Antas ao Porto, onde encontrou já Sá-da-Bandeira, vindo de Lisboa (setembro, 13) com um unico batalhão de caçadores. Os marechaes tinham Traz-os-Montes; Leiria, desde que se pronunciara na Barca, possuia o Minho. Por aqui se devia começar a batida, para não deixar a rectaguarda ao inimigo. Antas, com effeito, occupou Famalicão a 15 e Braga a 16. Leiria recuava pelo Cavado, a reunir-se aos marechaes em Traz-os-Montes: fortificou-se em Ruivães; mas o inimigo desalojou-o d’ahi, depois de um breve combate (18) obrigando-o a seguir até Chaves. Antas vinha quente das guerras de Hespanha: as suas tropas, costumadas, não se recusavam a marchar. Proseguiu, e os marechaes, vendo-se perdidos, propozeram a capitulação na noite de 19-20. Antes uma composição má, do que uma boa demanda, pensavam; e do lado opposto não havia tambem vontade de levar as cousas ás do cabo. Fôra uma experiencia, a vêr: não vingou? Pois bem: nem se fale mais n’isso! Bem no fundo, eram todos amigos: tinham combatido juntos contra D. Miguel, e isto agora não passava de arrufos. As tropas haviam de submetter-se ao governo, é claro; os marechaes não podiam deixar de emigrar, é evidente; que figura viriam fazer para Lisboa? que diriam a Van der Weyer?—Mas os pobres officiaes que não tinham culpa, não podiam ficar sem pão: conservavam-se-lhes as patentes, com o soldo de reformados. (Sá, Lettre, etc.)

Assim acabou em nada a revolta dos Marechaes, que saíram d’alli para Hespanha, indo acolher-se a Paris, á espera de tempos melhores. Acabou esta revolta, mas o exemplo de generaes transformados em condottieri estava dado e fructificaria: este ensaio era uma iniciação. De lado a lado se começava a sentir a necessidade dos golpes-de-mão e das resistencias violentas. Declarara-se a guerra, e os liberaes appellavam para a força. Durante o conflicto referido, o governador civil de Aveiro avisava Passos (16 de agosto) de que chamara tudo ás armas, «o que não vier voluntariamente, ha de vir constrangido». Se o Joäo Carlos (Saldanha) entrasse no districto e algumas pessoas d’elle o acompanhassem, o governador estava resolvido-a, «não os podendo apanhar e passar pelas armas, arrazar-lhes as casas». Eram as unicas medidas adequadas ás circumstancias. Começara por querer levar tudo por meios brandos e de suasão, mas vendo o nenhum resultado, virara-se para o lado opposto. (Corr. autogr. dos Passos) Assim tambem D. Pedro fôra forçado a libertar-nos!

Por seu lado o belga, frustrado duas vezes o plano de nos fazer felizes, já em Belem, já agora em Traz-os-Montes, perdendo a esperança do pedaço de Africa, abandonou-nos á nossa sorte. Van der Weyer foi substituido. (Goblet, Etabliss. des Cobourg) Mudou de politica a Belgica, mas o inglez que ella servia ainda de Lisboa aconselhava Saldanha, já emigrado em Londres: «Porque não levanta um corpo de tropas em Hespanha para salvar a rainha? Talvez isso lhe proporcionasse o meio de voltar aqui, ao sue paiz, com éclat». (Carta de Howard a Sald. 4 de out. de 37; em Carnota, Mem.) Não pôde ou não quiz Saldanha seguir o conselho, e a Inglaterra mudou tambem de plano. Em vez de promover as revoltas no reino, declarou uma guerra diplomatica ao governo.

Mas as licções dadas aos jovens monarchas prepararam-lhes, educaram-lhes o espirito. Iniciada a rainha, senhora varonil e nobre, nas cabalas da resistencia; ensinada desprezar as fórmulas constitucionaes e a pôr em pratica as conspirações, a fomentar os pronunciamentos, a servir-se dos generaes como bravi de um tyranno á italiana, e a contar com a força estrangeira para dominar uma nação de que tudo a separavara: iniciada a rainha, dizemos, estes primeiros episodios do governo são o prologo de aventuras maiores, mais serias.


Emquanto a sedição lavrava no campo, ia o congresso debatendo-se contra os vivos ataques de uma esquerda acirrada pelo medo da reacção, esporeada pelos clubs que zumbiam em Lisboa armados. Havia declamações, invectivas chimericas, apostrophes eloquentes, theorias radicaes, formulas, phrases: peior do que em 1820! O ministerio, desconjuntado, podia pouco ou nada contra a onda da demagogia: Campos não se calava; e Julio-Gomes, que pedia ordem, via-se renegado pelos ultras, Bernardo da Rocha e Barreto-Feio. Mais o peior, o mais doloroso de tudo isso, era a penuria universal em que se vivia. Depois da saída de Passos entrara na fazenda um homem novo, rico, sem politica, banqueiro, inglezado: Tojal, de quem se esperava muito. Os portuguezes não provavam ser habeis para a finança: mas agora este inglez apparecia como successor de José da Silva Carvalho, unico entre os antigos. Com a saída de Passos o gabinete ia todos os dias pronunciando-se mais moderado, mais rasoavel; e ao mesmo tempo, apezar da irritação das esquerdas no parlamento e nos clubs, a constituição progredia por fórma que viria a ser a propria CARTA. Em outubro (14) ganhou-se uma batalha grave: duas camaras. Era um senado electivo por seis annos. E á força de trabalhos, depois de serias campanhas, conseguiu-se por fim votar, jurar (4 de abril do 1838) uma constituição muito soffrivel. Sá-da-Bandeira, acreditava ingenua e seriamente ter concluido a éra das revoluções: via chegada a paz desejada e considerava-se crédor das melhores graças do seu paiz. (V. Lettre au comte Goblet.)

O pelatão clamaroso dos demagogos não o assustava muito: eram o povo, o bom povo seu dilecto, a quem elle queria como os avós aos netos, achando-lhes graça em tudo, mas não chegando a comprehendel-os quando um dia começam a falar como homens. Do povo não tinha medo; para conquistar o paço fôra admittindo no governo homens quasi cartistas, muito moderados, como Bomfim. Mas não ficava, elle, sempre? Não era elle a garantia? O povo não o julgava assim, na primavera de 38. A ingenuidade de Sá-da-Bandeira creara dios governos n’um só gabinete: Bomfim e os moderados, contra Campos e os da montanha que se entendiam com os clubistas. Eis ahi a paz que havia.

Os Camillos tinham-se fechado; Costa-Cabral mudára muito: já não perorava, e adherira á moderação. A Associação civica passara para o Arsenal, club do batalhão de operarios navaes de que era chefe o capitão-tenente França. A marinha estava á frente da demagogia, que tinha um imperio nos estaleiros. O capitão-de-fragata Limpo, inspector do Arsenal, era clubista; e a segurança de Lisboa estava nas mãos do vermelho Soares-Caldeira, deputado, administrador-geral (nome dos governadores-civis d’então), e por isso director da guarda-nacional da capital. Sá-da-Bandeira, repetimos, não receiava nada d’isso: confiava de mais em si e na pureza das suas intenções. Era optimista por bondade. Tinha os seus espias entre os demagogos; e um era o judeu Pacifico de quem recebia as partes em arabe, porque o general sempre amara o saber. Conhecia o que elles queriam, mas não acreditava que se demandassem: bulhas dos rapazes! Ralhou paternalmente; e Limpo, enxofrado, demittiu-se. (Sá, Lettre, etc.)