A guarda-nacional reunia mensalmente, por ordem do director: a 4 de março Caldeira chamou-a e representou com ella á rainha, pedindo a queda dos ministros moderados, isto é, Bomfim. Foi então que Sá-da-Bandeira se offendeu contra a audacia dos rapazes. Deitavam as mãos de fóra: déra-lhes armas para se distrahirem, e voltavam-se contra elle! Que lhe doesse, não via remedio senão castigal-os. Por isso demittiu Caldeira (7) e poz em lugar d’elle Costa-Cabral, que dava esperanças de submissão, e promettia reprimir a anarchia. Atacados assim, rudemente, os radicaes responderam na manhan do dia 9, apparecendo em armas o batalhão do Arsenal e parte da guarda-nacional, exigindo um ministerio puro. Era no Pelourinho, a cuja esquina havia ainda o antigo botequim, politicamente celebre, do Marcos-Philippe. A tropa cercava os sublevados, e no rio estava de canhões corridos um navio prompto a metralhar o Arsenal, baluarte da sedição. Mas Sá-da-Bandeira não queria que se derramasse sangue, nem podia desejar que se esmagasse o povo: não iria logo o poder caír nas mãos dos cartistas que o esperavam?
N’esta situação dubia e triste, não quiz vencer: pactuou a convenção de Marcos-Philippe, promettendo impunidade e conseguindo a dispersão das forças. Não podia comtudo deixar de demittir o França, nem de dissolver o seu batalhão: isso fez, (Decr. de 9 de março) com grave escandalo dos condemnados que lhe chamavam traidor. A opposição rugia nas camaras e o ministerio caíu no mesmo dia: moderados (Julio-Gomes, Bomfim) e radicaes (Campos) tiveram egual sorte. Ficou apenas Sá-da-Bandeira, com o homem da Fazenda, o Tojal que não tinha côr politica?
Não é assim: pois detraz do governo e mais governo do que elle, estava o administrador de Lisboa, Costa-Cabral, cujo verdadeiro destino começava a desenhar-se. Convinha á sua ambição a posição falsa do ministro, e ao seu genio tenaz, sem apparato, o trabalhar debaixo do nome de outro, preparando o futuro em favor proprio. N’este momento já elle, evidentemente, sabia o caminho que tinha a seguir. Não havia um homem: sel-o-hia! Não havia uma doutrina, na desordem de opiniões que se chocavam: elle restauraria a antiga doutrina da CARTA. Os marechaes, por isso mesmo que estavam exilados e compromettidos, seriam instrumentos doceis. E a rainha, porque era varonil e cheia de talento, comprehenderia a rasão de ser de taes vistas, a sabedoria do plano e a capacidade do homem.
Fôra demagogo? Tambem Saldanha. Isso nada importava á politica: nem provavelmente o affligia a elle. Ou tivera de facto essas opiniões e mudara, cousa que o devia fortalecer na opinião de agora; ou desde o começo representara um papel, caminhando por vias tortuosas direito a um fim, e isso dar-lhe-hia um grande orgulho, quando via confirmadas as suas previsões. Arrependimento ou apotheose, a sua mudança não diminuia a força propria do seu genio. Para os simples havia de passar por traidor e falso: que importa? sempre os politicos o foram; e para governar basta uma cousa, sem a qual toda a virtude é fumo: a força victoriosa. O politico ha de ser temido e não amado: ai, dos que esperam e crêem nos bons instinctos dos homens, como o fraco e virtuoso Sá-da-Bandeira, reduzido á condicção de pára-choques entre o povo e a côrte, reduzido a nada, renegado por todos!
A demagogia não se calara e reclamava uma desforra do dia 9. O ministro nada podia, porque em vez de a vencer, obedecera-lhe, para depois a acirrar com os decretos da tarde. Clamava-se pela revogação d’elles; e o paço andam pallido de susto. Diz-se que d’então data o primeiro accordo entre a rainha e Costa-Cabral. Diz-se que elle foi, e prometteu resolver a crise; expoz o seu plano, e de tal modo, manifestando a sua força, logo seduziu a rainha. Afinal encontrava-se um homem! Com a tropa desarmaria o povo, e sem espingardas a democracia, restaurar-se-hia a ordem. Era simples, era pratico e seguro. Permittil-o-hia porém Sá-da-Bandeira? Até certo ponto permittiria; depois não. Mas para esse tempo estaria já desacreditado de todo, e deitava-se fóra. Talvez a rainha nem o planeasse, nem pensasse tão cruamente. Costa-Cabral não podia pensar de outro modo.
Sá-da-Bandeira tinha mau genio, era teimoso e rabugento na sua bondade. A teima e as ameaças com que lhe exigiam a revogação dos decretos de 9 irritavam-no, dispondo-o bem para o papel que aos novos planos convinha que elle representasse, e com effeito representou no dia 13. De madrugada a guarda-nacional appareceu a postos com os seus commandantes que exigiam a reintegração de França. Tocava a rebate em todos os sinos, rufava o tambor por toda a cidade. A tropa formava no largo da Estrella para defender as Côrtes, e no das Necessidades para defeza do paço. Cabral mandava, Sá obedecia, e Bomfim, Reguengo, preparavam-se para dar uma lição. Haveria mortes? Provavelmente. Marcharam as tropas, e a sua primeira acção foi desalojar os rebeldes do convento de Jesus, tomado de assalto: correu ahi sangue, mas pouco. Dos outros pontos a guarda-nacional debandou: não para fugir, mas para ir reunir-se, com artilheria, no largo da Graça. A Estrella e a Graça estão nos dois confins oeste e leste da cidade, que ardia toda em desordem e gritos. E gritando orava no Congresso a esquerda, confiando no exito da revolta que trabalhava por sua conta lá fóra.
Costa-Cabral levou Sá-da-Bandeira á Graça, e depois de muito falar conseguiu que os revoltosos descessem. Era um ardil de guerra. Quando chegaram ao Rocio, viram-se cercados por Bomfim que de todos os lados, nas ruas das encostas, fechava essa baixa, de molde feita para curral de gado tresmalhado. Houve ahi tiroteio e cousa de uma duzia de mortos. Caía então a noite: estava acabada a funcção. Os sediciosos debandavam e Costa-Cabral celebrava uma victoria incontestavel. Cumprira o que promettera, mostrando ser homem para muito mais. Sá-da-Bandeira agradecia-lhe, punha-se ás suas ordens, considerava-o o seu braço direito. Se essa gente vencesse? que seria de tudo? Com effeito, não podiam dar-se armas ao povo que tão mal usava d’ellas. Em urgente dissolver os batalhões: não direi todos, mas os peiores, os mais vermelhos ... Cabral começou pois a trabalhar, a dissolver batalhões; e era em Lisboa, na administração, um Pina Manique: mais! o principio de um Pombal. O genio organisador, administrador apparecia, depois da arte e da bravura com que esmagara a revolta. Fazia regulamentos, organisava cadastros, arruava as mulheres de má vida. Evidentemente subia, e não se descortinava quem lhe fizesse sombra. A rainha dera-lhe a commenda da Conceição—oh, tempos antigos! (V. Costa Cabral apont. hist. anon.)
Quatro dias depois do 13, o moderado Bomfim voltava para o governo; e Sá-da-Bandeira, sempre crente, cheio de esperança, considerava terminado o episodio dos tumultos, sellada a paz—com sangue, é verdade!—e conquistado para a sua obra um homem novo, precioso. No principio de abril, em sessão solemne (4), a rainha e o rei foram jurar a constituição nova, bem rasoavel. Todos approvavam, todos estavam satisfeitos, todos gabavam Sá-da-Bandeira, ou antes, acreditava elle isso. Howard e a Inglaterra, Goblet e a Belgica, appoiavam decididamente. Tinham terminado ambas as revoltas, a do povo, e a dos marechaes que de Paris se submettiam, jurando o novo codigo. Era uma regeneração, de lealdade e de virtude; ainda que o vencedor não deixava de ter uma vaidade ingenua pelo modo como conseguira desviar a revolução do perigoso caminho onde a levava o seu bom amigo Passos. Illusões desculpaveis de um espirito todo poesia! Elle, via-se pratico, sabio. Ia coroar-se a rainha Victoria em Londres; e Palmella, afinal riquissimo com a fortuna da herdeira da Povoa sua nora; Palmella que desde 36 amuara, fazia as pazes, indo ostentar o seu luxo na terra onde passara dias tão crueis. (Sá, Lettre, etc.)
Mas que singular tumulto é esse, no meio de uma paz tão firme? que desordem se levanta no dia do Corpo-de-Deus? Era já tarde (14 de junho), a procissão recolhia á Sé. Que surpreza, para os ouvidos de quem se julgava acclamado, os insultos despedidos contra o rei, contra a rainha, e contra elle proprio, o crédor da paz universal?—Maledicos disseram que essa paz fazia mal á ambição do homem-novo: só nas bulhas podia mostrar bem quem era e quem seria. Se elle, com effeito, arranjou essa desordem para seu uso proprio, o resultado ia-lhe sendo ficar sem vida.