A triste procissão entrou na Sé destroçada. Luziam as bayonetas agitando-se, e as vozes do povo armado pediam sangue e cabeças. Cada qual fugira para seu lado, escondendo-se pelos escadas. Era grutesco vêr as fardas bordadas com espadins e commendas, os chapeus de plumas e mantos de filó; era grutesco vêr os personagens correr, sumirem-se, atarantados com o susto. O Law portuguez reformado e o Pombal nascente, um passado e um futuro, encontraram-se socios no perigo, escondidos n’uma escada, cuja porta defendia, irritado mas firme, o ministro surprehendido. Uma bayoneta luziu com a ponta direita ao peito de Sá-da-Bandeira, vindo cravar-se-lhe no crachá, a que deveu a vida: como as condecorações ás vezes servem! O marca, falhado o golpe, via-se perdido; mas Sá-da-Bandeira mandou que deixassem «passar esse homem». O homem fugiu, a soldadesca popular foi correndo, clamando atraz da sege, onde, batendo, um bolieiro salvava Costa-Cabral e Silva-Carvalho. Em Santa-Justa, Cabral extendeu o braço, disparou a pistola contra a turba que o seguia, como lobos. E a sege batia, fugia, até entrar no Castello, onde se refugiaram. A carruagem de Costa-Cabral, vasia, foi corrida á pedrada. (Apontamentos historicos, anon.)

Que surpreza singular! O ministro não caia em si. De certo, não havia remedio: força era supprimir mais batalhões, inclinar ainda mais á direita, dar todo o apoio ao homem novo, o unico homem capaz de pôr cobro ás demasias de um povo que teimava em não ser cordato: uma pena! Costa-Cabral, commendador em março, subia a conselheiro, e no fim do anno passava, da administração, para a camara. Voltava ahi com uma pelle nova, homem inteiramente diverso do antigo deputado da montanha. Descendo a bancos mais baixos—subia, subia sempre.


Faltava agora, ao infeliz Sá-da-Bandeira, depois da ingratidão do povo, a das potencias! Que a sessão parlamentar de 39 havia de ser borrascosa, já o esperava: haviam de o accusar, e accusavam-n’o, por pender para a direita, por atacar na guarda-nacional o palladio da liberdade, etc. Estava preparado para isso, sabia o que devia responder, e tinha na camara o seu Costa-Cabral. Mas o comportamento da Inglaterra? Pois era o mesmo Howard, o proprio que o anno passado lhe dava parabens, felicitando-o, approvando tudo? Agora se desilludia: a Inglaterra que intrigára sempre contra Setembro; a Inglaterra da Belemzada via chegado o momento de apunhalar n’elle o povo. Eram exigencias sobre as questões do cruzeiro,[19] quando ninguem tinha mais a peito abolir a escravatura. Havia um proposito ... Pedia-se a bolsa ou a vida, exigindo-se meio milhão esterlino de contas de soldos atrazados, ou em compensação a India. (Sá, Lettre au comte Goblet, etc.) Havia um pensamento: obrigal-o a saír, expulsal-o do governo. Porquê? Teriam já adiantado os planos entre o homem-novo e a corôa para restaurar a CARTA? e seria uma fórma diversa, mais cavillosa, de Belemzada? Quem sabe? Começaria Sá-da-Bandeira a desconfiar do papel que representava? Voltar-se para o povo, já o não podia: talvez tivesse tido mais juizo o Passos, retirando-se ...

Que havia um proposito, era fóra de duvida. Não se exigem impossiveis. E podia elle dar a India? E podia elle dar o meio milhão, quando o Thesouro, como sempre, estava phtisico? De certo não. As finanças, essas malditas finanças, iam de mal a peior. Tojal, por fim, não dera nada. Á falta de homens fôra mistér restaurar (17 de abril de 38) o antigo barão de Chancelleiros, que deixára os negocios desde 28. Nem um, nem outro: ninguem era capaz de pôr ordem n’esse cháos, que era o descredito da revolução. Agora vinha a Inglaterra pedir meio milhão! Era bom de pedir; mas como não havia que dar, Sá-da-Bandeira percebeu que a exigencia encobria outra vontade—a de o expulsar do governo. Abdicou, pois (18 de abril de 39).

O tempo que separava Costa Cabral do poder corria. Os successivos momentos do seu plano realisavam-se. Não se podia ainda precipitar a acção, nem isso convinha. O resto que havia de força na gente setembrista consumil-o-hia um governo ephemero, mais moderado, o governo do sagaz Pizarro, malicioso e astuto, improvisador facil sem eloquencia, habilidoso sem talento, aristocrata por indole, setembrista por ter sido inimigo de D. Pedro: do inconsciente Pizarro, feito barão da Ribeira de Sabrosa. (Hontem, hoje e amanhan, op. anon.)


A exigencia do meio milhão vinha a ponto, opportuna, porque nada desacreditára tanto o setembrismo como a sua gerencia financeira. Á ruina conhecida do paiz juntava-se a incapacidade de homens sem talento para gerir, nem artes, nem caracter para mascarar. Via-se ás claras, aggravado, o sudario que um Silva Carvalho enrolava habilmente no bolso. Elle com a sua arte chamava, os setembristas com a sua franqueza afugentavam o judeu de Londres, que era a melhor fonte, o ultimo recurso do Thesouro de uma nação queimada. Em vão o setembrismo creava a protecção, em pautas quasi prohibitivas para muitos generos: a industria não surgia; encareciam apenas as cousas, e engrossava o numero d’esses operarios fabrís que em Lisboa eram as marcas da guarda-nacional com que se faziam tumultos.

Para animar e favorecer a nossa agricultura, industria e artes, devem marcar-se direitos protectores a todos os generos e mercadorias que produzimos e fabricamos, em ponto tal que possa dispensar-nos já ou vir a dispensar-nos da producção ou manufactura estrangeira. (Rel. de José Passos; ref. de pautas; sess. de 39)

«Já temos alguma fiação, observava com esperança o relator, e se a legislação não mudar, teremos mais.» Talvez a Inglaterra não applaudisse o novo pombalismo da revolução. Se o temia, fazia mal, porque elle só creava elementos de desordem muito mais dispendiosa do que o augmento de receita das alfandegas. A pobreza não cessára de crescer. Pela legislação de 34 todo o papel-moeda devia acabar em 38, traduzindo-se em metal as obrigações contractuaes anteriores. Mas como pagar tres mil contos ou mais, ainda em circulação? Força foi, portanto, deixar á sua extincção natural, indefinida, o que restava, prejudicando muito graves interesses; pois que as especies contractuaes anteriores se prorogavam indefinidamente tambem, nem podia ser de outra fórma. (D. de 31 de dezembro de 37) Era mais uma banca-rota, a sommar aos successivos pontos, saltos, conversões de vencimentos, etc. em titulos de uma divida de que não havia com que pagar o juro. Uma nação de empregados tinha caimbras de fome. Todos os estomagos davam horas.