O tribuno presentira o passamento, e retirou-se para não assistir ás exequias. Era uma grande agonia, uma afflicção dolorosa que o tomavam? Não; eram as nauseas do desengano.

Este fastio, esta indifferença, vieram-me no dia em que o meu proprio partido commetteu um grande erro, e, direi francamente, um grande crime; foi no dia da presiganga ... Desde então considerei a revolução como perdida, porque estava deshonrada ... e assisti melancholico ao seu passamento e ás suas exequias. Retirei-me da vida publica e fui buscar o descanço e as consolações da vida privada. (Ibid.)

Mas o erro de uns homens não póde ser a condemnação de um principio. Como Cincinato, Passos tomava o arado, á espera que a doutrina o chamasse outra vez ao campo? Não nos illudamos, conforme elle parece querer illudir-se. É muito doloroso e difficil de confessar que a nossa opinião foi um sonho, uma chimera, ou um erro; mas quando se tem a sinceridade propria das grandes almas, essa confissão vem do pensamento aos labios e faz-se. Era o que succedia n’essa hora ao tribuno. Em vão encobrira as ruinas das suas idéas com o fastio pelos homens a que tinham sido confiadas. A sua descrença, a sua indifferença abraçava homens e idéas, restando apenas a energia dos sentimentos do poeta e do moralista. Eram estes que condemnavam como inuteis e vans as doutrinas e systemas.

O melhor governo será sempre aquelle que applacar e não inflammar os odios civis; o que souber inspirar amor e não inimisade; o que fôr mais humano e não o que fôr mais cruel ... A generosidade é o predicado da força, o laurel da victoria. Só a cobardia é vingativa: o medo não póde ser magnanimo ... Nada póde ennobrecer tanto os homens publicos e os partidos politicos, como a firmeza na adversidade e a moderação no triumpho. (Ibid.)

E a coragem, a audacia, a fé, para propagar e impôr uma doutrina? Pois já o politico não é um philosopho e um apostolo? Não, não é. As illusões perderam-se, veiu o outomno e as folhas caíram: eram sonhos as doutrinas, chimeras as esperanças. O veneno do scepticismo invadiu a alma do antigo apostolo; e elle que fôra por mais de dez annos o S. Paulo da democracia, despia agora o ardor de outr’ora e ficava um Christo de amor, de paz, de meiguice ternamente compassiva, levemente ironica. Os homens não mereciam mais. Portugal não lhe inspirava outro sentimento. Essa Liberdade que nas phrases occas dos vaidosos fôra uma conquista, era de facto um dom do acaso: não a tinham ganho, dera-lh’a um destino.

Quem inspirou a Portugal o amor da liberdade? Foi Manuel Fernandes Thomaz, o patriarcha? Foi o venerando Manuel Borges Carneiro? Foram esses oradores das nossas primeiras camaras? Não! não! foram os sanguinarios ministros de D. Miguel que, abusando da inexperiencia do principe, em seu nome exerceram sobre o paiz a mais insupportavel tyrannia.

Se D. Miguel em 1828 não procedesse com a precipitação de Minucio, se por mais tempo tivesse conservado o escudo da carta constitucional, e se como regente em nome de D. Pedro tivesse desligado uns apoz outros os commandantes dos corpos, a revolução de 16 de maio de 1828 seria impossivel; o throno de D. Pedro, a liberdade do paiz teriam caído então como caíram em 1823, sem que se disparasse um tiro em sua defensa, sem que uma gota de sangue se derramasse pela liberdade do povo.

Estas palavras resumem e confirmam a historia que nós contámos; mas na bocca de um dos chefes vencedores, não serão um triste commentario da propria obra? uma annotação grave ás palavras de outro tempo? Caíram os homens, caíram os systemas: pois agora tambem se apaga no espirito do tribuno a victoria da Liberdade! O ar é muito mais transparente, a vista muito mais penetrante pela tarde, ao descair do sol: em pleno dia o clarão offusca. Na tarde da sua vida, Passos era mais perspicaz. A victoria? um acaso. As doutrinas? vaidades. Os homens? bambochas.—Como deve ser melancolico o approximar do tumulo, envolvido no renegar de uma existencia inteira!

Felizes, porém, os poetas que, acaso por verem mais longe, vêem pouco e mal o que está perto! Assim Passos, no meio das ruinas, appellando para o amor, para a paz, appellava tambem para a ordem e para a legalidade.

Acredito nos meios legaes ainda que debeis, no triumpho da liberdade ainda que tardio: não ambiciono a gloria militar, nem corôas de louro ... Na politica não ha atalhos: a estrada real é a legalidade.