Taes são as tres fórmas de liberalismo, as tres diversas traducções da palavra idolatrada, que o critico descobre na sociedade portugueza de 34-38.


No fim d’este periodo, a desordem, o descredito e o cansaço já congregavam os homens em novos agrupamentos, ao mesmo tempo que, do absolutismo das doutrinas de Mousinho e do caracter em demasia historico das doutrinas de Palmella, saía uma combinação media, cujo interprete politico era Rodrigo da Fonseca, e cujo melhor defensor foi Herculano. Era um segundo romantismo, individualista sem engeitar a tradição, e até popular sem deixar de ser brandamente aristocrata. Era a constituição de 38, com um senado electivo e temporario.

Eis ahi o verbo novo, a palavra de paz, o evangelho da liberdade redemptora. O propheta sonhava com ella desde 34, sem ainda a ter definido bem claramente; mas entrevendo-a nas affirmações doutrinarias de Mousinho e nas sympathias de Palmella pelas velhas instituições. E foi n’isto que rebentou o tumor democrata (1836). E aos que julgavam a victoria ganha, conquistada a paz, veiu a revolução dizer que tudo havia a recomeçar. E quem era esse novo apostolo da desordem? E que monstro de plebe solta vinha de tal fórma perturbar a paz dos philosophos? E desmanchar com uma lufada de simún as suas sabias architecturas politicas?

Quem a preparou e a fez surgir? Não sei. Ostensivamente os seus authores foram a plebe de Lisboa e alguns soldados que se negaram a dispersar os amotinados. Os individuos que, depois de consummado o facto, tomaram nas mãos as redeas do governo, recusaram para si a paternidade d’aquelle féto politico.

(Herculano, Opusculo, 1).

Então o propheta subiu ao seu Sinay e ouviu a voz de Deus que lhe disse cousas pavorosas:

A licença mata a liberdade, porque se livremente opprimes, livremente podes ser oppresso; se o assassinio é teu direito, direito será para os outros o assassinarem-te.

Porque a nação se dilacerará, e enfraquecida passará das mãos da plebe para as mãos de algum despota que a devore.