[20] Accusa-me o sr. R. de F. (Port. cont.) de ter interpretado erradamente o famoso discurso de Manuel Passos, especialmente n’este ponto. Relendo o texto vejo que, effectivamente, é licito inferir-se do que escrevi que em 44 Passos veiu á camara prégar o iberismo. Não é assim. Depois do periodo transcripto, o orador diz: «Comtudo, depois do que tenho visto praticar no reino visinho ... eu não podia agora dar o meu voto para uma união ... Se vierem, ainda pegarei n’uma espingarda e farei fogo aos invasores».

Esclareçamos pois este ponto, já que assim se julga necessario. Passos quer ou não o iberismo? Quer; comtudo, não o quer agora. É pois uma questão de opportunidade e occasião que nada altera o fundo do seu pensamento: por isso julguei que, embora necessaria esta nota, não devia alterar o que diz o texto.

Accrescenta o meu amavel critico que o discurso de 44 não são folhas caidas; que ahi se diz aos setembristas: «não desespereis nunca da causa da patria; ella será salva pela efficacia da lei, pela perseverança dos chefes, e pela confiança dos cidadãos»; que Passos Manuel ainda continuou a figurar na politica, etc.

São modos de ver. Figurar, figurou: mas como? Ouve-se já por ventura a fé, o enthusiasmo de outros tempos? Figurar na politica torna-se um habito, e, como habito, necessidade. A voz do antigo tribuno amolleceu, porque se lhe entibiou a fé. Que attitude propõe, que programma formula aos seus partidarios? Uma attitude passiva, um programma de legalidade. Ponha-se isto ao lado das palavras transcriptas no texto, e concordar-se-ha que são folhas caidas.

III
O ROMANTISMO

1.—A VOZ DO PROPHETA

A primeira fórma politica sob que o romantismo appareceu em Portugal foi a doutrina aprendida pelo duque de Palmella no retiro principesco de Coppet. Já falámos d’essa doutrina, mas nunca é de mais insistir nas particularidades de cada especie de liberalismo, porque só assim distinguiremos os partidos. De outra fórma, o indeterminado e o vago dos fundamentos das doutrinas não nos deixarão perceber, nos varios agrupamentos de homens, mais do que motivos pessoaes. Esses motivos havia, mas é errado suppôr que não houvesse outros. O proprio caracter do liberalismo, com a sua falta de criterio a não ser a palavra LIBERDADE,—uma palavra e nada mais,—era a causa da multiplicação dos modos de a traduzir.

Duas d’essas traducções, a de Mousinho e a de Passos, já nós conhecemos. Quanto á de Palmella nunca chegou a vingar entre nós, porque até 28 impediu-o o absolutismo, e depois da guerra já o não consentia a legislação da dictadura que destruira toda a sociedade antiga. O liberalismo de Palmella era a doutrina de um politico, habil e sceptico. Era a moderação, á maneira da que Luiz XVIII, com um temperamento analogo, a entendia: uma cousa pratica. Mas, esta politica teve como sustentaculo a doutrina do primeiro romantismo, catholico, tradicionalista, monarchico, aristocratico, medievista, de Chateaubriand e dos allemães. Sabemos como Palmella se oppôz á abolição dos conventos, sem o conseguir; e como obteve que se não bolisse nos morgados.

O primeiro romantismo, pois, concebido, ou pelo menos personalisado em Palmella, operou apenas como obstaculo á plena expansão de um outro pensamento liberal sem ser romantico, o de Mousinho. Conhecemos assaz a doutrina do reformador para voltarmos a demorar-nos sobre ella. Radical, individualista, utilitario, no systema das suas idéas não entrava por cousa alguma a tradição: nem historica, nem religiosa, nem aristocratica. Era um absolutismo individualista. A existencia de uma religião d’Estado e de uma camara de pares, bem como a conservação dos vinculos, deixavam a sua obra incompleta, e o novo edificio social truncado. Palmella conseguira que houvesse pares e morgados; mas a aristocracia, sem adherir ao regime novo, fazia da camara alta um problema serio, porque a natureza tem horror ao vacuo.

Ao lado d’estes dois liberalismos, um romantico, o outro utilitario e radical; um, filiado mais ou menos directamente no idealismo allemão, o outro, filho directo do sensualismo inglez: ao lado de ambos e comprimido até á revolução de setembro, vinha existindo o liberalismo racionalista, de pura origem franceza, e que em francezes e portuguezes se transformára, do velho jacobinismo, n’uma doutrina democratica só diversa da antiga nas formulas e accidentes, mas em essencia fiel ao typo transacto.