Das ruinas da revolta renasceu mais firme a coalisão, para as eleições de 45. Havia uma guerra declarada contra o governo, cujo existencia era um incessante combate. Todos os chefes e clientelas apertavam as mãos, esquecendo odios antigos no ardor do odio novo contra o aventureiro que os batia a todos. O calor era tal que o povo como que accordava, interessando-se e intervindo nos debates dos politicos, emittindo opiniões e pareceres. «A mania politica tem acommettido todos os habitantes da capital, desde o fidalgo e o par do reino até ás fezes da plebe. Apenas os pobres pretos de Africa que passeiam aos milhares pelas ruas de Lisboa não discutem politica». (Lichnowsky, Record.) A rede de sociedades secretas, que minavam o reino, estabelecia um sub-solo á politica apparente. Costa-Cabral era chefe de uma maçonaria sua, herdando o malhete que fôra de Silva-Carvalho e de Miranda: o centro cartista. Saldanha perdera o posto supremo da maçonaria opposta, desde que se bandeara em 35, deixando o grão-mestrado a Manuel Passos, que dirigia tambem outros conventiculos: templarios, vendas-carbonarias, etc. (Macedo, Traços)

A alliança das opposições já tinha um jornal, a Coalisão que, francamente, accusava tanto o governo pela sua tyrannia, como o povo pela sua indolencia.

Ha no paiz muito homem que não sabe lêr. Ha muito homem que sabe lêr, mas não lê. Ha muito homem que lê, mas não entende. Ha muito homem que lê e que entende, mas que tem medo, que é vil como um porco e cobarde como um veado. Ha muito homem que vê as desgraças publicas, mas não as quer remediar; ou porque treme de susto, ou porque ganha com a carrapata. Aos que vivem da sopa gorda, da olha podrida do orçamento não ha que dizer ... Folgam com as listas de côr, de carimbo e de tarja, morrem pelas transparentes. Fingem que vão coactos, mas vão contentes. Votam pela comezana: gostam da boa fatia do pão do nosso compadre Povo.—Ó Costa-Cabral! quantas vezes terás tu dito como Tiberio, vendo estes poltrões, estes sanchopansas da liberdade: ó homines ad servitutem paratos! (Coalisão, 10 de janeiro)

Mas este tom, de uma sinceridade triste, não era o que convinha na vespera da batalha: «Á urna! á urna! abaixo todos os ladrões e comedores! Empregados, ladrões, falsarios e prevaricadores, votae com o governo: não vos queremos. Tratantes! pertenceis de corpo e alma ao ministerio». (Coalisão, 15 de janeiro.)

Costa-Cabral ainda confiava, ainda esperava dominar a tormenta que todos os dias crescia. Tinha o exercito, tinha a burocracia, via-se apoiado pelas nações alliadas; o balão da finança entumescia-se, e o proprio Tojal, da Fazenda, mettera tudo quanto tinha n’uma operação de fundos, de sociedade com banqueiros de Londres. A rainha entregara-se nas mãos do seu homem-novo, no qual via uma coragem e uma força! ella que, se fosse homem, faria exactamente o mesmo, ou mais ainda por ser monarcha.

O ministro plebeu não podia resistir ás tentações da vaidade palaciana: não via que as honras com que a rainha o exalçava, o diminuiam no espirito commum. A sinceridade democratica do povo e a inveja dos ambiciosos juntavam-se para ridicularisar o parvenu. A fortuna que juntára no poder, alvo de tantas accusações, permitira-lhe comprar as terras de Thomar, com o velho castello templario, onde o moderno burguez afidalgado, occupando as salas historicas povoadas de sombras romanticas de cavalleiros, as enchia de festas banaes por occasião da visita da sua liberal soberana:

Na cathedral de Lisboa

Sinto sinos repicar:

Serão annos de princeza?