A revolta declarada ia precipitar o ministro no campo das repressões violentas, forçando-o a desmascarar a sua legalidade que, no fundo, era de facto a brutalidade da força; levando-o a mostrar com franqueza o genio duro e secco, esse genio que em outros tempos e com outra estabilidade de instituições, teria levado os inimigos ao mesmo caes de Belem, onde Pombal conduziu os que lhe resistiram.[29]

Como o ministro de D. José, tambem o novo Pombal do constitucionalismo era abocanhado e discutido na sua honra. Não era credor, ou affigurava-se a muitos não ser, do respeito com que uma reputação limpa ampara a força. Era temido, mas nem era venerado, nem chegava a ser tomado a sério pelos antigos companheiros que o tinham conhecido humilde, esbaforido, a declamar nos Camillos. Vêl-o assim erguido sobre todos, desesperava os que, por lhe não terem ouvido phrases pomposas e poeticas, lhe negavam um talento que para romanticos estava principalmente no estylo e na imaginação. Não era admirado: pelo contrario. E o peior era que a sua honestidade não deixava de ser discutida. Valiam mais e iam mais fundo esses ataques, do que as investidas declamatorias e os protestos contra a tyrannia. Á força de as ouvir, os ouvidos estavam saciados d’esse genero de esgrima; mas quando se dizia que o ministro se vendia, conciliavam-se todas as attenções.

Usar do dinheiro como instrumento liberal fel-o do certo. «Dêem-me dinheiro e deixem o resto por minha conta», parece que disséra ao entrar no governo, nas vesperas das eleições de 42. (Costa Cabral em relevo) E os seis contos—oh modestia spartana!—que recebeu e gastou, foram o ponto de partida para as accusações da venalidade. Vendera um pariato, dizia-se, recebendo como prenda um palacete. Quem do Ultramar queria commendas, mandava o pedido acompanhado por uma ordem de dois contos para um banqueiro. (Ibid.) E sem duvida, á sombra do ministro que governava com o dinheiro, formara-se um batalhão de gente, especulando com tudo: contractos, empregos e graças. No norte do reino parece que havia um intimo, outr’ora preso por falsario e ladrão, a quem os pretendentes se dirigiam para resolver as pendencias que tinham em Lisboa, discutindo-se, não o direito, mas sim a quantia. (Ibid.)

A propagação de taes accusações mostrava o calcanhar do novo Achilles. Quando todas as fontes de authoridade politica se estancam, resta apenas a authoridade pessoal: e nada ha melhor, para a destruir, do que o uso da arma acerada que fere um homem com o labéo de venal. O povo crê sempre, porque é pessimista: tinha Portugal motivos para ser outra cousa? E para destruir uma tal crença, não raro illusoria, nem provas bastam. O politico é como a mulher de Cesar: além de honrada, (quem sabe? até não o sendo) é mister que o pareça.

O nosso ministro não conseguia parecel-o, e soffria as consequencias do seu plano de governo: «Enriquecei!» era o conselho se Guizot, a quem ninguem taxou de deshonesto. Em Portugal, os costumes eram mais soltos, a virulencia maior; e se ninguem fôra ainda atacado de um modo tão cruel, isso prova que ninguem, tampouco, ainda mostrára uma força e um genio tão superiores. Outro Pombal, repetimos, o novo ministro ficaria tão celebre como o antigo, se achasse ainda de pé uma qualquer authoridade social. Nas ruinas universaes não tinha com que construir, e os elementos que iam rebellar-se contra elle obrigal-o-hiam a empregar, francamente a força núa como instrumento de conservação.

2.—TORRES NOVAS E ALMEIDA

O melhor d’essa força era a tropa, mas usar d’ella na defeza de um governo e de um systema cuja origem era discutida, tornava logo o exercito em instrumento partidario, roubando-lhe esse caracter mudo e passivo, sem o qual vem a ser um perigo permanente. As condições da nossa historia, o abatimento caduco do nosso povo, tinham feito com que, desde 20, as revoluções portuguezas—sem excluir a de 32-4—fossem emprezas militares. Os chefes de partido, Silveiras, Terceira, D. Pedro, Saldanha, Sá-da-Bandeira, eram invariavelmente generaes; e agora, com Costa-Cabral, pela primeira vez se via o governo positivo nas mãos de um paisano, mas sob a presidencia de Terceira, com a adhesão de Saldanha, marechaes do exercito.

Educado desde largos annos na tradição dos pronunciamentos, o exercito era, portanto, como que uma prolação dos partidos: uma parte, armada, das clientelas. Vê-se que desordem isto produziria. A parcialidade vencedora dispunha em proveito proprio do material de guerra: soldados, espingardas, canhões, etc., expulsando os officiaes hostis para o quadro da inactividade, e mantendo, assim, uma como que emigração dentro do reino, constantemente preocupada de politica e tramando a victoria dos seus, a queda dos contrarios. Com a exaltação de Costa-Cabral, as cousas tinham chegado ao ponto de os coroneis pedirem aos officiaes arregimentados palavra d’honra de se não bandearem; e os officiaes davam-n’a e faltavam por dinheiro que recebiam, e quando a não davam eram riscados do effectivo. (Apont. hist. cit.)

De tal situação nasceu a revolta de Torres-Novas, a que Passos-Manuel chamou bambochata. Commandava ahi cavallaria 4 o coronel Cesar de Vasconcellos, (depois feito conde do lugar da façanha) que se pronunciou contra o governo (4 de fevereiro de 44), e ao regimento foram juntar-se os militares inactivos. No dia seguinte, Costa-Cabral pediu ás camaras a suppressão de garantias e as leis marciaes, e obteve-se no meio dos clamores da opposição: Mousinho d’Albuquerque, Aguiar, Gavião e Silva-Sanches, Garrett, nos deputados; Lavradio, Taipa, Sá-da-Bandeira, Fonte-Arcada, nos pares. Clamando, os opposicionistas encobriam mal, sob expressões juridicas, a sua cumplicidade na sedição militar; appellando em gritos violentos, exclamações dirigidas ás galerias, para um motim popular.

Bomfim, o ordeiro antigo, pozera-se á frente da desordem, e a praça de Almeida pronunciara-se tambem: ahi se achavam o coronel Passos e José-Estevão que deixára a camara pelo campo. (Oliveira, Esboço hist.) A coalisão dava de si uma revolta militar, e o governo via os miguelistas a levantar a cabeça no meio da anarchia. Beirão que viera á camara, eleito por elles, alliciava os estudantes realistas em Coimbra, recrutando soldados para Almeida, d’onde lhe escreviam que mandasse o Rebocho, para Minzella, agitar-se. (Disc. de Cabral, 18 de outubro de 44) Para Almeida foram de Torres-Novas as tropas, e sem poderem arrastar comsigo nenhuma parte do paiz, acharam-se ahi encerradas em abril. O exercito fiel ao governo cercava-as. Em vão saíu José-Estevão, romantica, aventureiramente, a revolucionar Traz-os-Montes, passando a fronteira e indo entrar em Moncorvo; em vão bateu ás portas de Chaves, de Bragança e de Murça: ninguem respondeu; mas ninguem tampouco entregou o estouvado romantico, pelo qual Costa-Cabral offerecera, ao que se affirma, o premio de dois contos. (Oliveira, Esboço hist.) Almeida capitulou, os vencidos emigraram, o governo venceu; mas a victoria obrigava-o á crueldade e a derrota exasperava os animos dos submettidos á tyrannia de um homem que desprezavam.