[27] V. O Brazil e as colon. port. I, 4-5.

[28] V. O Regime das Riquezas, introd.

II
A REACÇÃO

1.—A COALISÃO DOS PARTIDOS

No decreto (10 de fevereiro) em que a rainha declarara adherir á revolta armada em Coimbra dizia-se que a CARTA seria reformada, mas logo que o gabinete se constituiu, quinze dias depois, com Costa-Cabral, viu-se que a promessa ficava em cousa nenhuma: era a CARTA, tal qual existia antes de 1836; pares hereditarios, eleições indirectas. Mousinho d’Albuquerque, reconhecendo que apenas passára pelo governo para preparar a entrada de Costa-Cabral, abandonava o seu duque e collocava-se em opposição.

Ia haver eleições, porque o novo systema não era nem pretendia ser uma dictadura, mas apenas a maneira de fundar uma legalidade que servisse de escudo a um absolutismo de facto. E na vespera d’essas eleições ligaram-se todas as clientelas ou partidos contra o inimigo declaradamente commum. Eram os velhos setembristas da gemma, com a geração nova ainda mais radical; eram os ordeiros, antigos cartistas, expulsos do poder; eram cartistas não cabralistas, e por fim miguelistas. No seio do constitucionalismo via-se exactamente o mesmo que a Edade-media, com o seu feodalismo, apresentára. A sociedade, dividida em bandos rivaes o inimigos unidos em volta de um chefe, existia á mercê dos pactos, allianças e rivalidade dos barões. Contra o feliz, vencedor temporario, eram todos alliados, para se formarem combinações novas, assim que o ramo da victoria passasse a mãos diversas. Nos seculos passados, comtudo, não havia as mais das vezes por motivo declarado senão a ambição pessoal, ainda que não fosse raro vêr-se, como agora, servirem principios de capa aos despeitos e interesses. Nos seculos passados, os debates eram campanhas, e agora pretendia-se que fossem comicios e discussões e votos; mas como isso não bastava muitas vezes, logo se appellava para a ultima ratio, a revolta.

A coalisão dos partidos preparou a batalha das eleições com um Manifesto (30 de março de 42): «Haverá um simulacro de representação nacional, dizia. A universalidade da nação portugueza, fraccionada pelas diversas opiniões politicas, verá passar pelo meio d’ella um bando pequeno de homens compactos e ligados por seus interesses pessoaes, e obter um falso triumpho, devido não só á sua força, mas á divisão dos seus contrarios.» Mau prenuncio para quem desenhava tão realistamente uma situação que pretendia dominar. Como esperava a coalisão vencer, se o disparatado das ambições congregadas obrigava a declarar a independencia dos credos politicos, e se a alliança tinha por fim unico a batalha? Se ganhasse a victoria, de quem seria o ramo? Novas contendas surgiriam sem duvida, o com ellas o estado anterior de desordem.

Costa-Cabral venceu, e devia ser assim. Quem o havia de matar não podia ser a opposição, mas sim a desorganisação e o descredito do seu novo e tambem ephemero liberalismo. Agora, porém, começava apenas a viagem e tudo eram confianças e esperanças. Havia adhesões numerosas, e trabalhava-se. Palmella, convertido depois da sua triste entrudada, dava ceremoniosamente a mão ao governo, e ia a Inglaterra negociar o novo tratado que congraçaria de novo comnosco a nossa protectora, coarctando as temeridades proteccionistas do setembrismo. Publicára-se o codigo administrativo. (18 de março de 42) Reconstituia-se a ordem, por dentro e por fóra; e confiava-se que tivesse chegado o momento de pensar no futuro. Por isso se legislava sobre a Instrucção, se levantava o theatro romantico, se projectavam estradas e pontes.

Tinham-se, porém, liberal, constitucionalmente, convencido os colligados da adhesão do reino ao seu novo regime? Não, nunca: pois que cada qual possuia uma verdadeira traducção de LIBERDADE, a questão era para todos radical, e viciosa qualquer legalidade que não fosse a propria. O principio da anarchia constitucional desvairava, assim, os simples, servindo os programmas de capa aos habeis para esconderem os seus motivos particulares. Batidos na URNA, appellaram para a guerra. Uma lucta desabrida de improperios, na camara em discursos e fóra d’ella nos jornaes e folhetos avulso, preparava o terreno para a desejada insurreição em armas.

A coalisão dizia que «Palmella, por mandado do vil e infame governo, fôra negociar o tratado de commercio: por patriotismo, os fabricantes deviam fechar durante quinze dias as suas officinas.» (Circular de 9 de agosto) Duas semanas sem pão, ociosos nas ruas os operarios de Lisboa, repetir-se-hiam as scenas de 38 e caíria o governo. Planeava-se a revolta, a que Passos chamou «bambochata». E, com effeito, era tal a desorganisação, que os miguelistas começavam já a esperar e por isso a abster-se, vendo circumstancias opportunas para se effectuar uma restauração nacional.» (Circ. de Saraiva, 24 de junho de 43)