Não está porém n’isso a causa particular da ruina do edificio cabralista, mas sim na essencia do seu plano de restauração da riqueza nacional. Implantando entre nós o systema seguido lá por fóra de enfeodar os serviços publicos a companhias de especuladores, o cabralismo obedecia no principio da sua formação: era uma clientela dos ricos. Confiando a aventureiros o encargo de realisar o plano das obras-publicas, o governo chamava em seu auxilio a intervenção da agiotagem. Isto não era original, nem particularmente nosso: tambem Guizot dizia aos seus: enrichessez-vous! Mas uma nação como Portugal, ainda commovida pelos odios pessoaes e partidarios, demasiadamente afastada da Europa central, quer geographica, quer economica, quer scientifica e religiosamente, para ter solidariedade com ella, nem podia contar com a paz indispensavel ás regenerações economicas, nem esperar que os capitaes europeus viessem encher os cofres das companhias de agiotas portuguezes. Nem a formação de companhias estrangeiras, nem a importação de muito dinheiro por emprestimos successivos, eram possiveis ainda, como depois o foram; e sem elles as combinações eram chimeras.
D’ahi resultou que as companhias, formadas apenas com os recursos de que a nação dispunha, não viram o ouro a authorisar os numeros; e mirradas, seccas, encastellando algarismos e trapaças, sem conseguirem bater moeda, voltavam-se implorantes para o governo que as creara com o fim de o auxiliarem a elle. E, entretanto, vencidas por fas ou por nefas, as eleições de 45, o governo apparece como triumphador, patenteando um plano largo e vasto de administração e fomento. (V. Diario de 2 de janeiro, 46) Tres annos de paz e trabalho haviam permittido já desembaraçar o terreno dos obstaculos praticos; e organisados os serviços, cumpria realisar o pensamento. A divida externa converter-se-hia n’um typo unico de 4 por cento, equilibrava-se o orçamento, e a companhia das Obras-publicas apparecia para restaurar a viação d’onde viria a fortuna ulterior. Havia esperança e fé. O 5 por cento estava a 70; o 4 a 57; e as companhias (Confiança, banco, etc.) solidariamente ligadas á situação cartista, viam na conservação do governo e na victoria do seu systema futuros de riquezas douradas. Nunca a emissão do banco fôra tão longe: passava de 9:000 contos.
Mas a victoria politica do governo dava lugar a uma derrota do systema, como veremos; a prosperidade do edificio financeiro encobria mal a sua falta de alicerce. Um vento de desordem que soprasse, e ficaria feito em pó. Era um amalgama de supposições de valores, tendo como realidade unica um vasio absoluto. As companhias pediam a protecção do Thesouro; e o Thesouro sacava-lhes todo o dinheiro disponivel, para com elle poder apparentar abundancia. 5:000 contos se deviam ao banco; 6:000 á Confiança. E como não havia dinheiro e só esperanças; e como as companhias não passavam afinal de agentes do governo, ao qual iam entregar fielmente o pouco que obtinham; e como o governo não poderia, ainda que o quizesse, encobrir as fraudes, os roubos, dos agiotas cujo representante era—o systema alluia-se por todos os lados, quando parecia ter chegado á sua perfeição.
Bastou uma revolução para deitar por terra os castellos de cartas dos Laws cabralistas; mas houve fomes e sangue derramado, porque a doutrina não tinha outra base além do ouro e o ferro. Agiotas e soldados a defendiam; acabou com uma guerra e uma falcatrua.
A sua grande falta, a sua fraqueza invencivel eram a ausencia de um principio moral, porque nem a ordem imposta pela força, nem a riqueza creada contra a justiça chegam a ser principios; nem o é a idéa de que uma nação obedeça ao pensamento exclusivo de se enriquecer. Quando isto se préga, succedem casos analogos aos que succederam aos jesuitas: pervertem-se os ouvintes e logo se corrompem os prégadores. Ou se criam monstros, como as missões do Brazil e do Paraguay[27] e as companhias cabralinas, ou se cáe na profunda atonia portugueza do seculo XVIII ou na singular, chatin regeneração.
Enriquecer é bom, indispensavel até; mas a riqueza é um meio e não um fim.[28] Errando n’este ponto, dando á força bruta um papel excessivo, confiando de mais no entorpecimento do povo e na fraqueza dos inimigos: o cabralismo tinha na sua doutrina a causa fatal da sua ruina, e o motivo necessario dos erros e do descredito de chefes que precipitaram a queda inevitavel do systema. Levantavam-se contra homens e systema elementos de varias ordens: era a repugnancia instinctiva do caracter setembrista pelas trapaças agiotas, eram os odios pessoaes, eram as resistencias do povo contra os ataques a restos de instituições historicas e costumes religiosos, era o bandidismo guerrilheiro fervendo por voltar a uma existencia de aventuras, era a tradição democratica do setembrismo que se não convertera, eram a resistencia e o protesto contra a tyrannia da administração e as violencias das eleições, era finalmente a existencia de numerosos officiaes expulsos das fileiras por opiniões politicas.
Eis os elementos positivos da reacção que vamos vêr erguerem-se, para condemnar a ultima tentativa de liberalismo doutrinario; para lançar ao ostracismo o seu defensor; para concluir por fim o periodo propriamente liberal, abrindo uma éra nova de scepticismo politico, em que o velho idolo da LIBERDADE, apeiado, cede o altar ao deus novo: o utilitarismo, pratico, positivo, conciliador e moderno, ou antes, actual.
NOTAS DE RODAPÉ:
[26] V. O Brazil e as colon. port. l. II, 1.