Procedia o ministro movido apenas pela ambição pessoal de se consolidar, fomentando-a? Não o acreditemos, porque, para além d’esta consequencia, taes factos teem maior alcance. Pois não era verdade, confessada, reconhecida por todos, a incapacidade do povo, e o mallogro das experiencias democraticas e localistas? Que havia pois a fazer, de que recurso lançar mão: senão centralisar o poder, chamar o governo a uma minoria consistente e forte; deixando de pé, para não aggravar questões, todas as fórmulas que podendo ser viciadas não prejudicassem o plano? Encerrado um circulo da sua existencia, o liberalismo vinha caír n’uma oligarchia de facto, revestida de fórmulas e garantias ficticias. Na Hespanha e em França acontecia outro tanto; e lá e cá, depois das reacções que o absolutismo novo, illustrado, provocou, o liberalismo cedeu o lugar ao scepticismo politico mais ou menos cesarista do imperio francez, e da Regeneração portugueza.

Conhecemos, pois, nos seus traços essenciaes, o novissimo systema, e como não póde haver politica sem uma base de elementos e forças positivas a que se apoie, resta-nos saber quaes eram as do cabralismo. No decurso do nosso estudo achámos duas já: a aristocracia nova do propriedade e da finança, e a burocracia. Mas estes dois elementos, preponderantes e decisivos na paz, não bastavam para resistir á força material das numerosas plebes agitadas pela democracia setembrista. O governo, desarmando e dissolvendo as guardas nacionaes, eliminára a melhor arma de que ellas dispunham nas cidades; mas restavam os campos, com os habitos de guerrilha, enraizados por annos de guerra e anarchia. Contra esses tinha o governo o exercito: porque todos os commandos estavam nas mãos de generaes fieis e a officialidade fôra depurada.

A restauração consummada por uma porção de tropa, tinha, de facto, nos soldados o mais firme apoio, porque a adhesão decidida do throno valia menos em uma nação a que per vim se impozera uma dynastia nova, discutida desde a origem e atacada, escarnecida, humilhada muitas vezes. A rainha era, comtudo, o primeiro funccionario da nação, e não valia mais nem menos do que a burocracia toda, com a qual se inscrevera na nova clientella cabralista. Se lhe não succedeu como a Luis-Philippe, ou a Isabel II, caír com o systema, foi porque a Hespanha, a Inglaterra e as França vieram juntas defendel-a em 47.

Burocracia, riqueza, exercito: eis os tres pontos de apoio da doutrina; centralisação, oligarchia: eis o seu processo; mas nem as fórmas nem as forças bastam para constituir um systema: são apenas consequencias subsidiarias d’elle. Que era, no fundo, a idéa? Seria o racionalismo espiritualista do seculo XVIII que prégava, contra o catholicismo, pela bocca da maçonaria, uma religião nova? Não; a doutrina reconhecia o catholicismo, lavrára já a sua concordata com Roma, e via nos padres excellentes instrumentos de governo. A maçonaria perdera havia muito o caracter revolucionario, e a revolução perdera tambem as ambições religiosas. Como os casulos do bombyx ficam depois que a borboleta voou, assim ficavam as lojas, rede de sociedades secretas subsidiarias das sociedades politicas visiveis, a que o segredo e o mysterio, porém, seductores dos simples, augmentavam até certo ponto a força. Costa-Cabral afeiçoara tambem essa machina ao serviço dos seus designios e ambições.


Se elle se propunha defender os ricos para consolidar a ordem, á maneira do religioso Guizot, ou se, menos idealista nas suas vistas, queria a ordem apenas como instrumento de enriquecimento do paiz, é o que nos não sentimos habilitados a dizer; pensando, comtudo, mais provavel a segunda hypothese. Como quer que seja, era por esta que a sociedade opinava, já começada a converter ao materialismo, sob a primeira fórma com que elle modernamente appareceu; era para o materialismo pratico que a sociedade, desilludida das chimeras liberaes, começava a pender.

Isso a que depois veiu a chamar-se melhoramentos-materiaes, isto é, a construcção das obras publicas e o fomento da riqueza, eis o que nós vemos como essencia do novo cartismo. A do antigo, sabemol-o bem, fôra aristocratica. E, singular energia da realidade! Costa Cabral, o percursor da nova edade portugueza, veiu a ser a victima da Regeneração que, por outras palavras e com outros meios, havia de executar-lhe o programma. A antiga educação jurista e liberal do ex-tribuno dos Camillos compromettia com doutrinas um movimento que, para vingar, exigia apenas scepticismo: assim em França, tambem acontecia a Guizot, e os regeneradores foram o nosso Segundo Imperio.

Mas, além d’estes defeitos de educação, o plano do Costa-Cabral falhava por outro lado. José da Silva Carvalho antes, Fontes depois, comprehenderam que a melhor finança para um paiz exhausto era importar do fóra o dinheiro. Costa-Cabral, seguindo n’este ponto os erros setembristas, pensou que os numeros, calculos e operações phantasticas dos agiotas bastavam para inventar uma riqueza que não existia. D’ahi veiu uma banca-rota precipitar a ruina do systema, batido tambem por outros inimigos.

Costa-Cabral foi o iniciador dos caminhos-de-ferro, principal instrumento com que depois se operou a restauração da riqueza nacional; e a sua idéa de construir uma linha entre o Porto e Lisboa e outra de Lisboa a Badajoz era considerada pelos politicos da opposição a doidice de um vidente. O conde de Lavradio, na camara, (Sess. de 3 de fevereiro 1846) assegurava que entre Lisboa e Porto não haveria, ao anno, mais de seis mil passageiros; e Cabral perguntava-lhe: «E se forem trezentos mil?—Isso não é possivel, porque não ha no paiz viajantes para tanto movimento». Qual dos dois via mais claro no futuro? Os caminhos-de-ferro rematariam o systema de estradas macadamisadas, contratadas com a companhia das obras-publicas; e regularisada a questão do Thesouro—hoc opus!—estaria completo o programma da regeneração economica do paiz.

O estadista que com tamanha audacia e tão variadas artes pretendia chamar á industria uma nação que fôra desde seculos o emporio ou a dependencia de um systema colonial, agora abandonado e caduco na parte que se não perdera, esquecia que no reino extenuado e doente, costumado á protecção e á preguiça, não havia os capitaes moveis necessarios para realisar as obras projectadas. Havia, sim, grossas quantias dispersas e infructiferas; mas a maxima parte d’ellas, ou a parte de que o Estado podia dispôr sem ir atacar a propriedade individual, pertencia ainda ás corporações de mão-morta que tinham escapado ao cutello liberal: ás misericordias e confrarias, instituições religiosas de beneficencia, cujos fundos o povo não estava ainda costumado a vêr mobilisar. Fazel-o, parecia um roubo. E o governo, atrevendo-se a tanto, e propondo ao mesmo tempo augmentos de impostos, tornava facil aos seus inimigos um ataque apoiado em instinctos de populações vexadas já por uma administração oppressora.