Exterminio á geração
Sobre essa raça maldita!
Assim, em artigos e trovas, se tirava a desforra de uma revolta suffocada, infiltrando no animo do povo um desprezo e um odio condemnadores do ministro e da rainha, do systema e das pessoas. A colera politica subia de grau, e a liberdade na imprensa—tão verberada por Passos!—invadia as alcovas principescas, mostrando-as ás plebes. Onde conduziria um tal systema? Não tinham os miguelistas razão para se prepararem e esperar?
Batidas por fim de frente, por um homem superior e forte que lançára mão dos elementos ainda resistentes da sociedade portugueza, as parcialidades politicas, relativamente tolerantes entre si, não podiam admittir a invasão e o imperio d’esse intruso importuno; mas elle proprio, que não se atrevia, nem poderia, nem pensaria, em rasgar a CARTA, mandar á fava o liberalismo, e voltar ao governo pessoal, puro: que lhe restava senão curvar a cabeça á tyrannia das fórmulas? E se as influencias de todos os chefes politicos, alliados contra elle; se a acção de um ataque incessante á sua pessoa e á sua honra, tinham concitado uma tempestade que o faria ser batido na urna: que remedio lhe restava, senão esse expediente da violencia sob a capa de legalidade? o processo de mentira descarada, em vez de hypocrita como d’antes? esse processo que o mantinha, desacreditando-o, arruinando-o cada vez mais?
Vencer, por fas ou por nefas, as eleições, n’esse anno de 45 da decisiva batalha, era para Costa Cabral o mesmo que viver ou morrer. Lançou, pois, mão de tudo, e foi ás do cabo. Tres camaras-municipaes protestaram, vindo a Lisboa os vereadores implorar a rainha: á de Evora voltou-lhe ella as costas, a de Villa-Franca foi presa, e ambas, com a de Faro, dissolvidas. A opposição estava inteira a postos; o programma era o antigo Manifesto da coalisão, com o discurso de Manuel Passos, em 18 de outubro anterior. Em Lisboa reuniam-se Mousinho de Albuquerque, Aguiar, Sá-da-Bandeira, Herculano, José Maria Grande, Marreca, Rio-Maior, Jervis, Garrett; José Passos tinha o Porto; Bertiandos, o Minho; Povoas, não annuindo á abstenção ordenada por D. Miguel, da Guarda mandava na Beira; o conde de Mello em Portalegre; Manuel Passos e o barão de Almeirim em Santarem. (Macedo, Traços)
Nenhuma das conhecidas tricas para levar a Urna a dizer o que se deseja—como nos velhos oraculos sagrados!—fôra esquecida pelo governo. Os recenseamentos eram taes que não incluiam nomes como os do marquez de Niza, da Fonte-Arcada, do Felgueiras juiz no supremo tribunal, de Garrett, etc. Incluiam, porém, mendigos e lacaios, aguadeiros e defunctos; incluiam nomes imaginarios, e soldados e marinheiros. As listas eram marcadas: transparentes, pautadas, carimbadas, tarjadas, numeradas. Os individuos influentes e perigosos eram presos arbitrariamente: assim aconteceu a Rezende em Aveiro, a Balsemão em Penafiel. Os governadores-civis distribuiam aos galopins mandados de captura em branco. E onde as tricas não bastavam, apparecia a força bruta. Em Alvarães e Porto de Moz houve descargas cerradas de fusilaria. D. João de Azevedo foi espancado no Porto, onde as assembleias se reuniam cercadas de tropa, junto dos quarteis. O visconde da Azenha teve de emigrar de Guimarães; o de Andaluz, em Pernes, bateu a tropa com um bando de gente armada. Para Villa-Franca foi maruja e artilheria. No Sardoal a tropa de bayoneta calada impediu a entrada dos eleitores na assembleia. Por toda a parte houve prisões, mortes em muitos lugares. A violencia vinha rematar o systema de perseguições fiscaes: iniquidade na repartição do imposto, crueldade com os devedores das misericordias e irmandades, denegações de justiça, etc. (Macedo, Traços) Para forjar um simulacro de parlamento, para aguentar a sophismação da doutrina, chegava á maxima tyrannia, atacando-se as mais necessarias garantias dos cidadãos.
Costa-Cabral venceu: se victoria se póde chamar a empreza que o precipitou n’uma revolução.
No seio da sua camara unanime de clientes e funccionarios expoz então o vasto plano dos seus projectos; mas na outra camara, os pares protestavam clamorosos, erguendo-se acima de todas a voz sibilante de Lavradio, e dominando a scena a figura de Palmella que, moderado sempre, inclinava outra vez para o lado da opposição.
Cá por fóra os protestos corriam soltos e sem piedade: