Que podemos nós esperar, quando a nossa vida, a nossa fazenda, a nossa liberdade estão á mercê de um punhado de devassos? Se esta nossa terra, se os nossos fóros e liberdades são enphyteose dos Braganças ou fateosim dos Cabraes? (Souto-Mayor, Cartas de Graccho a Tullia)

Os ministros são «doutores do pinhal d’Azambuja», que illudem a nação com «tretas vís»; são «ladrões cadimos, salteadores, assassinos, traficantes, ratoneiros, corsarios, bandoleiros»; e o povo não ouve? não se mexe?

Povo! meneia tres vezes a cabeça, reflecte. Não tens um pulso para a espada, um hombro onde encostes a espingarda, olhos para a pontaria, dedos para o gatilho? (Id. Ultimos adeus, 44)

3.—A MARIA-DA-FONTE

Accudiu o povo aos clamores dos que se apresentavam como seus procuradores? Elles disseram que sim: á historia parece comtudo que o povo era indifferente ás doutrinas e systemas da opposição; porque nem ellas tornaram completamente a vencer, nem o povo se levantou para as defender, quando a rainha por um acto de absolutismo expulsou do governo os homens que ali tinham entrado sob pretexto da Maria-da-Fonte. Como espontaneo movimento das populações, a revolução do Minho tem apenas um caracter negativo. É contra os Cabraes, de quem a propaganda activa fizera uns monstros mais que humanos, que appareciam á imaginação popular como réus de todas as desgraças:

Comem as cearas os pardaes?

É por culpa dos Cabraes.

É contra os impostos, contra os enterramentos em cemiterios ao ar livre, contra a mobilisação dos bens das Misericordias, contra o systema de leis que tendiam a consolidar o novo Portugal, a acabar de arruinar um Portugal antigo que ainda para as populações ruraes era o verdadeiro, o ditoso, o bom. Tal caracter se observa no movimento espontaneo das populações, confiscado á nascença pelos setembristas como se fôra seu, e apresentado sempre como um documento da vitalidade e raizes das suas doutrinas no seio da nação ...

Quando na camara dos pares os ataques sibilantes de Lavradio ao conde de Thomar zuniam como o vento nas cordagens do navio ameaçado; quando a eloquencia apopletica de José-Bernardo se entornava para defender o irmão, ameaçando terra, mar e mundo; quando a batalha parecia decisiva e final—chegou a Lisboa, subitamente, a noticia de motins populares no Minho. (15 de abril) O governo assustou-se e os inimigos esperaram.

Entre clamores e protestos, votaram-se as leis marciaes usadas em taes casos, porque nos momentos de crise o constitucionalismo liberal vê-se forçado a abdicar: tal é a sua consciencia positiva. Suspenderam-se os debates para irem começar os tiros. A opposição tinha organisado por todo o reino a sua machina eleitoral coalisada: os embryões das Juntas revolucionarias estavam formados, a postos todo o pessoal dos partidos, para accudir ao levantamento das populações, dirigindo-o, interpretando-o. Por seu lado o governo mandou para o Porto José-Cabral, a quem o odio da cidade do Douro chamára o José dos Conegos, e agora dava por escarneo o titulo de Rei-do-norte. Levava, com effeito, o rei poderes descricionarios e a alma cheia de coleras, a bocca vomitando ameaças, o braço levantado para esmagar tudo com a sua força. E assim que desembarcou, passou dos planos ás obras, perseguindo, prendendo, ameaçando, aterrorisando, até que o obrigaram a voltar, fugindo para salvar a vida.