E a tropa? Mais que podia a tropa contra uma sublevação de facto popular, levantando a cabeça por toda a parte, oscillando, fugaz, e movediça, lavrando e minando, com a vastidão e mobilidade dos fogos fatuos no vasto cemiterio de um reino? O governo não tinha cem mil bayonetas, e tantas ou mais seriam necessarias para pôr guarnição em todas as aldeias, uma sentinella ao lado de cada minhoto. O caso era diverso de 44, quando uns batalhões se tinham pronunciado: outros batalhões mais numerosos foram ter com elles, encerraram-nos em Almeida, obrigando-os a capitular. Que praça ou curral havia, sufficientemente grande para encerrar meia população do reino e obrigal-a a render-se pela fome? Praça ou curral era o reino inteiro, e dentro da fortaleza a propria guarnição levantava-se. Que fazer? Onde accudir? A força ensarilhava as armas por não achar alvo de pontaria; e do mesmo modo que a tropa reconhecia a sua impotencia, via-se em Lisboa a manada dos agiotas correr, sumir-se, apertados uns contra os outros, furando como os bandos de carneiros acossados por um aguaceiro a trotar miudinho. Ai! bancos estoirados, companhias fallidas, papellada esfarrapada! O balão dos calculos tombava enrodilhado, a Babel de algarismos caía por terra em estilhas! Pobres fundos do conde de Tojal, almoe-dados em Londres! quem dava por elles um chavo?


No logar da Fonte, concelho da Povoa-de-Lanhoso, no coração do Minho, existia a que foi a Joanna d’Arc do setembrismo. No Minho, como em todas as regiões de stirpe celtica,[30] a mulher governa a casa e o marido; excede o homem em audacia, em manha, em força; ara o campo e jornadêa com a carrada do milho á frente dos boisinhos louros. Requestada em moça nos arrayaes e romarias pelos rapazes que a namoram, conversando-a com as suas caras paradas, basta vêr um d’esses grupos para descobrir onde está a acção e a vida: se no olhar alegre, quasi ironico da moça garrida, luzente de ouro, se na phisionomia molle do rapaz, abordoado ao cajado, contemplativo, submisso, como diante d’um idolo. A vida de pequenos proprietarios põe na familia uma avidez quasi avarenta e na educação dos filhos instinctos de governo. Quando se casam, as moças conhecem o valor do dote que levam, e os casamentos são negocios que ellas em pessoa debatem e combinam. Não é uma esposa, quasi uma serva, que entra no poder do marido, á moda semita que se infiltrou nos costumes do sul do reino: é uma companheira e associada em que o espirito pratico domina sobre a molleza constitucional do homem desprovido de uma intelligencia viva. A mulher parece homem; e nos attritos da dura vida de pequenos proprietarios, quasi mendigos se as colheitas escasseiam, cercados de numerosos filhos, apagam-se as lembranças nebulosamente doiradas da luz dos amores da mocidade, e fica do idolo antigo um rudo trabalhador musculoso, com a pelle tostada pelos soes e geadas, os pés e as mãos coriaceas das ceifas e do andar descalça ou em soccos nos caminhos pedregosos, ou sobre a bouça de urzes espinhosas. Não se lhe fale então em cousas mais ou menos poeticas: já nem percebe as cantigas da mocidade no desfolhar dos milhos!

A vida cruel ensinou-a: é pratica, positiva, dura. Odeia tudo o que não sôa e tine, e tem um culto unico—o seu chão. Vae á egreja e venera o «senhor abbade», mas com os idyllios da mocidade a sua religião perdeu a poesia: ficou apenas um rosario secco de superstições, funda, tenazmente arraigadas. Ai, de quem lhe bolir ou nos seus interesses, ou no culto! na egreja, ou no chãosinho! Ai, d’aquelle que para tanto lhe investir com os filhos, com o marido, que são para ella os seus operarios. O sentimento innato da rebeldia, (que não deve confundir-se com a independencia) essa vis intima dos celtas submissos da Irlanda e da França, existe no minhoto, com o lastro de presumpção e manhas, d’onde saem os nossos palradores do norte e os astutos emigrantes do Brazil; com a segurança que a vida responsavel e livre de proprietarios, não-salariados, lhes dá.


O systema cabralino, seccamente beirão, era em tudo opposto ao temperamento do norte; e o facto da CARTA haver sido restaurada no Porto mostra quanto essa empreza foi uma obra de quartel e secretaria, sem raizes no coração do povo. O governo, depois, atacou as superstições, mandando que os mortos se não enterrassem nas egrejas; e para que se veja quanto esta ordem judiciosa batia de frente os usos religiosos e quanto elles estavam arraigados, basta dizer que ainda hoje por todo o Minho se encontram villas, e não aldeias afastadas, villas como Barcellos por exemplo, sem cemiterio. O governo queria ainda que a decima rendesse o que devia; mas o povo que já esquecera o tempo dos dizimos, via no imposto lançado por uma authoridade para elle extranha, desconhecida, a extorsão, a ladroeira, dos homens de Lisboa, o ataque ao seu idolo adorado: o chão lavrado de milho ou de linho, a carvalheira toucada de pampanos com os acres bagos de uma uva ingrata pendentes em cachos negros.

E esses homens, que tanto exigiam, nem falavam em Deus, nem em cousa alguma que os lavradores entendessem. Vinham sobraçando a pasta cheia de papeis, com phraseados singulares, caras desconhecidas, cousas extravagantes; e retorquiam ás replicas com a fusilaria dos soldados. Esses homens já tinham vindo a pedir-lhes o boto, e elles coçando a nuca hesitavam; mas as mulheres, praticas, attendendo ao antigo poder do senhor fidalgo, e a submissão ingenita mandando obedecer quando o caso era sem consequencia, tinham levado os camponios arregimentados, com o papelinho entre os dedos, até á Urna. Que lhes importava isso? Idéas dos fidalgos! e voltavam ao seu trabalho.

Agora o caso era outro: enterrarem os pobresinhos dos mortos como cães, n’um quintal! levarem o nosso vinho e o nosso milho colhido com tanto suor: isso não! E em apoio d’esta rebeldia, vinha o fidalgo, vinha o padre (setembrista) com sermões e falas doces, esconjuros e meiguices, incitando-os a resistir a quem lhes queria tanto mal, tão duramente os tratava. O administrador era mais cruel do que o capitão-mór, por ser de fóra, e secco, bacharel, plumitivo; o senhor capitão-mór, ás vezes, fazia cada uma ás raparigas! Mas o minhoto, naturalista, não é susceptivel nos peccados de carne: fraquezas humanas! Muitas, muitas raparigas, casam sem ser virgens, e isso, apezar de sabido, não escandalisa.

A Maria-da-Fonte tornou-se o symbolo dos protestos populares. A imaginação collectiva, provou ter ainda plasticidade bastante para crear um mytho, uma fada, Joanna d’Arc anti-doutrinaria.[31] O heroe da revolução minhota devia ser uma mulher, não um homem; devia ser desconhecido, lendario: antes um nome do que uma pessoa verdadeira. Na Bretanha, os casos de Paris em 48 eram assim explicados: um grande guerreiro le dru Rolland (Ledru-Rollin) saíra a campo para libertar a fada La-Martyne (V. Michelet, Revol. franc.) Os minhotos, affins dos bretões, crearam um heroe feminino—guerreiro temivel que iria a Lisboa bater esses tyrannos do sul conhecidos ainda hoje sob o nome de senhor-Governo: um monstro mais ou menos definidamente humano!