Entretanto, parece que de facto houve uma certa Maria-da-Fonte que soltou o primeiro grito da sedição. A rebeldia, fomentada pela nova legislação, declarou-se perante os excessos dos tyrannetes locaes, bachareis enviados para o campo o ganhar jus a um logar no parlamento ou nas secretarias. Um d’esses chegára a ferir com um guarda-sol o pequeno de um lavrador, e o pae foi á torre da igreja e tocou a rebate. Acudiu povo, quiemou os archivos, as papeletas da ladroeira, dando «Morras» aos dois Cabraes, (D. João de Azevedo, Os dois dias de outubro) e marchou sobre Braga. (Macedo, Traços) Nas villas e cidades a tropa levava a melhor, porque o numero vale ahi pouco e muito as armas: eram fusilados á queima-roupa. Mas nos campos podiam tudo: se a tropa viesse, abafavam-na. Nem tinham espingardas, nem polvora: só cajados, foices, machados, chuços, e era o bastante. Na Senhora-do-Allivio reuniram-se mais de dez mil. (Ibid.) E os padres e os fidalgos applaudiam, incitavam: o conego Montalverne, o padre Casimiro, o padre José-da-Lage, e os Costas, o Peso-de-Regua, o Balsemão. Os fusilamentos, os confiscos, as prisões, toda a pasta draconiana de José Cabral, do Porto, era inutil: via-se a fragilidade da força cabralista.
Do Minho, a sedição lavrou, perdendo o caracter popular, tomando um caracter militar e politico. A Maria-da-Fonte ficava na sua aldeia: apenas o nome, como um ecco ou um rotulo, ia de um lado a outro do reino. Por toda a parte nascem logo Juntas. Toda a força do rei-do-norte estava na divisão do Vinhaes; e quando o general, bandeado ou commovido, lhe disse que não bateria no povo, o rei emalou os papeis, fugiu do Porto, abandonando tudo. (Ibid.) Do Minho a revolta, galgando o Tamega, encontrou em Traz-os-Montes o conde de Villa-Real para a commandar e os Carvalhaes para a fomentar. As authoridades, corridas, foram fechar-se na praça de Chaves, sob a protecção do Vinhaes que passou para os do povo e lhes entregou a villa. Appareceu um programma: era a voz, o grito, a reclamação da Maria-da-Fonte? Não; era, apenas uma combinação de politicos moderados, que nem sequer exigiam a restauração do setembrismo; que apenas reclamavam a dissolução das côrtes, a queda do ministerio, a organização da guarda-nacional, e a revogação da lei do imposto de repartição (19 de abril de 45) da reforma da magistratura (1 de agosto de 44) e da lei de saude. (26 de novembro de 45) (V. Ignacio Pizarro, Memor. de Chaves) No Porto governava uma JUNTA, e a Extremadura, sob o commando de Manuel Passos, tinha em Santarem uma capital patuléa. Outro já, com sezões e desilludido, o Passos de agora apenas reclamava a demissão dos Cabraes: a sua JUNTA dava vivas a «todo o existente». (V. a Proclam. da Junta de Santarem) De um movimento popular espontaneo formara-se uma sedição politica; e a fraqueza doutrinaria dos politicos coalisados via-se n’este momento em que, omnipotentes, reduziam a grande revolução á condemnação pessoal de um homem. Expulso elle, conservar-lhe-hiam as obras, porque nada melhor podiam pôr em seu lugar, caso as supprimissem. Singular revolução, de que os chefes são logo os suffocadores!
Mas em Lisboa, no paço e no governo? O destino fatal dos audazes sem apoio, dos que, arrastados pela consistencia dos seus planos, imaginam que planos bastam para crear elementos de governo; dos que embriagados pela força e pela vida propria não observam a inercia alheia que só pede socego e atonia e por isso é a primeira a renegar as temeridades, as ousadias; o desejo de ser e mover-se; o fatal destino dos audazes n’uma sociedade cachetica, perseguia o temerario ministro. O seu edificio abria fendas por toda a parte. Os que o seguiam por convicção entibiavam; os que iam por interesse, fugiam, renegavam; os fanaticos começavam a descrer, desde que viam sossobrar o homem forte; a clientela dispersava, o exercito bandeava-se, a banca-rota batia com a mão descarnada á porta dos templos da nova religião do Dinheiro.
Os Cabraes pediram a sua demissão á rainha. Batiam, arrependidos, nos peitos, confessando o erro da sua audacia, os crimes do seu governo excessivo e tyrannico? Não. Elles eram ambos feitos de ferro e fórmulas: homens que cáem, mas não se curvam. Duros beirões, faltava-lhes a humanidade sincera e bondosa, que se torna em scepticismo no decaír da vida—a humanidade de um Passos—sem terem tampouco as manhas beiroas dos descendentes de Viriato, á maneira de Rodrigo. Caíam, porque o exercito faltara; caíam porque houvera um terramoto e abatia-se-lhes o chão debaixo dos pés; caíam porque os derrubavam e não porque descessem. Caíam porque «o presidente do conselho e ministro da guerra e como tal commandante em chefe do exercito, no momento em que deviam desenvolver-se as forças do dito exercito, declarou não ter força e que o unico meio de debellar a revolta era a prompta demissão do ministerio». (Manif. de Cadix, 27 de maio de 46) Para que tinham arrastado o molle, caprichoso, aristocratico duque da Terceira a emprezas arriscadas? Elle não tinha opiniões, e por isso não percebia o valor d’ellas para os outros. Achara excellentes os Cabraes, emquanto vira n’elles penhores de ordem; mas, doutrinarios atrevidos, bulhentos, opiniosos? Nunca. Porque não tinham os ministros preferido Saldanha, mais homem, mais denodado, menos escrupuloso, e, por genio, tão amigo das aventuras quanto o collega o era da placidez bem ordenada?
Assim renegados por todos caíram os Cabraes, (20 de maio) fugindo do reino para Hespanha, homisiados como réus. Em tal passo a rainha não via para onde voltar-se. Entregaria o governo á Maria-da-Fonte? Mas a lavradeira de Lanhoso não chegára a Lisboa: vieram apenas o nome e os manifestos das JUNTAS. Eram elles o manifesto do povo? Não eram. O povo só manifestára horror a enterrar-se nos campos, recusa a pagar a decima, e odio aos tyrannetes cabralinos. Mas nada d’isto podia fazer um plano de governo novo, e uma novo experiencia de liberalismo. As opposições, coalisan-do-se, tinham em parte abdicado. O miguelismo resuscitava, dando as mãos aos radicaes no fôro dos partidos e pelos confins das provincias. No norte do Douro, na Beira borbulhavam esperanças; em Evora «o espirito dos seus habitantes he miguelista ou setembrista», diz o coronel do corpo em officio para o general da divisão. (Corr. autogr. de Rezende) Que sorte podia ser a da revolução, imagem de Jano, olhando para um passado perdido e para um futuro chimerico? Mas que sorte esperava a rainha depois da ruina d’essa cohorte com que se tornára solidaria? Não havia no horisonte politico sol novo para adorar; mas havia por detraz do throno tres astros mais ou menos embaciados, porém ainda utilisaveis. Façam-se ministros os tres chefes: Saldanha, Terceira, Palmella. Era o expediente mais acceitavel; embora o primeiro, que andava por fóra, em Bruxellas, não quizesse intervir. (Carnota, Mem.)
Porém as JUNTAS acreditavam que tinham vencido, e o setembrismo chamava sua á Maria-da-Fonte, reclamando os despojos da guerra. Palmella, por seu lado, queria voltar á ordem de 38, continuando em 46 a historia interrompida pelo episodio cabralino: alastrou pois o gabinete com elementos ordeiros. (Mousinho-d’Albuquerque, Lavradio, Soure; 26 de maio) Terceira retirou-se. Restaurada a ordem, o reino foi dividido em tres circulos, cabendo o do norte ao visconde de Beire, o do centro a Rodrigo, o do sul ao ministro Mousinho. A Revolução de Setembro, escarnecendo, chamava a isto a divisão do imperio romano (7 de junho); e as JUNTAS, vendo empalmada a que suppunham victoria sua, protestavam sem desarmar. Em vão o governo se cansava, distribuindo calmantes em circulares mansas e sensatas, cheias de uncção e esperanças, chamando o povo a decidir dos seus destinos na proxima urnada livre. Em vão chamava para casa os emigrados de Torres-Novas, fatigando-se a mostrar que todo o mal vinha dos Cabraes, agora expulsos. Os emigrados, recordando 38, com José-Estevão á frente, entraram como em triumpho, desde a fronteira até Lisboa. (Oliveira, Esboço hist.) Traziam a paz? Não; a guerra, cantando:
Se é livre um povo, não tolera, quebra
De Neros as correntes!