Neros eram os Cabraes, mas não menos o era Palmella, com as suas branduras, impedindo a victoria da democracia. Estava-se outra vez em 38: mas porque motivo se restaurara a CARTA, senão porque a ordem de Bomfim-Rodrigo era uma desordem insupportavel? Estava-se outra vez em 38: mas acaso então a democracia annuira? Como annuiria pois agora? Os jornaes vermelhos protestavam contra a paz; as JUNTAS não desarmavam, por não quererem perder uma victoria que julgavam sua.
Parece que o governo fez pacto com o diabo e que forceja por conservar nos commandos homens nos quaes o povo não confia nem póde confiar. (Revol. de Set. 3 de junho)
Os militares não querem as demissões? Leve-lh’as o ministerio escriptas em sangue. O throno não quer abraçar deveras o povo? Pois retire-se o ministerio do seu lado. E se a côrte vier depois para nos abrir os braços. Já temos a resposta prompta,—é muito tarde! (Grito Nacional, 5 de junho)
Vida nova! Começar outra vez! Côrtes constituintes! eis ahi o clamor de toda a esquerda, julgando-se o ecco do povo, a voz da Maria-da-Fonte, vencedora contra o throno, contra os Cabraes, contra a ordem. Palmella, oscillando, bolinando, na sua esperança de fundar as cousas sobre o equilibrio, metteu novo lastro no governo, lastro mais setembrista—Sá-da-Bandeira, Julio Gomes e o antigo Aguiar. Estavam satisfeitos?
A muito custo de rogos e promessas se conseguira o desarmamento das JUNTAS. No Porto as authoridades foram de chapéu na mão pedir por favor ás forças populares que debandassem; e em Santarem viu-se difficuldade ainda maior, mais graves perigos. Os patuléas, em vez de reconhecer o governo, queriam marchar sobre Lisboa e leval-a de assalto. O bom Passos levantou-se da cama onde curtia a febre das sezões ribatejanas, teve de montar a cavallo acompanhado pelo Galamba, para cortar o passo ás forças que, depois de se armarem nos depositos arrombados, iam já em Villa-Franca. (Macedo, Traços) O desilludido tribuno chorou, pediu, rogou, e o seu prestigio antigo salvou Lisboa da invasão. No meado de junho as JUNTAS estavam dissolvidas: no meiado de julho (19) entravam os setembristas no gabinete. Equilibraram-se as cousas, renasceu a ordem, sellou-se a paz? Não; ninguem o creia. Como póde haver paz quando não ha pão? quando a capital e o reino ardem n’uma crise? quando a agiotagem intriga para se salvar do naufragio? De certo se não acertou com a verdadeira estrada: ha que voltar ao ponto de partida.
Qual? O radicalismo do Sacramento diz que a Maria-da-Fonte quer liberdades e constituintes. Os conservadores, os agiotas no Banco dizem que o reino e a riqueza querem CARTA e cabralismo. Qual dos dois levará a melhor? Nenhum; e só depois de terminada a guerra que vae começar, a liberdade reinará sobre o vasio das idéas, com o absolutismo dos interesses.
NOTAS DE RODAPÉ:
[29] V. Hist. de Portugal, (3.ª ed.) II, 176-8.
[30] V. As raças humanas, I, pp. 197-213.
[31] V. Syst. dos mythos relig. XVII.