III
A GUERRA CIVIL
1.—O 6 DE OUTUBRO
N’este dia, pelas dez da noite, a rainha chamou ao paço o duque presidente do conselho, e fechando-o por sua propria mão n’uma sala obrigou-o a lavrar o decreto da sua demissão e o da nomeação de Saldanha. Era uma segunda Belemzada? Era; menos Passos e a guarda-nacional, menos Van-der-Weyer e os soldados inglezes. A educação liberal progredira a ponto de crear entre os politicos um partido de absolutismo e de reduzir á impotencia a soberania nacional. Era outra Belemzada, e a desforra de Ruivães; porque aos marechaes vencidos em 37 confiava a rainha agora a defeza do seu throno. Saldanha presidia o governo, Terceira ia para o norte socegar o Porto (8) depois da parada da vespera no Terreiro-do-Paço, onde a tropa acclamára a CARTA. Estava definitivamente acabada a Maria-da-Fonte, restaurado o cabralismo, mas sem Cabraes apparentes. Saldanha encarregara-se de lhes obedecer no que mandassem: e de os defender e rehabilitar até dar tempo a uma repatriação por emquanto prematura. Desde largos annos, dez ou onze, que o marechal descera a não poder servir para mais do que para instrumento da politica alheia.
Depois das suas campanhas diplomaticas de Londres e de Madrid (emquanto durou o incidente irritante da navegação do Douro), o marechal, desnecessario e incommodo, tinha sido enviado para Vienna no outomno de 41 a gozar os ocios de uma espectaculosa embaixada. A rainha e os seus confidentes tinham-no lá de reserva para o momento em que fôsse necessario, quando em 42 a restauração da CARTA provocou a scisão do cartismo. Contra os Cabraes, inclinando para o setembrismo com o qual vieram a colligar-se, os ordeiros (Rodrigo, Palmella, Silva Carvalho, etc.) preparavam com intrigas as desordens que os radicaes forjavam em Torres-Novas e Almeida. Em Vienna, o marechal applaudira a restauração da CARTA; e sendo embaixador portuguez, era o confidente do Paço que tinha Dietz por orgão: «O paiz inteiro está tranquillo e detesta—á excepção de alguns velhacos ou doidos—a revolução que vegeta em Almeida. (27 de março) Se as intrigas de Palmella e Silva-Carvalho não tivessem vindo naufragar perante a firmeza de S. M. a rainha e perante o bom-senso da nação, estariamos já a caminho de entregar o poder aos setembristas e de vêr reinar em breve tempo Bomfim, Cesar e C.ª» (25 de agosto de 44. Cartas de Dietz a Saldanha; em Carnota, Mem.)
O pobre marechal ia servindo. Em Lisboa receiavam que elle voltasse, e que, dando ouvidos, como sempre dava, ás tentações da lisonja, viesse complicar mais as questões com o seu genio aventureiro, o seu prestigio militar e uma provada nullidade politica que o entregava áquelle que melhor o soubesse assoprar. «Fique onde está, escreviam-lhe de Lisboa, porque penso que ainda hade ter de salvar a rainha de ser posta pela barra fóra». (Carta de Reis e Vasconcellos, 9 de março de 46; em Carnota, ibid.) A Maria-da-Fonte rebentou quando Saldanha se achava na Belgica. Com os annos, as raizes catholicas do seu genio reverdeciam e entretinha-se a ouvir sermões em Liege, opinando entre o merito relativo dos prégadores. (Ibid.) Desde Vienna que trazia em plano uma grande obra: a concordancia das sciencias com os mysterios da religião, e o alcance do seu espirito vê-se n’estas linhas escriptas ao futuro cunhado, para Inglaterra: «Peço-lhe que indague ahi quaes são os melhores authores, antigos e modernos, que tém escripto sobre a existencia de Deus e a immortalidade da alma; quaes d’essas obras se pódem obter e seus preços». (Carta de 31 de maio de 46, ap. ibid.) Já então Portugal ardia em guerra, e Saldanha deixou a sciencia pela politica: valiam ambas a mesma cousa! Embarcou em Inglaterra, chegando a Portugal a 23 de julho.
Quem o conquistaria? Palmella com o seu governo? Os radicaes? O paço? Facto é que todos o queriam, todos o adulavam, todos lhe chamavam salvador da patria, homem unico, arbitro, etc.; e o marechal, inchado, não era capaz do medir o seu valor, nem de aferir a verdade das adulações. Ao mesmo tempo que cada qual o queria ganhar a si, todos receiavam as tentações alheias, por bem conhecerem com quem tratavam. A rainha déra ordem para que de bordo fosse directamente ao paço, «sem falar a ninguem antes». (Carnota, Mem.) Elle foi, e conta (Curtissima expos. etc.) que a rainha o advertira dos planos dos cabralistas, dissuadindo-o de tomar a direcção do movimento que se preparava contra os actos de maio e junho, passo que, na opinião d’ella rainha, augmentaria em vez de diminuir as desgraças da patria.
Saldanha principiou, pois, por não ouvir os pedidos dos cabralistas que renegavam os Cabraes por terem fugido (O d. de Sald. e o c. de Thomar, anon.) Depois mudou: a rainha mudou tambem. Agora Leonel e os setembristas queriam seduzil-o; Palmella chegou a obter d’elle annuencia para a expulsão dos Cabraes do Conselho d’Estado; mas, pelo fim de agosto, já o marechal se entendia com Gonzalez Bravo, alter ego de Cabral em Lisboa. O seu amigo Howard, embaixador da Inglaterra, advertia o particularmente, como a uma creança tonta: for God’s sake, be cautious!—tenha juizo, pelo amôr de Deus! (Carta de 29 de agosto; em Carnota) A Inglaterra não approvava de modo algum a restauração cabralista projectada; e foi o que se viu claramente no decurso da guerra. A preponderancia da influencia franco-hespanhola em Portugal não lhe convinha.
Entre as varias tentações com que o disputavam, levou por fim a melhor o cabralismo. Em 24 de setembro acceitou a presidencia d’esse partido; e de Madrid, o conde de Thomar confessou-se-lhe obediente soldado. Com a sua fôfa basofia, Saldanha, ingenuamente pacifico, propôz a Palmella um ministerio de conciliação. Pois se elle em pessoa, elle, o grande marechal, queria a paz e se lhe sacrificava,—elle o arbitro, elle o tudo! Pobre infeliz que não via em si aquelle tronco de que José Liberato nos falou! Pobre simples, sem talento, de que a anarchia apenas fazia um chefe—como a cortiça que tambem boia e corre sobre a agua revolvida! Palmella recusou; e então o marechal sentiu o passo que déra e como estava obrigado a ir até ao cabo, a representar o papel para que, sem o saber, desde muito a rainha o escolhera: seu marechal, d’ella e do conde de Thomar.
Era indispensavel outra Belemzada; e Saldanha que assistira á primeira, receiava-o. No paço estavam elle, a rainha, o esposo, o padre Marcos e Dietz: n’essa conferencia, a soberana expôz o seu despeito e o sue plano. Saldanha observou a S. M. que se não fôsse bem succedido e não morresse na empreza, seria inevitavelmente fusilado, e ella, a rainha, expulsa do reino. O professor objectara ser n’esse caso melhor pôr de parte o projecto, ao que a rainha, voltando-se para o marechal, retorquira: «Deixa o lá; manda-o para um convento de freiras. Antes quero perder a corôa do que seguir sendo insultada todos os dias. Se fôr necessario, tambem eu sairei, tambem irei ás barricadas». (Carnota, Mem.) Pittoresco esboço de uma scena da Edade-media!