Terceira, porém, não era como Saldanha. Na sua mansidão era grave, e serio na sua curta capacidade. Aristocrata por temperamento e educação, estivera em 23 ao lado do rei, contra as côrtes jacobinas; mas desde que mudara em 26, conservou-se o mesmo sempre. Bondoso e pacato, brioso e valente, nada chimerico, amando a boa-vida e o cumprimento dos deveres, não era odiado pelos inimigos, embora fôsse o apoio mais seguro do throno liberal. E mais seguro, dizemos, porque a sua adhesão não proviera em 26 de uma opinião favoravel á doutrina da CARTA: opinião que teria mudado sem duvida, como a tantos outros, a todos, succedeu.
A sua adhesão provinha de uma preferencia pessoal por D. Pedro, de quem se sentia o vassallo, o homem-ligio: para onde o imperador fôsse, ou a rainha sua filha e herdeira, ia elle. De doutrinas não sabia; tinha só instinctos, sentimentos, e esses eram aristocraticos e conservadores; nem podiam ser outra cousa, com a linhagem, o temperamento e a educação do duque. O constitucionalismo, e as suas fórmulas e discursos, eram apenas uma distracção e um habito do seu genio: custar-lhe-hia a viver sem o systema representativo, porque o entretinham muito os debates da imprensa, as discussões do parlamento, e não podia passar sem as conversas animadas e ás vezes chistosas dos corredores da camara. (Macedo, Traços) Cortezão, homem-do-mundo, era um personagem das antigas côrtes arrastado para a vida do liberalismo burguez pela fidelidade ao suzerano.
Se a demagogia o irritava, provocando n’elle um odio desdenhoso, o das Archotadas, o dos tumultos de Lisboa em 35, etc., a burguezia de petulantes parvenus provocava-lhe uma frieza ironica. Assim, repellira os Cabraes do governo, negando-lhes o exercito contra a Maria-da-Fonte; mas logo se retirou tambem, por não ter aquelle desejo pueril de Palmella de não ficar de parte. Não pactuaria com os patuléas como o diplomata pactuava com elles, com todos, com o diabo em pessoa, a ver se conseguia equilibrar um throno, ou um monte de degraus desconjuntados, para sobre elle reinar com a sua moderação e a sua sabedoria. Vendo-o assim descer, inclinar-se para a democracia clamorosa, Terceira naturalmente se arrependeu do acto de abandonar os Cabraes á condemnação popular e de certo as combinações que tinham precedido a «revolta dos marechaes» (37) se renovaram para uma outra aventura. Mas os conservadores tinham feito dos Cabraes mais do que chefes, uma bandeira, e não viam no seu gremio pessoas que, em talentos, em coragem, em audacia, podessem medir se com elles. (Macedo, Traços) Os Cabraes estavam em Hespanha, onde tambem reinava o cabralismo da união-liberal, e de accôrdo com o reino visinho, podiam suffocar-se de uma vez a demagogia e o miguelismo que ameaçava levantar cabeça. Costa-Cabral governaria de fóra o barco n’esta sua nova derrota, Saldanha ficaria em Lisboa, Terceira iria para o norte.
E a rainha? Que papel era o seu, n’esta segunda aventura, já o vimos. Não só apoiava: instigava, ordenava. Não tremia jogando talvez a cabeça, decerto a corôa, porque tinha coragem para tanto; porque essa corôa estava, ou pensava ella estar, em maior perigo, antes, do que depois do golpe-d’Estado. Se se não pozesse cobro á demagogia—e Palmella não queria, não sabia, ou não podia fazel-o!—a historia precipitar-se-hia; e devemos lembrar-nos de que as recordações dos casos de Paris e da sorte de Luis XVI, que por falta de audacia morreu, davam fundamento á resistencia. A rainha, por não ter a perfidia de um Luis Philippe, não podia sophismar o systema: atacava pois de frente, com audacia viril, á portugueza. Filha de reis, fôra educada por mestres que lhe ensinavam o cabralismo como a expressão pura do systema liberal. A sua sinceridade nobre não pretendia ao absolutismo antigo, mas queria a doutrina da CARTA de seu pae, repellia com energia os ataques da patuléa reproba, pé-fresco, ataques dirigidos ao seu caracter soberano e á sua honra de mulher.
Havia pois uma guerra declarada entre a rainha e o povo, assim a patuléa se dizia. O hymno da Maria-da-Fonte cantava-se com uma lettra francamente denunciadora do estado dos animos:
Apprende, rainha, apprende
Mede agora o teu poder:
Tu de um lado, o povo d’outro,
Qual dos dois hade vencer!