Mas esse sentimento propagado da hostilidade da corôa, sentimento que ganhara raizes com a violencia e os crimes do governo cabralista; essa percepção vaga de um direito novo, de facto opposto ao direito sagrado dos monarchas, quando queria transformar-se em opiniões e programmas, só produzia as antigas chimeras jacobinas, desacreditadas; e se, por um dos acasos da lucta conseguia vencer, era derrotado pela força das cousas (como em setembro), dessorando-se logo na mão dos mediocres (como em 38 e agora), para se entregar á moderação palmellista. A doutrina liberal achara em Cabral um homem; a doutrina democratica não o achava, não o podia achar, porque longos annos, ainda não decorridos, seriam necessarios para chegar a definir os principios organicos do direito novo.
Os programmas dos democratas em 46 eram uma repetição de Setembro, já renegado pelo seu homem eminente, Passos; e com razão se previa que a dictadura de José-Estevão não seria mais do que a repetição aggravada das scenas anarchicas de havia dez annos. Que pediam, do seu club do Sacramento, José-Estevão, Foscôa (Campos), Sampaio e os socios, na vespera das eleições independentes annunciadas por Palmella do governo? Constituinte! a antiga panacéa setembrista: mas—oh, fatal condição das chimeras!—os que exigiam uma constituição nova, saída da vontade do povo, iam ao mesmo tempo dizendo já qual essa vontade havia de ser, e o que a constituição havia de fixar: «Proclamação da soberania nacional como fonte de toda a authoridade;—Reforma da camara dos pares;—Eleições directas;—Liberdade de associação e de imprensa;—Approvação dos contractos pelas côrtes;—Reorganisação da guarda-nacional;—Economias na despeza até equilibrio do orçamento;—Reducção do effectivo do exercito;—Suppressão do conselho-d’Estado;—Fomento industrial e economico;—Reforma da lei da regencia, para que esta não possa recaír em extrangeiro, embora naturalisado;—Exame dos contractos desde 42 e abrogação dos illegaes;—Nacionalisação do pessoal da casa real;—Prohibição dos deputados receberem empregos ou mercês». (V. o Manif. da Ass. eleit. setembr. 5 out. 46)
Era um rol de receitas infalliveis: a patria seria, sem duvida alguma, salva. Mas quem analysar, cada uma de per si, as propostas, e todas no seu conjuncto, obtem uma impressão singular. Não tornaremos a falar já da contradicção organica indicada antes; não entraremos no minucioso estudo do papel. Acima de tudo, vemos: constituintes, eleições directas (mas que o governo não possa comprar esses soberanos representantes do povo soberano!) e guarda-nacional, isto é, a volta a 1836. Ora os dez annos decorridos e as confissões do proprio Passos não seriam uma resposta cruel a tribunos tão ardentes, mas tão pouco originaes? A precipitação com que as cousas, entregues ás mãos já trémulas de Palmella, iam pendendo para o lado da revolução, é um dos motivos da decisão tomada em 6 de outubro; mas no programma do Sacramento lemos items que obrigam a scismar: Fomento economico? Economia na despeza? Exame dos contractos?—Que intervenção é esta da finança nos projectos dos ideologos, tão mal conceituados fazendistas?
É que a solução violenta de 6 de outubro foi tambem determinada pelo crescer da crise. A Maria-da-Fonte declarara-a; e os seus ministros nem a sabiam resolver, nem podiam com os agiotas, suzeranos do Thesouro, ameaçados de uma ruina total. De abril a junho o 5 por cento baixava de 67 a 50 e com elle, na mesma razão, todos os papeis de bolsa. Tres dias depois da queda de Costa-Cabral, declarava-se o curso forçado das notas do banco. (Dec. 23 de maio) Houvera uma corrida, e os cofres ficaram vasios: todo o producto da emissão, e mais ainda, estava no Thesouro. De tal fórma se tinha mascarado por quatro annos a sua penuria: fôra como uma restauração de papel-moeda; e agora, decretado o curso-forçado, era de facto outra vez a praga que 34 quasi supprimira. Mas se o Banco era credor do Thesouro, e o Thesouro lhe não podia pagar, que havia de fazer o governo? Importar dinheiro? D’onde? com quê? Pedil-o aos agiotas? Elles, em vez de darem, pediam, reclamavam, e obtinham tambem uma moratoria para as promissorias da Confiança, que de outra fórma quebraria. (Dec. 29 de maio) Tambem o dinheiro d’ella fôra todo parar ao insaciavel Thesouro portuguez faminto, desde 1820 até hoje, e talvez para todo o sempre condemnado á fome.
E a Maria-da-Fonte, a que reclamava em programmas o exame dos contractos, era a propria cujos ministros aggravavam a crise, tornando solidarios o Banco e a Confiança, preparando a ruina já começada da emissão fiduciaria portugueza. E porque? Porque esses ministros, e todos, eram forçados a obedecer á aristocracia nova creada pela liberdade: com a differença de que uns a reconheciam, e outros, nem por se rebellarem contra ella, eram menos os seus servos. Em 15, o 5 por cento ainda valia 62; depois do decreto de 29 desce a 50. Nos primeiros dias de agosto as notas rebatem-se a 400 e 480 rs. (V. Boletins da bolsa, nos Diarios)
Os financeiros perdiam-se, olhando o Thesouro vasio; e sob o nome de economias decretavam uma banca-rota duas vezes má: porque rematava a crise, acabando de arruinar o credito; e porque cerceava os vencimentos dos empregados, sem ficarem com isso habilitados a pagar o resto dos juros, nem dos ordenados. A divida interna, já com o desconto de uma decima, recebia segunda; e duas de uma vez a externa. Perdida a esperança de emprestimos extrangeiros, podia-se, com effeito, cortar as unhas aos judeus de fóra. Ao mesmo tempo, os empregados soffriam uma deducção de duas decimas. (Dec. 21 de agosto) A bolsa fecha: não ha quem dê um real pelas inscripções; (18 agosto-setembro) e o rebate das notas cresce, cresce sempre. Já tinham expirado as moratorias e, como expediente, prorogaram-se por mais quarenta dias. Os tortulhos nasciam da crise: agiotava-se largamente em rebates.
E não se via o meio de saír dos embaraços, porque as declamações contra os Cabraes nada faziam; e a victoria do setembrismo, com as suas chimeras de rectidão, com a sua incapacidade financeira, não conseguiria nas eleições proximas senão queimar tudo ... E depois? depois?... D. Miguel? A Hespanha? A cabeça andava-lhes á roda.
Em 1 de outubro uma medida rasgada, acompanhada de conselhos prudentes e exortações patrioticas, appareceu no Diario. As moratorias, o curso-forçado das notas prorogavam-se até ao fim do anno. Mas descancem: não haveria mais agiotagem, porque o governo punha um fiscal seu no Banco, e n’esses tres mezes ia arranjar-se o dinheiro para lhe pagar, e elle então pagar as notas. Com a Caixa de amortisação, creada na Junta, solver-se-hia a divida fluctuante, ominoso legado cabralista. Essa caixa havia de encher-se depressa: adjudicavam-se-lhe os bens-nacionaes ainda restantes e o que fôsse rendendo a cobrança das dividas activas dos conventos! e os impostos em debito até 41! e os juros de quaesquer inscripções amortisadas! e uma dotação annual de 100 contos sobre o rendimento das Alfandegas. (Dec. de 1 de outubro) Os cem contos ao anno não davam para o juro de uma divida superior a vinte mil: tudo o mais eram palavras ou poeira, a vêr se cegavam a vista dos crédores.
Baldado empenho, que só deu de si pôl-os decididamente do lado da reacção tramada, uma vez que a fraqueza palmellista não era capaz de resolver uma crise, na qual tinham as fortunas arriscadas. Ao lado de Saldanha com a sua espada, estavam elles, pois, com as suas bolsas. Passou o dia 6 de outubro; ganhou-se a victoria: mas deram todos com inimigos imprevistos. Protestava, insurgia-se o reino inteiro—e o rebate das notas, subia, subia! Em vez da paz, era a guerra; em vez da fortuna, a ruina total. Saldanha desembainhou a espada; os agiotas mostraram os dentes: multado em 50 a 500 mil réis quem recusar receber notas! (Dec. 14 de nov.) Mas como impedir a subida dos preços? Mas como usar da espada, se Antas no Porto se bandeou? Os capitalistas apressaram-se a exigir as arrhas da sua adhesão; e a 19 appareceu decretada a fusão do Banco e da Confiança: complicada, aggravada a crise com um negocio em que a agiotagem salvava os seus capitaes, abrigando-os á sombra do curso-forçado permanente de 5:000 contos outorgado ao novo banco, verdadeiro papel-moeda que valeria para a totalidade dos pagamentos até junho de 47 e para dois terços até ao fim de 48, devendo ir sendo amortisado gradualmente n’esse periodo. (Dec. 19 de novembro) As acções da Confiança triplicavam de valor, e as notas baixavam sempre. A agiotagem déra o seu golpe-d’Estado, salvando-se para arruinar a nação: mais feliz do que os politicos, a ponto de irem a pique no naufragio do paiz.