Saldanha, ou antes Cabral, de quem elle era o homem-de-ferro, contara com a resistencia do reino e prevenira-se.
Estou persuadido de que a ultima repentina mudança da administração em Portugal foi em parte levada a effeito por conselhos de Madrid, e que o marechal Saldanha tem estado, sem o saber, servindo de instrumento para pôr em pratica os planos do conde de Thomar e de Gonzales Bravo, nos quaes me parece que uma influencia hespanhola e uma união intima dos governos de Madrid e de Lisboa para o futuro se apresentam como causas principaes. (Southern a Palmerston, 22 de out. Livro azul)
A Hespanha, com effeito, representava n’esta segunda Belemzada o papel que a Belgica e a Inglaterra tinham tido na primeira; e o ministro inglez de Lisboa só se enganava suppondo Saldanha ignorante dos planos do conde de Thomar, de quem elle era o instrumento. Os acontecimentos precipitaram-se, pondo a claro a verdade, e collocando a Inglaterra na posição falsa que durou até ao fim, de não tolerar a intervenção da Hespanha, sem poder deixar de acudir a sustentar o throno da rainha, mas sem se convencer tampouco de que esse throno perigasse com os ataques setembristas. Restaurou-se todo o antigo pessoal administrativo e militar cabralista, annullou-se a convocação das côrtes pelas eleições directas, e o rei D. Fernando tomou o commando em chefe do exercito, que tinha de entrar em campanha.
O Porto rebellava-se com a divisão de Antas, prendendo o proconsul Terceira ahi mandado; mas pedindo apenas, moderadamente, a demissão do ministerio. Porém ao mesmo tempo as proclamações circulavam em Lisboa, respondendo á da soberana n’estes termos:
Povo portuguez! A revolução do Minho, a revolução mais gloriosa da nação portugueza foi trahida pela Soberana! Não a acredites! Olha que ella mente como sempre tem feito!
Povo portuguez! Olha que a rainha, chefe do Estado, que devia ser a primeira a respeitar a opinião dos povos, com as palavras de paz na bocca e veneno no coração, saíu para o meio das ruas da capital e poz-se em guerra declarada com a nação! Não contente com o sangue e ossos de que é composto o seu throno, ainda continua a fazer mais victimas—ainda este vampiro quer mais sangue!—é a paga que este tigre dá ao povo infeliz que lhe deu um throno!
Povo portuguez! Tu nada lucras em conservares no teu seio esta vibora—ou ella hade respeitar os teus direitos ou então que tenha a sorte de Luiz XVI—este porém foi menos culpado!
Povo portuguez! A tua rainha diz que quer paz, mas consente que os janisaros assassinem e roubem, como o estão fazendo.
Povo portuguez! Ás armas! Senão serás fusilado ou deportado! Viva Portugal! Ás armas! e seja o novo grito de guerra: Viva D. Pedro V! (ap. Livro azul; corr. 11 out.)