Em Coimbra, Loulé, governador civil, ao saber do golpe d’Estado, rebella-se, proclama, reconstitue o batalhão academico. Foi isto a 8; no dia seguinte Aveiro segue o exemplo. Campos, no Grito nacional, dizia claramente:
Ha poucos dias arrojámos dois (traidores sc. Cabraes) pela barra fóra: pódem ir mais alguns. Marche todo o paiz a Lisboa e esmague a cabeça da hydra (a rainha?) se quanto antes a facção parricida não esconder a sua vergonha nas ondas do oceano.
A guerra estava formalmente declarada: chegava o momento de appellar para as prevenções tomadas. Saldanha, então, officiou, pedindo a intervenção aos governos de Londres, Paris e Madrid, segundo o tratado de 22 de abril de 34, allegando que os miguelistas saíam a campo. (Relat. do min. neg. estr. em 48) De Madrid estava certo, e os hespanhoes mandaram logo um corpo de observação para a fronteira; (Ibid. off. de Isturiz a Renduffe) mas a Inglaterra, não vendo miguelistas, queria impedir a intervenção hespanhola e forçar a rainha á paz. Em toda esta historia ver-se-ha a funesta consequencia de uma tal politica, protrahindo uma guerra desoladora; porque, se a Inglaterra não queria consentir na intervenção da Hespanha para dar a victoria á rainha, tampouco intervinha para impôr uma conciliação. Nós, em casa, evidentemente não tinhamos força para nos governarmos: e depois de doze annos de liberdade, o Portugal novo achava-se, como o antigo se achára, dividido em duas fracções sem que nenhuma tivesse poder bastante para submetter a contraria.
Palmerston ordenava para Madrid ao seu delegado que não consentisse na intervenção; (Livro-azul P. a Bulwer, 5 nov.) e para cá mandava-nos um coronel, o Wylde, afim de negociar uma paz entre os belligerantes. Melancolica situação antiga em que nos achavamos, de que a liberdade nos não tirava ... Costa-Cabral já era nosso embaixador em Madrid, e a Hespanha, de accordo comnosco, procedia bizarramente, apezar de soffreada pela Inglaterra. Mandara para a fronteira um exercito, e enviava para Lisboa trezentos contos: (Ibid. Southern a Palmerston, 22-3 de out.) assim podesse trazer a Lisboa e ao Porto os seus soldados!—suspirava Cabral em Madrid, e na capital Saldanha.
Porque a insurreição lavrava, e para peior, o miguelismo não no pronunciava bastante para justificar a intervenção extrangeira. (Ibid. 22, 3, 9 de out.) As noticias que lhe iam de Lisboa mantinham Palmerston na sua reserva. «Era uma revolução como outra qualquer: o inverso de 42; a propria JUNTA batia os miguelistas, raros e sem importancia». E tudo ardia! as guerrilhas surgiam de todos os lados. O Galamba e o Batalha com 500 homens corriam o Alemtejo; José-Estevão estava em Alcaçovas com 600; (Ibid. 22-3) Taipa e Sá-da-Bandeira no Porto; Aguiar em Coimbra; Mousinho-d’Albuquerque e Bomfim tinham desertado do Lisboa; Antas vinha, caminho da capital, já em Leiria, com 2:500 homens, fóra guerrilhas, devagar, aggregando gente todos os dias. (Ibid. 29) Que seria de Lisboa, a que o inglez não deixava o hespanhol acudir? O governo, entretanto, preparava-se, lançando mão de tudo. Arregimentavam-se os empregados-publicos. Havia rusgas; nas boccas das ruas os cabos de vigia prendiam. Todo o homem de 18 a 50 annos tinha de pegar em armas. Formara-se um batalhão das Obras-publicas, outro do Commercio. Fortificavam-se, artilhavam-se as linhas. O Banco dera 300 contos para acudir ás urgencias. Prendiam-se os suspeitos nos navios no Tejo: todo o setembrista fugia, e Palmella em pessoa estava homisiado.(Ibid. 22-3). Embargavam-se as cavalgaduras e as pessoas, obrigando-as a trabalhar nas linhas.
Mas apesar de tão grandes esforços e de meios tão violentos, o rei D. Fernando, commandante em chefe do exercito, não podia passar revista a mais do 3:000 homens. (Ibid. 29) Que ia ser da rainha, alvo de todos os tiros? Que resultado, o d’essa guerra encetada? Se a Inglaterra não havia de vir a consentir que os vencedores acabassem de vencer, que singular escrupulo a embaraçava?—E se os sublevados não fossem afinal agrilhoados pela intervenção, que teriam feito? Depôr a rainha? É natural. Proclamar uma republica? Provavelmente. Mas nenhum d’esses dois actos destruiria os males constitucionaes do paiz, causa da sua desgraça: nem a anarchia das doutrinas, nem a penuria universal.
2.—A JUNTA DO PORTO
José Passos era o presidente da camara do Porto. Já o telegrapho dissera o golpe-d’Estado de Lisboa, quando em sessão abriu os officios do novo governo, e o aviso da vinda do duque da Terceira. «Vou fazer a revolução!» exclamou, levantando-se e saíndo. (D. João de Azevedo, Os dois dias de outubro, ex. annot. por J. Passos) Chegava ao mesmo tempo (9) ao Douro o vapor com o duque, Santa-Maria, Vallongo e Campanhan, um estado-maior para o exercito do norte. José Passos desceu da Casa-Pia ao Carmo; esbaforido, mandando tocar a rebate, convocando os patriotas ás armas; e feito isto, pronunciou a guarda-municipal e os regimentos 6 e 3. Depois, montou a cavallo, dirigindo-se a Villar, na margem do rio, a receber condignamente o duque já desembarcado. A cidade estava sublevada, a guarnição por ella, os sinos batiam a rebate, o povo borborinhava nas ruas, pedindo armas, e os gritos nasaes da turba destacavam-se no côro do rufar dos sóccos sobre as lages das calçadas. Entardecia: Passos era um rei. O sussurro da agitação ondeava até ao fundo da grota de Villar, a poente da cidade, onde os generaes de Lisboa se tinham recolhido na casa do Conde de Terena, quando, já pelo escuro da noite, o rei do Porto chegou, seguido e acclamado pela sua turba, perante o lugar-tenente da rainha de Lisboa. A cidade não obedecia, rendesse-se o duque. Elle recusava-se, com firmeza, assegurando que cumpriria a missão a que viera. Fóra, o povo clamava, exigindo o reembarque dos generaes para o Mindello que os trouxera. Um certo Navarro subiu, e em nome do povo prendeu o duque.—«Meia duzia de rotos que estão lá em baixo?»—«O bastante para repetir as scenas de Alcantara!» (Ibid.) Passos começou então a perceber que o povo se excederia, que era capaz de trucidar alli o duque, se elle o abandonasse. Tomou-lhe pois do braço e desceram, assim, até ao Ouro, sobre o rio, para embarcar. O duque estava effectivamente preso, e mais enleiado do que elle o seu guardião, defendendo-o contra a plebe ameaçadora. Em uma noite negra e espessa de nevoeiro penetrante que suffocava, alagando. Nada se via; apenas do meio do susurrar da turba já se destacavam, já se repetiam os gritos—mata! mata! Ao longe distinguia-se o rodar breve das seges que fugiam com os timoratos, ouvia-se o rebate desesperado dos sinos; por entre o nevoeiro moviam-se os archotes de lume vermelho, despedindo faiscas e rolos de fumo, pondo manchas de luz funebre na massa espessa e humida do ar. Seguiam pela estrada da Foz: ao lado, no rio negro, fluctuavam os reverberos da procissão que parecia um enterro, ou o levar de um reu ao patibulo. A turba clamava—mata! mata! e as suas ondas cresciam, ameaçando passar por cima dos que iam adiante. Passos que levava o duque pelo braço era corpulento, muito gordo; e o duque, sereno, indifferente ao perigo, quando a onda do povo crescia impellindo-os, dizia-lhe:—«O José Passos é uma formidavel trincheira!» (Macedo, Traços) Assim chegaram á Cantareira, para embarcar; mas o escaler desapparecera. José Passos, receando que o embarque fosse o signal da fusilada, mandara-o embora, projectando já guardar os presos no castello para os salvar. (Disc. do conde das Antas, sess. de 15 fever. 48)
O barco não apparecia; nada vinha do rio, negro e indifferente. Caía a chuva, roncava o mar proximo nos baixios e cachopos da barra, e a furia do povo crescia n’um clamor terrivel—mata! mata! O gordo Passos suffocava: o cordão dos que com elle defendiam o duque, o Browne, os Limas, os dois Navarros, Custodio Teixeira e os mais, continham a custo as ondas do povo. E a chuva fria, miudinha, encharcava, deixando distinguir mal a massa negra dos muros do castello bordados de recifes contra os quaes o mar grunhia: só na densa bruma scintillavam as lanternas entre as ameias, como pharoes a uma tripulação em navio corrido pelo tempo. Dando a pôpa ao vendaval, acossados pelas ondas da turba, batidos pelas rajadas de vozes pedindo morte, foram correndo a entrar no porto de abrigo, dar fundo no castello. O duque estava salvo, e preso. Passos socegado, regressou ao Porto.
No dia seguinte, com a adhesão do general da divisão do norte, o conde das Antas, definiu-se a attitude do Porto sublevado: os extrangeiros que dirigiam a rainha tinham-na obrigado a mudar o ministerio; S. M. estava coacta e era mistér correr ás armas para a libertar.—O programma da nova JUNTA repetia ao avesso o da de 42; e as revoluções liberaes eram forçadas a usar de expedientes antigos de 23 e 24: os expedientes apostolicos. Nada ha novo á luz do sol!