Para libertar a rainha saíu, então, para o sul o conde das Antas com o seu exercito, a juntar-se em Santarem a Bomfim: reunidos salvariam Lisboa. O norte do Douro considerava-se seguro e por isso na urgencia de congregar forças, retiraram-se as guarnições do Minho. Vianna, proclamada a JUNTA, ficara sem tropa: os cartistas aproveitaram. Expulsaram da praça o inimigo e fortificaram-se. Veiu em milhares o povo dos campos dar um assalto, e a cidade capitulou: na refrega ficara morto o tenente que a defendia. Os camponezes enfurecidos—eram quatro mil—pediam vingança e mortes, exigindo as chaves do castello (onde o velho governador reformado prendera tambem os mais compromettidos) mas o homem prudente perdera as chaves a tempo, enfurecendo ainda mais a turba com o seu ardil. Começavam os tiros, preparavam-se os machados, ia começar o assalto, o arrombamento e a matança inevitavel, quando uma piedosa senhora teve uma idéa abençoada.
Viu-se apparecer no meio das ondas do povo em furia uma procissão de padres de cruz alçada, caminhando solemnemente, cantando—Benedictus! Benedictus! Dominus Deus, Israel! E os minhotos sobresaltados paravam, escutavam, como tocados por um milagre. A furia começava por ceder ao espanto. Que vinham fazer os padres? que mandaria Deus agora?... Á sombra do crucifixo erguido, um sacerdote lh’o disse; e caíram todos de joelhos, contritos, batendo nos peitos:—Bemdito! bemdito e louvado seja! (D. João d’Azevedo, Os dois dias, etc.) Era uma scena primitiva, e eloquente para nos mostrar até que ponto o povo tomava parte na resurreição do setembrismo no norte. Seria José Passos a verdadeira Maria-da-Fonte?
Não era de certo elle a encarnação do genio das populações minhotas, superiormente individualisado na poetica pessoa do irmão; mas era uma resurreição do espirito burguez e portuense, de tradicionaes arruaças, na Edade-media, contra os bispos, e depois contra os reis. Bacharel tambem, aprendera em Coimbra as fórmulas benthamistas em que agora se moldava o antigo espirito de rebeldia burgueza. O Porto era um reino seu, porque o genio portuense, em todas as suas varias cambiantes, se achava n’elle individualisado. Era pratico, popular, bonacheirão, e no fundo bondoso, com uma ironia rasteira que os patriotas não chegavam a perceber e por isso os não offendia. Era corpulento, quasi obeso, e com o seu chapeu alto, sempre na cabeça, os collarinhos antigos que chegavam á raiz dos olhos, a sobrecasaca longa, o cinturão e a espada pendente, esbaforido, communicativo, abraçando toda a gente nas ruas, satisfeito de si, feliz, na paz da sua consciencia e na importancia da sua pessoa: José Passos era a imagem d’essa burguezia ingenua das cidades de tradições feodaes, rebellada contra os irmãos burguezes que o novo systema levantára á classe de aristocratas.
José Passos reinava no Porto como um pater-familias: todos eram filhos, amigos, patriotas, irmãos. A rua era uma permanente assembléa, e o governo similhante ao que a historia nos conta das velhas republicas da Grecia, e das communas ou concelhos da Edade-media. Resolvia-se tudo familiar, popular, patriarchalmente. Faltava o dinheiro? O Passos ia em pessoa ao banco, (Commercial) entrava na thesouraria, dava no balcão um sonoro murro, e exclamava: «Arre! D’aqui ninguem sae!» E contava, atava o sacco e partia. (Macedo, Traços) Assim tirou 67 contos ao banco Commercial, e 16 á companhia dos vinhos. (Ibid.) Ninguem punha em duvida a sua honradez e o seu espirito de economia burgueza era falado com motivo. Arranjou o governo e a guerra, durante quasi um anno, com mil contos, se tanto. Conhecia a fundo todos pormenores da administração: era um homem do officio politico, pratico, sem a sombra de uma idéa, apenas com as fórmulas e rotulos decorados na mocidade. N’isto via-se o contrario do irmão.
A sua bonacheirice, a sua franqueza popular alegravam, incutindo esperanças, dissipando duvidas, afagando ambições, lisongeando vaidades. Promettia sempre, tudo. Que proporções viria a ter a Alfandega, se lá entrassem todos os que pediam empregos, e a quem o tribuno popular os promettia sempre, invariavelmente? A Alfandega era o eldorado dos patriotas eximios. Com o chapeu enterrado na cabeça descaída sobre o hombro esqueredo, José Passos descia da Casa-pia, onde era o palacio do governo, e os grupos de curiosos, ou de assustados, perseguiam-no. Queria fugir-lhes: não podia. Seguia apressado, e atraz d’elle, como um rebanho, furando, ás corridas, seguia a cauda dos perguntadores. Que ha?—Isto está aqui, está acabado!—E com um tom de mysterio, como quem revela altos segredos (já de todos conhecidos) ia de grupo em grupo animando os espiritos, picando as ambições. Isto ia bem. O nosso conde (das Antas) era para a cousa. E a vaquinha lá de baixo ia rendendo ... ia rendendo. Grande gente!—Queria sumir-se; outro grupo accudia: E de Lisboa?—Excellente! Ha de ir tudo pelo pó do gato ... salvo o respeito devido á rainha!—Mudando de tom e assumpto: É verdade, já sentou praça? Ah, sim? Bom patriota! Assim é que se querem!—Escapava-se: era em vão.
Outro chegava, mysteriosamente, segurando-lhe a banda da sobrecasaca, dizendo-lhe ao ouvido: Ha cartistas dentro da Junta!—Elle, virando-se, com um ar fino, baixinho, respondia: Socegue; bem sabemos; escrevemos direito por linhas tortas. Isto vae bem, vae bem ... (baixando mais a voz, ao ouvido), mas é para nós: não espalhe o que lhe estou contando, ouviu?—O outro inchava-se; elle queria proseguir. Debalde. Um patriota chegava com um plano de campanha infallivel, seguro ... Dê cá; traz isso escripto? Não? Escreva-m’o, escreva-m’o, meu general!—A paciencia começava a fugir-lhe, quando outro vinha com uma combinação dynastica para substituir D. Maria II e resolver tudo pela raiz.—Pois sim, pois sim, meu patriota. Eu já tenho cinco memoriaes para rei. Mande o seu, e será attendido na occasião competente ...
De tal modo conseguia romper, chegar pela Batalha á Aguia d’Ouro, quartel general do setembrismo, no meio da confusão da gente congregada. José Passos chamava a isto o methodo confuso, (T. de Vasconcellos, Prato d’arroz doce) e com effeito nenhum outro methodo podia servir no meio de uma agitação vaga, em que as plebes, sem vontade determinada, só com odio aos Cabraes, seguiam os demagogos presididos por chefes cujo proposito era moderar a revolução, convencer a rainha a que pactuasse com elles. O methodo confuso era o methodo natural de uma cidade em coufusão, de um reino confundido. Todo o Porto era um ágora e realisava o programma radical da omnicracia—o governo de todos por todos.
Da Batalha e do Postigo do Sol, observando as janellas da Casa-pia, espiando a saída de alguns dos da JUNTA, vinham os magotes enchendo as ruas até á Aguia-d’Ouro e em frente do Estanislau. A Praça-Nova e os Loyos, a rua de Santo-Antonio e as Hortas, os Clerigos, a rua das Flores até S. Domingos, e por S. João até á Ribeira: todo o coração do Porto borborinhava de gente, falando, resolvendo, discutindo, ameaçando, com a verbosidade e a sufficiencia ingenitas nos filhos da cidade da Virgem. Os mercadores estavam ás portas sentados nos seus bancos, com a cabeça descoberta, os pés nos sóccos, trocando os seus pareceres com os transeuntes. Estalavam nas lages das calçadas as ferraduras de cavallos a galope, vinham ordenanças da municipal correndo: que seria? Que novidade? O soldado no seu caminho, atravessava os grupos com o officio de papel branco entalado no peito, e abriam-se as janellas para vir vêr: que haveria?—Outras vezes eram cavalleiros que chegavam aos grupos, do outro lado do rio, com a banda a tiracollo, a sobrecasaca desabotoada, em vez de barretina um chapeu desabado; uns sem espada, mas na argola do sellote um bacamarte de bocca-de-sino; outros á paisana, montando bons cavallos, seguidos por creados de farda á velha moda da provincia: eram fidalgos que vinham juntar-se ao povo. A turba acclamava-os, elles paravam, e havia effusões de sentimento, apertos de mão, saudes, vivas:
Eia avante! Eia avante!