Eia avante! Não temer!

Pela santa liberdade,

Pelejar até morrer!

Não descobre o leitor n’esta estrophe o que quer que é de litterario, pouco espontaneo? Que santa é essa santa liberdade? Compare o Rei chegou, francamente plebeu, nada metaphysico; compare o caso de Vianna—Bemdito! e louvado seja!—francamente catholico, tambem nada doutrinario: e diga se n’esse hymno que agora o povo canta, ha a expressão do que elle sente. Não irá o povo levado sem saber para onde, nem porque: apenas impellido por protestos negativos contra os males que o affligem?

São burguezes rebellados, não são o povo em revolução, aquelles que sob a presidencia do Passos se reunem na Casa-pia, o palacio da JUNTA. É uma revolta de communa á antiga, a do Porto. São os popolani grassi, que se levantam contra o podestá de Lisboa. Passos, entendido em politicas, bacharel, plumitivo, não é decerto um Masaniello. O litterato Seabra não vem da rua: traduzia Horacio, falara nas camaras, contara já por alguma cousa na politica (V. a biog. por T. de V. na Rev. contemp.); outrotanto Lobo d’Avila, o general; outrotanto os mercadores de grosso trato; outrotanto o humoristico Almeida e Brito, ouvido nos tribunaes, advogando. Na Casa-pia reinavam patriarchal, espartanamente. Passos tinha os ministerios da fazenda e dos extrangeiros, que ambos cabiam n’uma sala com duas mezas: n’uma elle, na outra o secretario, official maior, amanuenses e tudo, n’um homem só. Quando havia conselho, o pessoal ia para fóra patulear com os patriotas que enchiam os corredores, á espera de novidades. Terminada a sessão, Passos abria a porta, de chapeu na cabeça, penna entre os dedos, chamava o pessoal (T. de Vasc. Prato d’arroz doce) Não illuda porém tudo isto: a installação era provisoria, porque a definitiva esperava-os em Lisboa. Nada queriam destruir: apenas acabar de expulsar os Cabraes para governarem elles, com as suas opiniões e pessoas, das quaes sinceramente julgavam depender a fortuna do povo. O povo era um bom instrumento, mas se tudo fossem soldados, melhor ainda. «José, fiquei de cama por causa de uma constipação. Esta gente (os populares) deve servir-nos como exercito auxiliar, mas a nossa força real deve consistir nos soldados, ou ao menos em homens que o pareçam». (Carta de Almeida e Brito a José Passos; em Macedo, Traços, etc.)


Esta gente, porém, chamada á revolta sentia pulsar-lhe nas veias o antigo sangue de nómadas barbarescos, de bandidos historicos, serranos guerreiros: não os minhotos, mas os transmontanos, os beirões, os extremenhos, e toda a população transtagana. A sedição lavrava pelo reino inteiro. A tyrannia cabralista acirrara o instincto adormecido, e as politicos do setembrismo rebelde davam o pretexto para a explosão. Por toda a parte surdiam guerrilhas; de todos os lados o exercito se bandeava. José-Estevão e Vasconcellos tinham saído de Lisboa a sublevar Santarem, quartel de cavallaria 4; e tres guerrilhas esperavam, dominando na Extremadura, a chegada do exercito que vinha do Porto, com o conde das Antas: Vasconcellos no centro, flanqueado por José-Estevão pela direita e pelo conde da Taipa pela esquerda. A JUNTA nomeara Braamcamp governador civil da capital, in partibus, porque Lisboa era do governo; mas pelo districto o governador, com o conde de Villa Real e outros, andavam de terra em terra alliciando sectarios, fomentando a revolta. (Elog. hist. de A. J. Braamcamp, do a.) Ao sul, mandava Mantas em Setubal, o conde de Mello e Galamba no Alemtejo; o general Celestino levantara-se no Algarve com o guarnição; Castello-Branco, Elvas, e Santarem onde Manuel Passos creara uma JUNTA (D. João d’Azevedo, Dois dias, etc.), eram contra o governo.

A 6 de novembro saíu de Lisboa Saldanha com o seu exercito para se bater com o de Antas. Na capital lavrava um terror verdadeiro, e completa anarchia nos partidos. Presentia-se uma catastrophe, porque os do governo, vendo o opposição da Inglaterra ao auxilio da Hespanha, acreditavam-na alliada da JUNTA e consideravam Wylde um emissario mandado a expulsal-os do poder. Corria que os inglezes davam todo o dinheiro aos rebeldes. E porque fomentariam assim a rebellião? Para minar a ordem reinante em Hespanha, creando tambem lá um partido exaltado que contrariasse a influencia franceza, dominante desde o fatal successo dos casamentos de Guizot. Assim a Inglaterra era a supposta alliada da JUNTA, e não só ella o inimigo do throno portuguez: tambem os falsos cartistas, os perfidos ordeiros. «Cartistas! (dizia uma proclamação) O inglez Palmella, o rapoza Magalhães, o inglezado Athouguia e outros que taes, tratam com um coronel inglez de nos vender á Inglaterra. Fóra com os traidores! fóra com os marotos! Se não querem deixar-nos a bem, saiam a mal: a pau ou a tiro! Fujam ou morrem!» (No Livro azul, 19 de nov.)

Tal era o estado do centro e do sul. No norte, áquem Tamega, obedecia tudo ao Porto; mas em Traz-os-Montes Cazal, declarando-se pelo governo de Lisboa, veiu descendo, na esperança de combinações cartistas preparadas dentro da cidade da JUNTA. Dois regimentos se bandeariam, indo soltar o duque da Terceira e Cazal apoderar-se-hia da cidade. Mas dos officiaes comprados, uns não estavam seguros dos sargentos, outros receiavam as consequencias do combate: logo que os dois regimentos (3 e 15) se denunciassem, seriam provavelmente esmagados pela populaça; e a patuléa iria á Foz, e a consequencia seria o assassinato do duque e seus companheiros. (T. de Vasc. ibid.) Em vão, portanto, desceu Cazal até Vallongo; em vão esperou; e despeitado por ter de recuar, vingou-se trucidando barbaramente as aldeias que fugiam d’elle para os altos das serras—Agrella, Villarandello, Constantim, (D. João d’Azevedo, Os dois dias, etc.) Pobre gente sacrificada ás contendas liberaes! Era o primeiro sangue que corria em abundancia, n’este novo episodio da historia sangrenta de vinte annos! (1831-51)

Cazal retirou sobre Chaves, e do Porto saíu Sá-da-Bandeira com uma divisão para o bater. Encontraram-se em Val-Passos, (16 de nov.) onde dois dos regimentos do Porto se bandearam para o inimigo, dando-lhe a victoria. Batido, o general regressou pelo Douro ao Porto, onde havia uma desordem tão grande como a da capital. A JUNTA era um cháos patriarchal: cada cabeça, cada sentença. Apenas a sedição se declarara, e já os burguezes rebeldes começavam em rixas: que faria se vencessem! Manuel Passos chegara ao Porto, fugindo ao conde da Taipa de quem os soldados tambem fugiam, por elle os sustentar a epigrammas. (Azevedo, Dois dias, etc.) Antas não bolia de Santarem, esperando que Saldanha o fosse desafiar, em vez de aproveitar da fraqueza do inimigo. Cazal ficára dominando em Traz-os-Montes. A sedição parecia um fogo-de-palha: tão breve crescera, como ia morrer. Wylde chegára, falara, apresentara as suas propostas, como delegado de Palmerston que de Londres resolvera conciliar os inimigos: mas era inutil. O burguez é teimoso. No meio de tão graves difficuldades, occupavam-se os da JUNTA a mascarar-se de fidalgos, distribuindo entre si titulos, commendas, cartas-de-conselho. (Azevedo, Dois dias, etc.) Sempre assim tinham sido as communas rebelladas contra os barões. A principio, o Porto só falara em paz: agora que a derrota de Val-Passos o ameaçava de morte, a sua voz tinha ameaças. Levantára-se contra o «systema de sophisma, fraude e corrupção»; houvera «bayonetas contra o peito dos eleitores desarmados, (45) descargas de fusilaria: o sangue dos cidadãos correra». E era um tal governo que a rainha restaurara em 6 de outubro! Queria «lançar grilhões ao paiz?» Não; por força estava coacta. Mas «seu augusto esposo descera da sua elevada posição á de simples empregado de um ministerio protervo».—«A Europa (leia-se Wylde-Palmerston) não consentirá que extrangeiros (leia-se hespanhoes) venham roubar um paiz innocente á liberdade!» (Manif. da Junta do Porto, 3 de dezembro) Que singular insistencia no qui-pro-quo! D’onde vem o motivo? Do facto de a JUNTA pedir auxilio a um povo cuja soltura receia; de querer os revolucionarios sem a revolução; de appellar para as plebes, para ficar burgueza; de proclamar a democracia e ao mesmo tempo um respeito official á rainha, que injuriava em particular e por vontade quereria vêr derrubada, necessitando por politica mantel-a no throno—mas coacta, de uma verdadeira coacção, e não supposta, como a allegada no Manifesto e em que ninguem acreditava.