As consequencias de uma situação tão singular, quasi ridicula, viram-se quando, no fim, victoriosa, a JUNTA achou que a victoria lhe não servia e lhe era indispensavel ser vencida; essas consequencias viam-se já na falta de unidade nos planos, no rivalidade dos commandos, deploravel mal que deu de si a morte de muita gente.
A guerra, generalisada a todo o reino, em bandos, columnas e guerrilhas, tinha porém a Extremadura como theatro principal. Antas e Bomfim com o grosso das forças estavam em Santarem, o conde de Villa-Real em Ourem. Foi contra este, para o bater, que Saldanha destacou uma brigada sua (4 de dezembro) ao mesmo tempo que Antas destacava Bomfim para cortar a retirada d’essa brigada, cousa que não conseguiu. Em Leiria, porém, uniu-se a Villa-Real, e, reforçado com mais tropa mandada de Santarem, Bomfim commandava cousa de 3:000 homens, quando foi surprehendido por Saldanha, vendo-se obrigado a recolher-se a Torres-Vedras. Dizem que ao começar a batalha (22) o pobre general sempre infeliz se escondera n’uma egreja, mettido n’um confessionario, com uma bandeira preta cravada no telhado a indicar um hospital de sangue. (Azevedo, Dois dias, etc.) Diz-se mais que Antas, do seu quartel-general, ouvia a acção e não quiz acudir. (ibid.) Como quer que fosse, Saldanha obteve uma victoria cruel, ficando entre os mortos o illustre Mousinho d’Albuquerque, merecedor de melhor sorte. O governo ganhava uma batalha, mas vencer era-lhe impossivel. A guerra fervia por todos os lados e de todos os mondos. Desde que os litigantes tinham declarado a intransigencia, acontecia absolutamente o mesmo que se observara em 32-4: nenhum dos combatentes podia vencer, nenhum ser anniquilado. A guerra chronica é a sorte das nações arruinadas. O governo não podia vencer, mas podia vingar-se; podia repetir D. Miguel em cuja sítuação se achava, e fel-o, perdendo mais com a vingança do que lucrara com a victoria. Os prisioneiros (43) de Torres-Vedras, degredados para Africa no Audaz (1 de fevereiro de 47) aggravaram o labeu de sanguinario que a affinidade cabralista punha no governo.
3.—O ESPECTRO
Quando Sá-da-Bandeira, vencido em Val-Passos, depois de ter retirado pelo Pinhão e embarcado, descia o Douro para recolher ao Porto, ao passar em frente das Caldas d’Aregos, foi incommodado por tiros que partiam das montanhas agrestes da margem. Era o Cazal que o perseguia? Não; o Cazal retirara tambem para Chaves.—Desembarcou. Era o espectro miguelista: um bando de quasi um milhar de homens tendo á frente Macdonell, já nosso conhecido de Santarem em 34 ... Como espectro, sumiu-se, dissipou-se, mas deixando um negro terror no animo de todos.
Quem evocára tão cruel apparição? Qual o réu d’esse crime de leso-liberalismo? A JUNTA, diziam de Lisboa. O partido de setembro já desde 34 parcial pelos vencidos, coalisado com elles em 42, em 45, estava agora positivamente alliado para a guerra. Mas não tinham os guerrilheiros do Macdonell feito fogo contra Sá-da-Bandeira? É que a JUNTA, ao que parece, sem positivamente se alliar, deixava crescer a desordem. Ella appellava para os exercitos da Maria-da-Fonte, o povo-armado, e esse povo que em Vianna caíra de joelhos ouvindo a homilia dos sacerdotes, tinha ainda vivas as raizes da velha religião que reverdeciam. A JUNTA, diziam do Porto, (Livro azul, cartas do consul, 18 de nov.) «não tem dado attenção ás guerrilhas miguelistas e hade arrepender-se. A força d’ellas vae todos os dias crescendo. São mais para temer do que pensam. (c. de 27) Todo o Minho jura essas bandeiras, e ha planos positivos. Muita gente dará dinheiro; talvez até a companhia dos vinhos, cujos directores na maior parte são miguelistas. D. Miguel tem já sido positivamente acclamado. Ha pois tres partidos hostís em campo, porque se os miguelistas se têem batido até aqui sob a bandeira da opposição constitucional, agora voltam-se já contra os setembristas, depois do episodio de Aregos». (Livro azul, Southern a Palmerston, 3 de dezembro)
No proprio dia em que o ministro inglez mandava dizer isto para Londres, affirmava a JUNTA no seu Manifesto que «a facção sanguinaria organisou guerrilhas para acclamarem D. Miguel!» Macdonell era para muitos um enygma, e não faltava quem, com effeito, o acreditasse mandado pelo governo, ou emissario da França para levantar o miguelismo, dando assim motivo á intervenção que esmagaria o setembrismo, forçando a Inglaterra a saír da sua reserva. Se assim foi, o cartismo jogava com fogo; e tanto em Lisboa como no Porto, querendo utilisar em proveito proprio o povo genuino, corriam o risco de serem saccudidos por elle. Iam acordar ao seu tumulo um cadaver? Iam galvanisar um morto? Queriam conquistar com elle o poder, ou esmagar os rebeldes? Mas o espectro erguia-se, e a sua voz rouca, mas longa e retumbante, acordava as populações da indifferença, falava-lhes uma linguagem sabida de tempos antigas, falava-lhes no Throno e no Altar destruidos.
E a voz do espectro caminhava, convertia. Já Macdonell e Garcia, um hespanhol, (Azevedo, Dois dias, etc.) tinham entrado em Guimarães, (25 de novembro) já occupavam Braga. Todo o Minho acclamava D. Miguel. Corria que havia de casar com uma filha do marquez de Loulé, fidalgo alistado no setembrismo, partidario da JUNTA, e que nada fazia para coarctar a propagação d’esta nova e affirmativa Maria-da-Fonte. Em Guimarães havia illuminações e festas (4 de dezembro); e no Porto acreditava-se que a infanta Isabel-Maria estava á frente da restauração. Macdonell em Braga já recusava gente: iam do Porto offerecer-se-lhe em massa, fugindo á tyrannia burgueza do gordo Passos, ás rusgas com que se alistava gente em monterias como a lobos, (Livro azul, carta do consul, 18 de nov.) iam procural-o de todo o Minho por onde corria um protesto formal contra esta gente, Cabraes e não Cabraes. (Ibid. carta do consul, 11 de dezembro)
E a JUNTA a affirmar que eram obras do governo para a comprometter! E o governo a dizer que era o crime da patuléa! Quando era a positiva consequencia da liberdade e dos seus coripheus, quaesquer que tivessem sido as primitivas origens da sedição: ou o tacito applauso do Porto, ou as intrigas franco-hespanholas de Lisboa, ou ambas simultaneamente. Se fôra o plano do governo, elle devia folgar porque o exito excedia as esperanças. O povo tomara ao pé da letra as falas insidiosas dos agitadores, e sem curar, sem saber de intrigas, via chegado o momento de liquidar contas antigas. Errantes vogavam pelo reino as sombras das velhas classes exterminadas, roubadas. E ao mesmo tempo que o espectro miguelista falava pela bocca dos frades guerrilheiros, falava pela bocca do jornalista Sampaio o Espectro, jacobino, setembrista, patuléa. Da direita e da esquerda ouviam-se as mesmas imprecações de colera, eguaes ameaças. O jornal, occultamente impresso a bordo de um navio no Tejo, apparecia em toda a parte, como espectro que era, condemnando em pessoa a rainha, a CARTA, a monarchia, todo o liberalismo:
Estão em presença dois principios, o popular e o pessoal. Mas o governo pessoal não triumpha e o principio revolucionario vae supplantal-o. O que fica sendo uma realeza vencida? Que prestigio póde ter um rei que desembainha a espada ferrugenta e que depois é obrigado a despir a farda no meio da rua? A realeza vilipendiada não é somente inutil, é um mal. O paço é incorrigivel: conspira sempre. Uma rainha que se declara coacta seis mezes em cada anno, não é rainha. O paço é a espelunca de Caco, onde sempre se teem reunido os conspiradores. A purpura dos reis tem servido para varrer a immundicie dos palacios e dos cortezãos mais abjectos. (Espectro, O estado da questão)