Assim vociferava o espectro jacobino, reclamando a abdicação da rainha; e ás suas vozes respondiam os eccos do espectro miguelista, condemnando a nova dynastia, acclamando o rei vencido em 34. E quando, no seu primeiro numero, o Espectro desenrolava o sudario da crise financeira, a restauração no Minho, com uma voz mais verdadeira, não accusava Pedro nem Paulo, Cabraes nem Passos: accusava o liberalismo de ter emprazado o reino á praça de Londres, recordava D. Miguel que reinara cinco annos sem tomar dinheiro emprestado ao extrangeiro, e contava as riquezas desbaratadas, da patriarchal e da casa das rainhas e do infantado e dos conventos, vendo-se agora os frades famintos a pedir esmola miseravelmente.
E tomado de um accesso de franqueza e lucidez, o espectro de Lisboa, contra a rainha, confessava o crime juridico do liberalismo:
O throno da rainha só póde ser sustentado pelos liberaes: a sua corôa é condicional, segundo a CARTA. A um throno despotico, o direito de D. Miguel é melhor. (Espectro n.º 2)
Era o que dizia o espectro minhoto, monarchico e legitimista: o nosso direito é o verdadeiro! O vosso rei um usurpador! O nosso rei é portuguez, o vosso extrangeiro. É uma rainha filha de mãe austriaca e pae brazileiro, casada com allemão; allemães são os mestres e os medicos do paço, o Dietz e o Kessler; inglezas as amas de leite, inglez o cocheiro, franceza a modista. Só ha um portuguez, o capellão, um padre indigno, o padre Marcos!
E os frades animavam-se, contando já com a restauração dos conventos, e os cadaveres da nação morta em 34 erguiam-se dos seus tumulos para ouvir, envolviam-se nos seus lençoes, saíam, caminhavam, em procissão lenta e funebre para Braga, onde Macdonell reinava, em nome do rei esperado dia a dia, outra vez adorado nos altares, chamado em preces fervorosas. Mas Cazal que segunda vez descera de Traz-os-Montes e em volta do Porto andara farejando a ver se achava a combinada brecha, (Azevedo, Dois dias, etc.) de novo teve de retirar desilludido. A sua crueldade vingara-se primeiro sobre as populações das aldeias serranas, agora ia vingar-se na capital miguelista do Minho que atacou. (31 de dezembro) Vencida uma batalha sangrenta, começou pelas ruas a matança desapiedada. Eram tiros, gritos de misericordia, imprecações de desespero, e um matar cruel e duro na gente amontoada pelas ruas. O sonho de uma esperança morria breve afogado em sangue, e os cadaveres com os seus lençoes tintos de vermelho tornavam pesadamente ás suas covas. Caía a tarde, escurecia a noite, pelas esquinas das ruas havia montões de mortos e poças de sangue coalhado por entre as pedras. Os que ficavam, abraçados a Deus, varrida a esperança do Rei, foram pondo nos lugares da matança nichos sagrados com cruzes lugubres, allumiadas á noite por lampadas, com a triste lenda: Resae por alma de nossos irmãos que foram mortos n’esta rua! (Azevedo, Dois dias, etc.)
Então a voz do espectro miguelista sumiu-se n’um largo pranto ...
Mas o espectro jacobino de Lisboa, mundano e sem piedade, rangera os dentes, prorompera em bramidos ao presencear a carnagem de Torres-Vedras (22 de dezembro); e a sua colera não teve limites contra a rainha a quem—oh, velhas, mentidas esperanças!—dera em Londres o sceptro de ouro e a CARTA encadernada a primôr.
A côrte dançou quando ouviu dizer que houvera muito sangue derramado. O valido e os protectores beberam á saude das victimas! A rainha deu beija-mão á sua criadagem! (Espectro n.º 5) Quando a rainha soube da morte e aprisionamento dos bravos, saíu ás janellas do palacio, e como uma bacchante gritou para a sua guarda—Victoria! victoria!—No dia da chegada dos prisioneiros saíu a passeio em signal de regosijo. (Ibid. n.º 6)
E o espectro, lembrando-se da longa e dura guerra de seis annos, do exilio e dos soffrimentos padecidos para exaltar essa rainha, dizia-lhe do fundo da sua recondita imprensa: