Morremos todos por via de ti! Morrendo te acclamámos, e tu exauthoraste-nos e mandaste-nos assassinar! O nosso sangue cairá sobre ti e sobre a tua descendencia! (Ibid. n.º 6)
Mas quem observa, não acha na voz d’este espectro a sinceridade simples, a solemnidade epica das vozes espontaneas do povo—«Resae por alma de nossos irmãos!» A alma que aqui gemia era composta de fórmulas doutrinarias, intrigas politicas, odios e ambições pessoaes. O setembrismo falara sempre em nome do povo, mas esse povo era uma fórmula rethorica, mais ou menos sincera no animo da gente democratica. Mais romanticos, menos doutrinarios, mais calorosos mas menos audazes e intellectualmente menos fortes, os setembristas eram mais sympathicos e mais chimericos. O povo de que falavam apenas acordara duas vezes: uma para queimar as papeletas da ladroeira em maio, outra para acclamar D. Miguel, para caír, e ficar resando por alma dos martyres, em dezembro. Partidos, intrigas, pessoas, ignorava-os.
Por isso a palavra do Espectro é contradictoria comsigo propria; por isso a lingua se lhe enrola e as phrases saem confusas, baças, desde que, cessando de injuriar a rainha, pretende affirmar as ambições da nação. «O povo respeita a rainha, respeita o throno.» (n.º 2) Que atroz ironia é esta, depois do Estado da questão que assentou o programma do Espectro? «Para o rei ser irresponsavel é necessario que não faça o mal.» (Ibid.) Singular aberração, a idéa de um rei irresponsavel no bem, responsavel no mal! É essa a doutrina liberal, genuina, que oppunham ao cartismo?
Taes singularidades, que pintam o desnorteamento das cabeças setembristas, poderiam multiplicar-se, se fosse necessario insistir n’um facto já conhecido e demonstrado por varios modos. A guerra tinha principalmente por alvo o throno: pois que esse throno, no meio da incompatibilidade das clientelas politicas, era forçado a optar e optava por uma d’ellas; pois que a fome e a excitação dos animos faziam da politica uma campanha; pois que, finalmente, a rainha não possuia o caracter astuto para usar das artes de um Luis Philippe, mas sim a força viril para entrar pessoalmente na lucta. Declarada a crise, o liberalismo, com effeito, tem de abdicar, e manha ou força são indispensaveis no throno para illudir ou para rasgar as teias constitucionaes. Quando voltam a paz, a indifferença e a fartura, por isso, quando não ha questões, apparecem então os verdadeiros reis constitucionaes, pela razão simples de que a sociedade prescindiria perfeitamente de chefe.
A rainha «bate o pé no paço e diz que se vencer, a maior parte dos seus inimigos hade saír do reino. E se não vencer?» (
Espectro
n.º 6) Pois nem depois de Braga e Torres-Vedras tinha vencido? Não, não tinha; porque as forças odientas das clientelas politicas exprimiam a crise constitucional do paiz. Não tinha vencido; e para vencer seria mister que viesse de fóra uma intervenção apoiar e defender, ao mesmo tempo, o throno ameaçado pela revolução armada, e os proprios chefes d’essa revolução que tinham medo da victoria e queriam ser forçados a ficar vencidos.
Clame, clame embora o Espectro que «o tratado (34) morreu, apenas se conseguiu o fim especialissimo para que se contratara; e senão, risquem dos diplomas a phrase—rainha pela graça de Deus e da constituição, e substituam: por graça dos alliados e vontade dos extrangeiros»; clame, clame embora o Espectro. Essa intervenção, pedida a principio por Lisboa assustada, é no fim egualmente necessaria para o Porto embaraçado e afflicto com a quasi victoria consummada.
Essa intervenção é egualmente indispensavel, porque depois dos morticinios de Braga e de Torres-Vedras, os setembristas vencidos deram francamente a mão ao miguelismo que, tambem esmagado n’um ponto, se levanta em varios outros de um modo já prudente e politico, reconhecendo a liberdade patuléa. Manuel Passos mantinha ainda a velha esperança de nacionalisar o liberalismo, e fazel-o equivalia a converter os sectarios de D. Miguel. Povoas que saíra a campo na Beira, dizia-se convertido; mas repetiria o dito o partido inteiro, se acaso a revolução vencesse?